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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O POSTER BOY DO JORNALISMO LIVRE E AS OFENSAS SELECTIVAS

Julho 13, 2025

J.J. Faria Santos

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“As pessoas também se aperceberam que a comunicação social mente muito ou pelo menos manipula, por vezes.” “Vocês são os inimigos do povo, os inimigos das pessoas, ao partilhar uma peça mentirosa, falsa.” “Foi a SIC que manipulou o vídeo, não fomos nós.” Estas 3 frases não foram proferidas por José Sócrates.

 

Consta que pretende fazer “jurisprudência” a tomada de posição dos jornalistas no sentido de “não continuar as entrevistas” a José Sócrates “sempre que houver críticas” ao seu trabalho. O jornalista da SIC Diogo Torres destacou-se pela forma épica como deixou o ex-primeiro-ministro a “falar sozinho”, agastado pelas críticas de Sócrates ao “jornalismo português”.

 

As 3 frases acima reproduzidas são da autoria de André Ventura. Abordado sobre o seu conteúdo, o então director de informação da SIC, Ricardo Costa, classificou de “grandiloquente e patusca” a acusação de serem “inimigos do povo” e “absurda” a insinuação de “manipulação”, rejeitando colocar-se numa posição em que os jornalistas podem ser vistos como “agentes políticos”. Dados coligidos por um estudante de jornalismo revelaram que, entre Outubro de 2019 e Junho de 2024, André Ventura deu 61 entrevistas televisivas, entre elas 15 à SIC/SIC Notícias. Aparentemente, imputações de manipular, de mentir e de actuar como “inimigos do povo” não afectam nem o brio nem a dignidade profissional dos jornalistas da Impresa, ao passo que a proclamação de que “defendem o Ministério Público” é uma acusação suficientemente soez para tornar o jovem Diogo no poster boy do jornalismo livre. No fundo, é bem possível que tudo se resuma à iniludível dinâmica do poder. Sócrates pode espicaçar as audiências, mas é uma figura desacreditada por um processo com acusações gravíssimas e por um comportamento pessoal eticamente repreensível. Já André Ventura é um populista demagogo e um mentiroso compulsivo, com treino televisivo e discurso fluente e torrencial, um íman para as audiências, com uma parte do poder conquistado nas urnas e uma outra parte “oferecida” pelo primeiro-ministro em exercício.

 

A bravata de Diogo Torres em defesa do jornalismo não teve precedentes. E poderia ter tido. Por exemplo, quando em campanha Luís Montenegro, em resposta à interpelação de um repórter da SIC, acusou a RTP de “estar empenhadíssima no caso”. Ou quando, anteriormente, o “núcleo duro” do Governo “soprou” ao Observador que a RTP revelava uma “atitude hostil”. Nessa altura, a direcção de informação do canal público emitiu uma nota rejeitando “insinuações de alegadas estratégias concertadas”, garantindo a prossecução de um jornalismo livre e independente.

 

Se a classe jornalística descobriu no julgamento de Sócrates um estímulo para revigorar a sua independência e, sobretudo, o seu rigor no exercício de informar, talvez fosse bom aplicar esse rigor filtrando o fluxo de propaganda oriundo da central de comunicação do Governo. Ainda para mais quando o líder deste assume ter convicções muito próprias acerca do “jornalismo puro” e da técnica das “perguntas sopradas para um auricular”. Num artigo escrito para o Expresso, Montenegro queixou-se de que quando falava de “temas concretos”, “relevantes (como, por exemplo, a política florestal ou a política da água), respondendo a perguntas pertinentes dos jornalistas”, eles eram “instados a mudar de tema”, questionando-o sobre o “assunto do dia”. Portanto, o “jornalismo puro” assenta exclusivamente em indagações sobre os temas agendados pelo Governo. Por outro lado, o “assunto do dia” deixa de constituir problema quando é utilizado como joker por um governante. Vejamos um exemplo fictício puramente ilustrativo.

 - Senhor primeiro-ministro, se a senhora ministra da Saúde dedica 70% do seu dia ao INEM, porque é que se multiplicam os problemas e não se vislumbra qualquer progresso na sua resolução?

- Eu hoje estou aqui no Hospital Spinumsalus para assinalar a redução média nos tempos de espera nas Urgências.

- Não respondeu à minha pergunta…

- Respondi, sim. Não dei foi a resposta que o senhor queria.

De resto talvez fosse interessante começar a desvalorizar as declarações à comunicação social sem direito a perguntas, tratando-as como press releases com intuito propagandístico e sem valor noticioso acrescentado.

 

Se José Sócrates se “espanta que os jornalistas continuem a defender o Ministério Público”, há pelo menos uma “dissidente”. Bárbara Reis escreveu no Público de sexta-feira um artigo intitulado O MP não sabe fazer perguntas a Sócrates ou é de propósito?, nele argumentando que “o problema está na qualidade das perguntas. Que é fraca.” Por este andar, diz a articulista. “esperar por um desfecho [do julgamento] em 2032 não parece uma loucura”. Mas, parafraseando Luís Montenegro, pode dar-se o caso de esta Justiça “mais tranquila e não tão ofegante” nos surpreender positivamente.

 

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