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NO VAGAR DA PENUMBRA

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A FÚRIA DO HERÓI

Agosto 01, 2021

J.J. Faria Santos

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O herói, oficial e cavalheiro, louvado e condecorado, posou de camuflado, o uniforme favorito daqueles em quem a nação deposita confiança e reconhece competência, e não esconde que considera estar num patamar superior ao lamaçal que parece associar ao sector onde pontifica como presidente do Sporting Clube de Portugal. Frederico Varandas diz que “odeia” mitos, mas não resiste a tiradas a roçar o épico (“Prefiro perder ou até morrer com as minhas ideias do que sobreviver sem acreditar no que estou a fazer.”), se bem que morrer com as suas ideias não é exactamente morrer pelas suas ideias.

 

O que perpassa por toda a entrevista de Varandas ao Expresso (como de resto na maior parte das suas proclamações) é aquilo que os anglo-saxónicos apelidam de self-righteousness, ou seja, a convicção de que as suas ideias e, sobretudo, o seu comportamento são moralmente superiores. Daí esgrimir a sua educação e os seus valores em contraste com os seus homólogos: um cuja prisão não o surpreendeu e outro cuja impunidade por ter sido apanhado numa escuta a “oferecer serviços de prostituição a um árbitro” lhe faz confusão. Reconheça-se-lhe, porém, a lucidez e o desassombro de admitir que um dos seus defeitos é “a irracionalidade” que tem com o futebol (“chego a ter vergonha das coisas que fiz”), dando como exemplo estados de exaltação que o levaram a “partir mesas”.

 

A mesma lucidez, aliás, que o leva a admitir que no desporto “mesmo que se faça tudo bem, tudo o que é correcto, tudo o que é teoricamente possível, às vezes, perde-se, porque do outro lado temos rivais fortes, com poder e competência.” (O que pressupõe que não necessitam de expedientes ilegais para serem competitivos.)  Se conseguir alcançar um equilíbrio entre a retórica desabrida e a roçar o populismo e o sentido de missão guiado pelos valores que acarinha, ganham o seu clube e o desporto nacional. Num sector pejado de declarações incendiárias e protagonistas salientes, mais do que “partir mesas” é preciso construir pontes. E recusar o maniqueísmo de construir uma narrativa que ponha em confronto o herói de capa e espada contra os bandidos que emergem do bas-fond para conspurcar o imaculado. Além do mais, parece-me ser uma evidência que a autoridade moral se obtém através do reconhecimento da comunidade, e não exactamente pela proclamação repetitiva urbi et orbi pelo próprio dos seus excelsos dotes.

 

Imagem: Pormenor de fotografia de Tiago Miranda (Expresso)

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