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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

TRAGICOMÉDIA

Julho 16, 2014

J.J. Faria Santos

Paulette, enquanto aguarda pela sessão de radioterapia, vai-se entretendo a dar palpites, num tom de voz pouco discreto, acerca do facto dos outros doentes usarem ou não peruca. Explica a um alquebrado Jean que o Dr. Chemla lhe diz que ela é uma doente “atípica”, o que quer dizer, apressa-se Paulette a explicar, “que já devia ter ido desta para melhor há muito tempo”. Pascaline e Lionel Hutner têm um drama íntimo a perturbar a sua imagem de casal “cristalizado no seu bem-estar asfixiante”: o filho Jacob está convencido de que é a Céline Dion e até fala com pronúncia do Quebeque. Chantal Audouin acredita que “os sentimentos são mutáveis e mortais”, e despreza os casais, que vê como “uma estrutura ambulante que sobrevive à conta dos solitários”. Acede a um encontro com a mulher legítima do seu amante, Jacques Ecoupaud, e espanta-se com o seu ar “desleixado”. Mas é Thérèse Ecoupaud, com uma revelação fatal, que vai levar Chantal ao internamento numa casa de saúde ao dizer-lhe que Jacques tem outras amantes.

Estes são apenas algumas das figuras que se entrecruzam em Felizes os Felizes, de Yasmina Reza, um romance breve mas intenso, onde a angústia tem uma intimidade desarmante com a hilaridade. De tal forma que uma reflexão num velório acerca do falecimento (“Também eu, penso para comigo, hei-de um dia sufocar na arca da morte”), descamba rapidamente para a evocação de um episódio em que o agora falecido usava um casaco Lanvin demasiado justo que o fazia parecer um “sapo-gigante”, e para a alusão ao facto da circunstância dele conduzir um Peugeot descapotável ter tido como resultado que, ao “chegar a Paris, um pombo cagou-lhe em cima”. Não há solenidade nem circunspecção que resista.

Yasmina Reza mergulha nos mais recônditos recessos da alma humana, analisando desde as mais banais circunstâncias da vida conjugal (“Devia um dia estudar-se este silêncio nocturno, típico da viagens de carro nos regressos a casa, após se ter exibido a felicidade à frente do público, um misto de arregimentação  e de mentira auto-infligida”), até aos mais lúcidos resultados da introspecção (“Há em mim uma região abandonada que aspira à tirania”), passando pelas conclusões incómodas com sabor a senso comum (“a felicidade das pessoas pode ser muito agressiva”).

Yasmina Reza,em entrevista ao Expresso (Atual, edição de 10.05.2014), qualifica o riso como um “recurso maravilhoso”, o que talvez explique esta opção de entremear o escalpelizar dos dramas domésticos com tiradas humorísticas, numa espécie de piedade ou até empatia com as fraquezas humanas. “Mas não será a ideia de felicidade uma idiotice? Teremos mesmo necessidade dessa perspectiva irrealista? Limito-me a achar que viver instantes felizes já é uma sorte e uma glória”, interroga-se ela, quando o entrevistador refere que no livro a felicidade se assemelha quase sempre a uma quimera.

Não é certamente por acaso que o livro abre com uma epígrafe de Jorge Luís Borges: “Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor. Felizes os felizes.” No decurso de uma vida, seguramente, todos teremos alternado os papéis. Fomos amados, fomos amantes, em simultâneo ou em períodos diferidos no tempo, e, voluntariamente ou por força das circunstâncias, com desprendimento ou relutância, prescindimos do amor.

 

(Felizes os Felizes, numa tradução de Ana Cristina Leonardo, tem edição portuguesa da Quetzal.)

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