AS PORTAS GIRATÓRIAS
Agosto 14, 2022
J.J. Faria Santos

Da mesma forma que existe uma porta giratória que liga o exercício de funções políticas a um futuro cargo no sector privado, há uma outra porta giratória que rege o fluxo de jornalistas que preenchem o seu currículo entre as redacções dos órgãos de comunicação social e as assessorias nos gabinetes dos ministros. Foi esta circunstância que me povoou a mente quando o affair Figueiredo/Medina se tornou “viral”, sobretudo pelo destaque dado à remuneração que o ex-director de informação da TVI iria auferir. Consultores e contratações com ordenados sonantes sempre existiram (dos 25 000 € mensais de António Borges, a partilhar com a sua equipa, aos cerca de 23 000 € que Paulo Macedo recebeu como director-geral dos Impostos), pelo que no caso de Sérgio Figueiredo, confesso, passou-me pela cabeça que a origem da indignação à beira da apoplexia poderia estar na sempre humana, embora detestável, dor de cotovelo.
Não é que não haja motivos para questionar e até censurar a nomeação, e os guardiães da transparência e da integridade até já se atracaram ao osso, uns com argumentos válidos, outros, como Paulo de Morais, sintetizando a sua opinião sempre definitiva e irrefutável com o recurso à expressão “moscambilha”. Do meu ponto de vista, mais importante do que a contratação de Figueiredo poder configurar uma troca de favores (algo que os eleitores a seu tempo poderão avaliar, juntamente com o juízo que farão sobre o exercício da função para que ele foi nomeado), é a circunstância implícita de a máquina do Estado ser aparentemente incapaz de “desenhar, implementar e acompanhar as políticas públicas”, incluindo “a avaliação e monitorização dessas mesmas políticas” sem ajuda externa. Há um Centro de Competências de Planeamento, de Políticas e de Prospectiva da Administração Pública, existem gabinetes de estudo, o Conselho da Produtividade, grupos de trabalho, assessores diversos, mas mesmo assim o ministro das Finanças considera essencial a contratação de uma pessoa da sua confiança. Esperemos que ela não venha a ser traída, nem abusada.
Imagem: multinews.sapo.pt c/Lusa