Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

UM SONHO ADIADO NUMA AMÉRICA SEM ALMA

Junho 08, 2020

J.J. Faria Santos

M.L.King_1963.jpg

“Tenho um sonho de que os meus quatro filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu carácter.” 57 anos depois, o sonho de Martin Luther King permanece adiado. E o lar dos bravos e a terra dos homens livres assemelha-se cada vez mais a uma república das bananas.

 

A 5 de Setembro de 1958, King declarou perante um juiz: “Fui vítima de arbítrio policial gratuito. Fui agarrado nas escadas do tribunal, empurrado para a rua com os braços dobrados, sufocado e pontapeado. Todavia, no meu coração não há nem ressentimento nem amargura contra os polícias mencionados. (…) Estes homens, tal como demasiados dos nossos irmãos brancos, são vítimas do seu meio, um meio cego há mais de três séculos pelos efeitos da desumanidade de escravatura e da segregação.” A 25 de Maio de 2020, George Floyd morreu devido a uma redução do fluxo de sangue para o cérebro, motivada pela compressão que o joelho do polícia que o manietara exercera sobre o seu pescoço. “Por favor, não consigo respirar”, implorou Floyd perante o impassível agente da autoridade com uma mão descontraidamente aconchegada no bolso das calças. A América era novamente confrontada com o racismo institucional e a revolta eclodiu alimentada pela indignação e pela suspeita da impunidade. E embora muitos protestos tivessem um carácter pacífico (descontando os radicais que aproveitaram a boleia e os criminosos que se dedicaram ao puro vandalismo e à pilhagem), tem sido difícil seguir o exemplo de King (“Temos de conduzir a nossa luta sempre no nível elevado da dignidade e da disciplina. Não devemos deixar que o nosso protesto criativo degenere na violência física. Temos de nos erguer uma e outra vez às alturas majestosas para enfrentar a força física com a força da consciência.”)

 

Não ajudou que a comandar o país esteja um incendiário inconsciente e ignorante, um narcisista que se julga omnipotente, um mentiroso compulsivo que propaga a desinformação e se mostra geneticamente incapaz de liderar pelo exemplo. O resultado é a “carnificina americana”, expressão que ele usou para definir a era pré-Trump, e que agora parece adequada para definir o seu mandato assente no conflito e na divisão. Robin Wright anota na New Yorker que em 2016, num comício, Trump afirmou: “Esta eleição determinará se permaneceremos um país livre na mais verdadeira acepção da palavra ou se nos transformaremos numa república das bananas corrupta, controlada por grandes doadores e governos estrangeiros”. Inadvertidamente, ou talvez não, ele parece ter acertado. A América é governada por uma espécie de “ditador de opereta”, apostado em dinamitar todos os freios e contrapesos da democracia para se perpetuar no poder, que chamou para o seu governo amigos multimilionários, doadores e correligionários com propensão para a bajulação, e que tratou com displicência as acusações de interferência nas eleições americanas por parte de Putin. O único factor que parecia contribuir para alguma estabilidade e bom senso (a presença de militares) aparenta estar a esboroar-se. Em declarações à The Atlantic, a propósito da agora infame fotografia do Presidente com a Bíblia, James Mattis, ex-secretário da Defesa, declarou: “(…) jurei apoiar e defender a Constituição. Jamais imaginei que a tropas que fizeram esse mesmo juramento seria ordenado, em qualquer circunstância, que violassem os direitos constitucionais dos seus concidadãos – muito menos para possibilitar uma oportunidade fotográfica bizarra para um comandante supremo eleito, com os chefes militares ao seu lado.”

 

Sintomaticamente, numa altura em que à crise de saúde pública motivada pelo coronavírus se junta a degradação da conjuntura económica e a agitação social provocada pelo assassinato de George Floyd, a celebrada resiliência da democracia americana parece estar a ser posta em causa. O historiador Robert Kagan afirmou à New Yorker que “muito do que faz funcionar o nosso sistema depende da fidelidade a um ethos [conjunto de costumes e práticas] democrático por parte de todos os envolvidos”, sendo que Trump já demonstrou que o “sistema contém em si a capacidade de ser subvertido.” Na mesma revista, Masha Gessen, num artigo intitulado A performance fascista de Donald Trump, escreveu que “na sua intuição, o poder é autocrático; ratifica a superioridade de uma nação e de uma raça; reivindica a dominação total; e suprime impiedosamente toda a oposição”. Ou seja, a democracia pode estar em perigo.

 

Em tribunal, em Setembro de 1958, Martin Luther King afirmou também que “a América corre o risco de perder a sua alma e, desse modo, resvalar na anarquia fatídica e no fascismo paralisante. Tem de acontecer alguma coisa que acorde a consciência adormecida da América antes que seja tarde demais”. Palavras proféticas que permanecem actuais e exigem um sobressalto cívico. E desiludam-se os que acham que isto é um problema americano. Há uma quadrilha de seguidores de Trump prontos a cavalgar os ressentimentos e as misérias morais e económicas um pouco por todo o mundo.

 

Imagem: Martin Luther King em 1963, no dia em que fez o célebre discurso "I Have a Dream" (Wikimedia Commons)

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D