MONTENEGRO NO TOPO (DO DELÍRIO)
Dezembro 14, 2025
J.J. Faria Santos

Adicione-se à megalomania um exacerbado sentido de missão e uma vocação inegável para a propaganda estratosférica e o resultado é Luís Montenegro. Demos de barato que a alienação da realidade que o exercício do poder rodeado de bajuladores produz ainda não se manifestou. Estará, então, no terreno da realidade alternativa, ou, de forma mais benevolente, a promover de forma activa uma visão parcial dessa mesma realidade.
Se quiséssemos ser ainda mais indulgentes, poríamos a frase do primeiro- ministro “Estamos no topo: da Europa e do Mundo” ao nível de uma outra do Presidente Marcelo – “Nós somos o maior e o melhor país do mundo”, isto é, na categoria das frases proferidas por uma espécie de life coach ou provedor de auto-estima, sem pretensão de rigor ou veracidade. Sucede que o delírio ou a desonestidade intelectual estendeu-se ao valor do salário mínimo num futuro indeterminado, minando as fundações da nossa clemência. Montenegro garante que os 1600 € de RMMG (retribuição mímina mensal garantida) e o salário médio de 3 000 € constituem um cenário “realista”, e propõe-se “calendarizá-lo quando tivermos os alicerces”. O jornalista do Expresso João Silvestre, pouco impressionado com os atributos de engenheiro civil do primeiro-ministro, titulou a sua coluna “Porque não um salário de €1 milhão para todos?”, notando ainda que “ao ritmo da última década, serão necessários 11 anos até chegar aos €1600”.
Montenegro está sob a influência da revista The Economist e do galardão de “economia do ano” atribuído a Portugal, cujo comportamento neste ranking tem sido algo ciclotímico: 2º em 2022, 8º em 2023, 16º em 2024 e, agora, a liderança triunfal. Os portugueses certamente ficariam atordoados se se pusessem a matutar nas razões explicativas para este salto (de 16º para 1º), procurando avidamente no seu viver quotidiano e nos dados estatísticos evidências de alterações significativas. Parece que a posição neste ranking “muda muito com as variáveis usadas”, refere o economista Gonçalo Pina ao Expresso. E este ano, as variáveis…variaram. Voltaram os “indicadores de 2023”.
Uma vez que na economia a gestão de expectativas é determinante, influenciando as decisões relacionadas com o consumo e o investimento, e que Portugal é uma economia aberta fortemente condicionada por dinâmicas externas, é positivo que uma revista prestigiada sublinhe o “forte crescimento do PIB, a baixa inflação e um mercado de acções em alta”. Podemos relevar as limitações do mercado bolsista português e ignorar que “o forte crescimento do PIB”, pelos próprios critérios do Governo, seria considerado “medíocre”. Com o que não podemos compactuar é com a demagogia desbragada de quem vende ilusões, promessas sem alicerces e um futuro radiante a prazo indeterminado.