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NO VAGAR DA PENUMBRA

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TINA

Dezembro 10, 2019

J.J. Faria Santos

President_George_W._Bush_congratulates_Tina_Turner

É como se os anos 80 chegassem aos 80 anos. Uma matemática manhosa ao sabor dos delírios da memória. E isto só é possível porque Tina Turner, cantora, actriz e ícone feminista por excelência, foi capaz de superar traumas e abusos, reinventando uma carreira a partir dos escombros da sua vida privada. O renascimento, o segundo acto, iniciou-se com uma versão espantosa de Let’s Stay Together, celebrizada por Al Green (que tem uma daquelas introduções arrebatadas e arrebatadoras, porventura só comparável ao Somebody Else’s Guy de Jocelyn Brown), mas foi com What’s Love Got To Do With It que o mito se estabeleceu, alimentado pelo vídeo onde Tina passeava as suas belas pernas (enquadradas por um curto vestido de cabedal) e exibia uma cabeleira leonina. Camille Paglia escreveu na Billboard que o tema constitui um “pronunciamento feminista”, na medida em que acolhe “uma liberdade radical de escolha sexual”. Como se pode escutar na canção, quando o amor é uma “emoção em segunda mão” e o coração dispensável pela sua fragilidade e vulnerabilidade, resta o fervilhar físico despertado “pelo toque da mão que faz o pulso acelerar”.

Para quem duvidar do impacto do factor Tina no sucesso do tema, basta a audição da deslavada versão original dos Bucks Fizz para que as dúvidas se desfaçam. Ela conferiu ao tema espessura, autenticidade e fulgor. E sex appeal, claro, que acentuou o traço transgressor. Que ainda hoje, no século de todas as possibilidades e do acesso ilimitado ao outrora inacessível no reino do desejo, permanece actual. Como escreveu Alain de Botton em 2012, na sua obra Como pensar mais sobre sexo, “Está na altura de se dar o mesmo peso à necessidade de amor e à necessidade de sexo, sem o verniz moral por cima. As duas coisas podem sentir-se de forma independente e assumir um valor e uma legitimidade comparáveis.”

Ike Turner, o ex-marido abusivo e parceiro das aventuras musicais iniciais, faleceu aos 76 anos na sequência de uma overdose de cocaína. Tina chega aos oitenta anos como uma sobrevivente (da violência doméstica, do infortúnio familiar e da doença) e com um legado artístico que perdurará. Terminou a carreira há dez anos, porque, compreensivelmente, estava “cansada de cantar e de fazer os outros felizes”, explicou ao New York Times. Nós jamais nos cansaremos de a ouvir, porque ela é simply the best.

 

Imagem: Wikimedia Commons

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