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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

PRESIDENTES E PRESIDENCIÁVEIS

Janeiro 10, 2021

J.J. Faria Santos

1024px-Marcelo_Rebelo_de_Sousa_e_Donald_Trump_2018

O Presidente da lei e da ordem liderou o incitamento ao assalto à democracia americana. Parecia querer tornar literal a afirmação proferida no discurso de inauguração do seu mandato: “O dia 20 de janeiro de 2017 será recordado como o dia em que as pessoas se tornaram novamente nos governantes desta nação”. E o seu povo, alimentado a desencanto, mentiras e ilusões, galgou as escadarias do poder para continuar a “drenar o pântano” e execrar as elites, sem se preocupar com o facto de a sua acção de desrespeito do Estado de direito transformar a América num simulacro de um qualquer “shithole country”. A surpreendente facilidade com que o Capitólio foi invadido, e a não tão espantosa benevolência com que alguns polícias trataram os desordeiros (selfies incluídas), dão a exacta medida do prejuízo incalculável que a administração Trump causou ao país. Já não há forma de ajudar este Presidente a terminar o mandato com dignidade. A dignidade que ele, atolado no narcisismo, na ignorância e na sociopatia, nunca teve.

 

O consenso mediático parece estar estabelecido. Marcelo reina com o seu ar beatífico e ecuménico, servindo sorrisos condescendentes aos adversários e atirando ao povo pérolas pedagógicas, ao mesmo tempo que justifica as decisões tomadas durante o seu mandato com a força da lógica pura, sem sombra de ideologia ou subjectividade. Marisa Matias, dizem, está mais apagada e João Ferreira mostra-se bem preparado, mas está refém da cartilha. E se Ana Gomes se apresenta acutilante, mas contida, em modo diplomático (e presidenciável), já André Ventura não desilude no seu registo incisivo-arruaceiro de mestre dos decibéis que sabe enfeitar qualquer debate com apartes acintosos. Ele não quer discutir argumentos, ele almeja demolir o adversário. Parece que a grande revelação é Tiago Mayan Gonçalves, o portador do facho do liberalismo. Verdade seja dita, o candidato da Iniciativa Liberal não hesitou em demarcar-se de políticas que discriminam minorias, estigmatizam emigrantes e promovem o divisionismo. É sempre de assinalar quando alguém reafirma que é inaceitável trocar o inominável por um punhado de votos.

 

O grupo parlamentar do PPE solicitou a intervenção de Ursula von der Leyen no caso da nomeação do magistrado José Guerra para a Procuradoria Europeia. Na carta, o PPE considera que este assunto “mina a integridade da Procuradoria Europeia” e que Portugal, ao fornecer “informações falsas”, está a “ameaçar o Estado de direito”. O objectivo do grupo parlamentar é a abertura de um “inquérito imediato”. Tirando algumas trapalhadas processuais e políticas, é difícil perceber uma centelha de governamentalização num processo em que os candidatos foram seleccionados e ordenados pelo Conselho Superior do Ministério Público (composto por uma vasta maioria de magistrados), tendo o júri europeu feito uma reordenação da classificação, não rejeitando qualquer nome. O primeiro-ministro e Presidente do Conselho da União Europeia em exercício, António Costa, acusou Paulo Rangel (vice-presidente do grupo parlamentar do PPE), Miguel Poiares Maduro e Ricardo Batista Leite de liderarem uma “campanha internacional contra Portugal”. Independentemente do mérito ou da razoabilidade das alegações, e do seu grau de virulência, não é legítimo fazer equivaler uma crítica política a um crime de lesa-pátria. De igual modo, pior que aventar uma “ameaça ao Estado de direito” só mesmo a ideia bizarra do PSD de apresentar uma queixa-crime contra o primeiro-ministro. Tão bizarra que os três ofendidos trataram de a descartar.

 

Imagem: Wikimedia Commons

TRUMP DESINSTALADO

Novembro 08, 2020

J.J. Faria Santos

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Os eleitores, já se sabe, comandam o painel de controlo da democracia. Convencionou-se que o procedimento comummente designado por sufrágio (que inclui a votação por correspondência) termina com a contagem dos votos e a proclamação dos resultados. Num Estado de direito democrático não passa pela cabeça de qualquer candidato com carácter ou noção do ridículo exigir a interrupção da contagem ou a continuação desta ao sabor dos seus interesses ou do seu desgovernado arbítrio. Os americanos escolheram o programa e a figura de Joe Biden e preparam-se para desinstalar Donald Trump.

 

O derrotado estrebucha. Ao seu estilo: grandiloquente, inane e infundamentado. Os seus correligionários dividem-se entre os que defendem a legalidade e os que não resistem ao servilismo e à partidarite aguda. O Conselho Editorial do Washington Post opinou de forma cortante que “A História recordará quem, em tempos perigosos, ajudou a democracia americana – e quem ajudou o Sr. Trump a debilitar a democracia americana”, e que “não há compromisso possível entre a verdade a as mentiras do Sr. Trump”. Já Maureen Dowd, colunista do New York Times, diverte-se a ridicularizar a reacção e a argumentação do candidato derrotado, notando que para quem era encarado como “o génio maligno da manipulação dos media”, berrar que se está perante uma “eleição roubada” porque está “a perder” é manifestamente patético. Seria de esperar, escreve ela, que ele congeminasse algo de “épico”, “uma conspiração grandiosa”.

 

Agora que ele foi eleito Presidente, Maureen Dowd vê na carreira política de Joe Biden a prova de que o escritor F. Scott Fitzgerald estava enganado e que, de facto, existem segundos actos na vida americana. Na política existem momentos que requerem um visionário, um audacioso, um portador do archote da esperança e do dinamismo, mas, noutras alturas, o mais importante é restaurar a normalidade, a dignidade e a compostura. É preciso remover o MAGA (Make America Great Again) e anunciar o MADA (Make America Decent Again). E a decência indispensável conviverá com a grandiosidade possível.

 

Imagem: www.reddit.com

NOTÍCIAS DE UMA REALIDADE INVEROSÍMIL

Setembro 13, 2020

J.J. Faria Santos

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O sempre estrepitoso Nuno Melo, com aquele seu ar de latifundiário das horas vagas e aquela sua atitude aguerrida de exterminador implacável do marxismo cultural, com pouca preocupação com o rigor dos conceitos e com a veracidade dos factos, denunciou no Twitter o facto de, numa misteriosa escola, uma aula de Educação Física ter sido “interrompida” para que os alunos assistissem a uma “palestra sobre 67 tipos de sexualidade”, ministrada por uma ignota “associação”. O deputado europeu do CDS deu o exemplo da atracção sexual por objectos inanimados. O que me leva a especular acerca desta escolha. Será que preferiu um exemplo comparativamente menos chocante para o eleitorado conservador do que, sei lá, a necrofilia ou o bestialismo? De resto, está-se mesmo a adivinhar o raciocínio de Nuno Melo: uma palestra sobre sexualidade no meio de uma aula de Educação Física? Que género de ginástica se seguiria? Alongamentos e coisa e tal.

 

O Papa Francisco, citado num livro de entrevistas, declarou que “os prazeres de comer e do sexo vêm de Deus” e que o “prazer sexual existe para que o amor seja mais bonito e para garantir a perpetuação das espécies”. Fontes não identificadas (na verdade, um amigo meu com tendência para a efabulação…) informaram-me que, confrontados com estas afirmações (e apesar da referência à função reprodutiva), cerca de 90% dos subscritores do manifesto contra a obrigatoriedade da disciplina de Cidadania estariam a ponderar o suicídio colectivo. Não acreditei, claro, porque seria pecado.

 

Num daqueles episódios característicos da silly season, a capa falsa do New York Times onde se anunciava que Portugal iria ter “uma festa de suicídio coletivo chamada ‘Avante!’ com 33000 visitantes” chegou ao Jornal da Noite da SIC. A culpa é, certamente, da pressão do directo. Acreditar que um jornal de referência utilizaria uma formulação tão falsa e propagandística para se referir ao evento em causa é do domínio do delírio. Se Donald Trump tivesse visto esta capa, berraria, por instinto, “fake news!” E, por uma vez, teria acertado.

 

Debaixo do verniz de intelectual, da consistência argumentativa ou da sofisticação do raciocínio, espreita a crueza do extremismo, da ausência de flexibilidade política e da fidelidade ideológica. É por isso que, em entrevista à Visão, Jaime Nogueira Pinto confirma a sua simpatia pelo Chega, desvalorizando o simplismo do discurso do partido, e confessa que, se votasse nos EUA, teria votado Trump (“contra Hillary Clinton”) e agora votaria Trump contra Kamala Harris (“que assusta muita gente”) e Joe Biden (que está “chalado”). O grande defeito do incumbente, diz Nogueira Pinto, é que “não tem contenção. Fala e twitta de mais…” De resto, deve agradar-lhe o perfil autocrático do magnata, a prosápia de homem forte. O admirador de Salazar admira Trump, cujo grande defeito é falar demais…

 

O homem forte do Benfica, Luís Filipe Vieira, deverá recandidatar-se à presidência, e já tem uma comissão de honra com mais de 500 individualidades. António Costa faz parte da lista. Não é o primeiro-ministro, nem o secretário-geral do PS; trata-se, evidentemente, do sócio nº 15509 do clube. Que, por força das circunstâncias, acumula esta condição com aqueles dois cargos. Esta compartimentação pode ser operativa em termos de retórica política, mas apenas aí. Se outra razão não pudesse ser aduzida, atendendo a que nos últimos tempos o Benfica e Vieira se viram envolvidos em vários casos de justiça, era preferível que o nome do sócio António Costa não constasse da comissão de honra. Vieira tem direito à presunção da inocência, mas era preferível que Costa esperasse para ver o resultado da luta que o presidente do Benfica certamente encetará por aquilo que “acredita ser a sua verdade”.

 

Qual é a verdade? Salazar tombou de uma “cadeira de lona” ou caiu na banheira? A tese do arquitecto José António Saraiva (sim, esse mesmo, o articulista de pendor conservador com laivos de bizarria e tendência para a megalomania) aponta para a banheira e está explanada no seu livro Salazar – A Queda de Uma Cadeira Que Não Existia. Confrontado com uma recensão negativa do historiador António Araújo no Público, o arquitecto não fez a coisa por menos: os seus críticos “defendem a tese oficial” porque se recusam a aceitar que “foram enganados”. A resposta de Araújo é frontal, brutal, contundente. O historiador considera, em artigo no Público, que o arquitecto “tem revelado uma tendência crescente para o registo demencial em chave dupla patético-pateta”. Acusando-o de ser “um empenhado cultor da ignorância profunda”, classifica o livro como uma “obra de pacotilha, prenhe de imprecisões clamorosas, de calinadas grosseiras e de ‘teses’ que a investigação séria tem desmentido há muito.” Indignado por José António Saraiva considerar que uma testemunha não é anónima, porque deu a cara mas pediu o “anonimato público”, Araújo utiliza um recurso retórico para desancar violentamente em Saraiva: “Ainda ontem, por exemplo, várias pessoas aqui no Bairro da Graça me garantiram a pés juntos que o senhor arquitecto Saraiva é um idiota chapado e um vulgar aldrabão, mas, como quiseram todas guardar anonimato público, eu não posso escrever nestas páginas que o senhor arquitecto Saraiva é uma idiota chapado e um vulgar aldrabão – e, por isso, não escrevo.” António Araújo termina a sua réplica aconselhando, “a bem da nação”, que Saraiva “vá à pesca”. Há alguma dúvida de que o mar está encapelado?

 

Imagem: sapo.pt

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