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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

UM DRINK DEPOIS DA ENTREVISTA

Agosto 09, 2020

J.J. Faria Santos

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Ocasionalmente, seguramente a bem da nação, um pivot incisivo interpela sem piedade, no noticiário televisivo, um governante ou um político em geral. Ungido de missão nobre, guiado pelo mantra do contrapoder, aplica-se na inquirição indignada ou mesmo no ralhete, enquanto o seu interlocutor, subjugado pela humildade democrática e pelo dever de aceitação do escrutínio da sua acção se esmera na bonomia com que apara os golpes e desenvolve o contraditório. Se assim não for, o entrevistado é imediatamente catalogado como sendo arrogante, prepotente e incapaz de aceitar o julgamento dos cidadãos.

Desta vez o protagonista foi Bento Rodrigues, de semblante carregado e estribilho em riste (a fome), perante a mal-amada ministra da Cultura, criatura cuja acção (inacção?) tem sido contestada e cujas punchlines nos exercícios de ironia tendem a ser vistos como execráveis, quer se trate  do quão “óptimo” é estar no México e não ler jornais portugueses ou da sua predilecção pelos drinks ao fim da tarde. Ainda por cima, a tirada do drink foi dirigida a uma jornalista da SIC (pecado capital, claro). E foi encarada como um desrespeito, um incómodo sacudido com sobranceria.

De todo o episódio, e independentemente dos méritos ou deméritos dos argumentos aduzidos, retive a serenidade e a firmeza com que a ministra foi respondendo ao jornalista. Bento Rodrigues, cujo estilo contido e sóbrio aprecio, apesar de ter conduzido uma entrevista que, por vezes, pareceu ser mais um veículo para um julgamento moral do que para obter respostas as questões prementes, conseguiu, ainda assim, manter-se afastado do ar e do tom gratuitamente insolente e displicente que Rodrigo Guedes de Carvalho utilizou com a ministra da Saúde.

Ainda bem que temos uma comunicação social livre e que se sente interpelada pelas condições de sobrevivência de artistas e criadores. Mesmo quando parece aturdida pelo espectro da fome dos outros, como se, temporariamente fora da sua bolha profissional restrita de ordenados de milhares e transferências de milhões, aterrasse na “irrealidade” de apoios de 219 euros. Este país até pode não ser para artistas, mas ainda preza a liberdade dos órgãos de informação e reconhece o seu papel imprescindível para a democracia. Pode haver quem ache que “as empresas de comunicação social são iguais às que fabricam móveis, sapatos, têxteis”, mas ainda ninguém se atreveu a apelidá-las de “inimigas do povo” como na demencial autocracia americana. A sede de liberdade não pode ser beliscada por um conjunto de perguntas impiedosas ou assertivas, ou por um naipe de respostas espirituosas ou despeitadas. Para desanuviar o ambiente, em nome do bem comum, nada como um drink depois da entrevista.

 

Imagem: mag.sapo.pt

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