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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

UM DRAMA SHAKESPEARIANO DE FANCARIA

Maio 17, 2020

J.J. Faria Santos

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A política portuguesa, nos últimos dias, assemelhou-se a um episódio desvitalizado da série House of Cards, a uma manhosa comédia de equívocos ou a um drama shakespeariano de fancaria. A cena de um ministro, académico de prestígio, com um desempenho maioritariamente reconhecido como relevante e com popularidade política, a ser abalroado em público pelo sempre fervilhante Presidente da República, enquanto que o primeiro-ministro, porventura ainda convalescente da fúria causada por uma “falha de comunicação”, ostentava a presença de espírito suficiente para com visível gozo lançar a recandidatura de um surpreendido Marcelo, parece material de ficção política para prime-time TV.

 

Passemos por cima do nada despiciendo pormenor de as ajudas estatais ao Novo Banco não dependerem objectivamente de qualquer auditoria. Esqueçamos, por momentos, a compreensível animosidade nacional causada pelo sorvedouro de dinheiro que os sacrossantos bancos e o seu canónico “risco sistémico” têm representado. Relevemos “a falha de comunicação” de Centeno e, antes disso, os seus flutuantes estados de espírito supostamente causados pelas múltiplas oportunidades de carreira. Ignoremos a eventual imprudência do primeiro-ministro ao fornecer determinadas garantias aos seus intermitentes parceiros políticos. Não seria avisado que Costa desse uso à sua celebrada habilidade política para, no recato dos gabinetes, desfazer equívocos que a acção de Centeno pudesse ter causado, ou clarificar critérios de actuação futura, sem caucionar a ingerência presidencial? Tudo está bem quando acaba mal, desde que pareça bem. A culpa foi da ficha retardatária, o primeiro-ministro mantém a confiança no seu ministro das Finanças e Marcelo, logo que soube que Centeno mantinha o lugar, tratou de lhe telefonar para desfazer o “equívoco”. Não, não tinha querido atingi-lo. Sucede que, ao saber que os jornais aludiam a um pedido de desculpas alegadamente apresentado a Centeno pelo Presidente, Marcelo imediatamente tratou de emitir uma nota a reafirmar a sua posição. Ele controla a narrativa, ele dispõe da magnanimidade a seu bel-prazer, e qualquer agravo por parte dos súbditos é castigada com a apropriada retaliação.

 

O Presidente também nunca pretendeu pronunciar-se sobre “questões internas do Governo, nomeadamente o que é matéria de competência do primeiro-ministro, a saber, a confiança política nos membros do Governo a que preside”. Claro que não! Como nunca exigiu a demissão da ministra da Administração Interna na sequência da tragédia de Pedrogão Grande (mesmo sabendo da remodelação iminente). Um “confidente” de António Costa afirmou ao Expresso no mês passado que este episódio “deixou marcas”. Não muito profundas, aparentemente, pois não impediram um prematuro e insolitamente entusiástico apoio à recandidatura do Presidente, num golpe audacioso assente no interesse mútuo. Há uma diferença muito significativa entre louvar a cooperação institucional e reconhecer a aprovação popular de que Marcelo usufrui e contribuir activamente para a exclusão de um candidato oriundo do partido no poder. António Costa tem a experiência política suficiente para saber que o segundo mandato presidencial será substancialmente diferente, e que o Presidente, liberto dos constrangimentos de trabalhar para a reeleição com o máximo de popularidade possível, não hesitará em trabalhar para reconquistar o afecto da sua família ideológica e, por conseguinte, minar a acção governamental em nome, evidentemente, do interesse nacional. Se estivéssemos no território da fábula, eu diria que seria avisado encarar Marcelo como uma espécie de escorpião. Um simpático escorpião no palácio das intrigas, incapaz de resistir à sua natureza.

 

Imagem: Twitter do primeiro-ministro

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