NO VAGAR DA PENUMBRA
02 de Janeiro de 2018

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“Tenho sido muito crítica, sobretudo em relação aos noticiários televisivos e à sua dependência financeira do drama baseado na realidade e que neste momento tem como centro a Casa Branca, que seguem como quem segue um guião, de modo muito próximo e com as mesmas ferramentas de um reality show. Vemos a intriga em directo, quem entra e quem sai. O problema é que estes formatos são lucrativos, porque as pessoas vêem as notícias por cabo da mesma maneira que vêem reality shows. Vêem-nas como entretenimento, causam dependência, criam expectativa como as Donas de Casa Desesperadas…” É nestes termos que em entrevista ao Público Naomi Klein, a propósito do fenómeno Trump, se refere a um contexto pejado de fake news e factos alternativos. Klein tem uma visão bastante cáustica do desempenho jornalístico, chegando ao ponto de afirmar que “se consegue quase ver o sofrimento físico nos rosto dos pivots” quando têm de mudar de assunto para abordar matérias da “política real”.

 

No dia seguinte, num artigo no mesmo jornal onde verberava o “tacticismo que domina a política portuguesa”, Pacheco Pereira aludia “a uma comunicação social muito limitada ao ‘caso’ da semana, explorado ad nauseam”. Crítico impenitente das fórmulas jornalísticas prevalecentes, cada vez mais a reboque da indignação do dia nas redes sociais, o historiador já notava em Setembro passado algo que Marcelo Rebelo de Sousa e Donald Trump tinha em comum, e que era o facto de “ambos terem chegado ao poder através de uma contínua utilização do sistema mediático moderno, com criatividade e intuição, moldando o universo dos media aos seus interesses pessoais e políticos”. Nessa altura, Pacheco Pereira notava “a complacência e a cumplicidade” de muitos jornalistas. Agora, vê em Marcelo “um factor suplementar de instabilidade”, e encontra naquilo a que se convencionou chamar de “afectos” nada mais do que “uma fórmula de aumentar tanto a sua popularidade que ela lhe serve de poder em matérias em que constitucionalmente não se devia meter”.

 

Portanto, será pedir demais uma cobertura menos hagiográfica da agenda presidencial? Uma análise mais incisiva às suas motivações e às suas deliberações? Uma visão menos maniqueísta da realidade política em que Marcelo parece tão etéreo que quase ascendeu ao estatuto de líder espiritual da nação? Algo que vá além da crónica das suas viagens pela nossa terra. Não está em causa uma perspectiva globalmente positiva do seu mandato até ao momento (que subscrevo); trata-se de não veicular uma visão acrítica de cada gesto ou de cada palavra. Constatamos a sua omnipresença, supomos a sua omnisciência, mas permitimo-nos duvidar da sua omnipotência. Nem mesmo um reputado constitucionalista pode fazer prevalecer a magistratura dos afectos sobre a separação de poderes.

 

Imagem: Foto de Joyce N. Boghosian (Wikimedia Commons)

publicado por J.J. Faria Santos às 14:52 link do post
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