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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

UM HERÓI PORTUGUÊS

Fevereiro 08, 2026

J.J. Faria Santos

LeiMar.gov.jpg

Um vídeo procurou resgatar de um “contexto de invisibilidade” o trabalho de um herói português. Com uma notável economia narrativa (menos de vinte segundos), a peça hagiográfica, pontuada por uma música tensa, retratava a dedicação ao serviço público de alguém que tem no seu currículo o anúncio da “proibição” de uma bactéria e, mais recentemente, o diagnóstico do “acto de desinformação com elevada difusão pública”.

 

A montagem é dinâmica sem ser frenética. Um mapa, uma conversa que se imagina permeada pela urgência, o SIRESP em metáfora em primeiro plano. O herói a falar ao telemóvel ou a dar uso aos seus polegares oponíveis, e a ser vítima de onicofagia (transtorno de ansiedade com possíveis consequências ao nível ungueal, dental e mandibular). E antes do plano final, a cena magistral, uma espécie de furtivo descanso do guerreiro, um insert a preto-e-branco (para carregar no páthos), cabeça encostada à parede e lábios entreabertos. Como se estivesse a tomar fôlego. Acusado de autopromoção descarada e de propaganda obscena em contexto de tragédia (bem visível), o herói viu-se forçado a apagar o vídeo, pretextando um qualquer mal-entendido, não tendo, porém, invocado o direito ao esquecimento de uma publicação que, não obstante a supressão, terá uma “elevada difusão pública”.

 

António Leitão Amaro foi apanhado no turbilhão da calamidade (refiro-me ao “comboio de tempestades” e não ao elenco governativo chefiado por Luís Montenegro). Acusado de incapacidade de prevenção, coordenação e reacção, e de falta de sensibilidade social, o Governo ainda viu (supremo ultraje) o Presidente da República opinar que a comunicação “não correu bem”. E se o primeiro-ministro garantiu que “nunca o país experimentou procedimentos tão expeditos, tão rápidos para uma situação tão excepcional como esta”, Marcelo, no seu afamado estilo, logo afiançou de viva voz estarmos perante “uma revolução na forma de actuação da administração pública”, para, no dia seguinte, fazer constar no Expresso, via fontes de Belém, que “teme [uma] crise prolongada e atrasos nos apoios”.

 

No meio do furacão opinativo, o primeiro-ministro foi asperamente censurado pela forma como se referiu às vítimas mortais das tempestades. Ignorando a natureza idiossincrática da sua retórica e a paixão por Luís de Camões de que já deu provas, ninguém deu mostras de perceber a ressonância camoniana da formulação “aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida”. Nada impede que estes se transformem naqueles “que por obras valorosas / Se vão da lei da Morte libertando”. Que haverá de mais valoroso do que defender uma vida, a integridade dos seus pertences, o inventário de uma vida?

 

De facto, lamentavelmente, este país não é para heróis, nem para primeiros-ministros que estão “mesmo a gostar muito de governar”. Muito menos para a epopeia do quotidiano, quando, à semelhança do vate, nos interrogamos: “Onde pode acolher-se um fraco humano / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno?”

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