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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

UM ESBOÇO DE TEOCRACIA

Maio 15, 2022

J.J. Faria Santos

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O primeiro foco do incêndio deflagrou com o projecto de decisão do juiz Samuel Alito que, a ser aprovado, coloca o Supremo Tribunal americano a decretar que o aborto “não está protegido por qualquer disposição da Constituição”. Depois, ganhou relevo uma nota de rodapé do projecto, descontextualizada e erradamente atribuída à juíza Amy Barrett Cohen, que aludia a uma “oferta interna de crianças” (“domestic supply of infants”). Por fim, num texto clarividente, conciso e incisivo intitulado “Eu inventei Gilead. O Supremo Tribunal está a torná-lo real”, escrito para The Atlantic, Margaret Atwood sustentou que “a opinião de Alito reivindica basear-se na Constituição americana. Mas conta com a jurisprudência inglesa do século XVII, uma era em que a crença na bruxaria causou a morte de muitos inocentes”. Subitamente, os EUA parecem estar em movimento de aproximação ao universo patriarcal, repressivo e teocrático de A História de uma Serva. Isolada do contexto, a expressão “domestic supply of infants” adquiriu uma ressonância sinistra, e ainda mais quando falsamente associada a Barrett Cohen, que transmite uma vibe de Serena Waterford, a antifeminista mulher do comandante Waterford do livro de Atwood.

 

Trump nunca escondeu o intento de transformar o Supremo Tribunal no posto avançado da agenda conservadora da sua base de apoio. A reversão de Roe v. Wade significaria o assalto definitivo à autonomia da mulher e à sua liberdade e autodeterminação, num processo de expropriação em que, citando o artigo de Atwood, “os órgãos reprodutivos da mulher não pertenceriam à mulher que os possuía”, mas sim ao Estado. Significaria o fim da multiplicidade de mundividências, de formas de expressar a condição feminina e a sua relação com a maternidade. Significaria um sinistro abrir de portas às brigadas do bem comum, apostadas na homogeneização de comportamentos e na hegemonia dos seus preceitos (e preconceitos). Com o respectivo aparelho de censura. Como desabafava a serva no livro de Atwood, referindo-se à implacável tia Lydia: “A sua voz é devota, condescendente, é a voz daqueles cujo dever é dizer-nos coisas desagradáveis para nosso próprio bem. (…) Cabe-lhe a ela definir-nos, temos de sofrer os adjectivos dela.”

 

2022 está a mostrar-nos que o improvável, mais do que isso, o irracional e o que julgávamos impossível pode cavalgar a nossa ingenuidade e desafiar a   nossa incredulidade, instalando o choque. É por isso que quando Margaret Atwood  escreve na The Atlantic que “as ditaduras teocráticas não são apenas parte de um passado distante” e se interroga acerca do que poderá “impedir os Estados Unidos de se transformarem numa delas”, a nossa reacção não se pode limitar a remeter estas reflexões para o domínio da especulação. A distopia espreita apenas o relaxamento da nossa vigilância do processo democrático.

 

Imagem: theguardian.com

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