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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

URBANIDADE OU ORBÁNIDADE?

Agosto 17, 2025

J.J. Faria Santos

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Que fazer quando tudo arde? Na semana em que o ex-director de um diário de referência escreveu um artigo intitulado “Um governo que hesita entre Passos Coelho e Viktor Orbán”, e em que o Presidente da República decidiu “soprar” ao Expresso que teme a entrada do Chega no Tribunal Constitucional, Montenegro escolheu a entronização do Pontal, qual Nero triunfante, com o bónus de a aclamação dos correligionários lhe permitir alegar que não ouvia as perguntas dos jornalistas.

 

Montenegro não esqueceu a “guerra”, ele que tem sido acusado de ser um general ausente. Falou da “tragédia que nos tem assolado, fruto das circunstâncias meteorológicas”. Só que o homem que fala pouco tem um histórico de falar demasiado. Há três anos, assim falava Montenegro: “Não me agrada nada que nos andem a vender que estamos num ano atípico, de vagas de calor. O que não é correcto é dirigir para aí e disfarçar o que correu menos bem.” Para “disfarçar o que correu menos bem”, nada como anunciar um hospital, duas barragens e o regresso da Fórmula 1, e sublinhar a importância de uma “imigração mais regulada”.

 

Mas não se ficou por aqui. Dando azo ao seu minucioso e empenhadíssimo interesse pela comunicação social (que não se limita à apologia da liberdade de imprensa e se estende à escolha dos temas, ao estilo de inquirição, ao uso de gadgets e à própria apresentação da notícia), o primeiro-ministro censurou as televisões por optarem por “preencher ecrãs com metade da imagem com labaredas e outra metade com a Festa do Pontal”. Compreende-se. Já que é para usar o split screen, ao menos que escolham vultos prestigiados como Donald Trump, o Papa Francisco (de quem ele adora citar o “todos, todos, todos”) ou o Tony Carreira.

 

Por fim, escolheu como alvo o Tribunal Constitucional, acusando “os detentores do poder judicial” de fazerem “um juízo político quando a sua função é fazer um juízo jurídico”. Ao fazer coincidir no seu discurso, e da forma como o fez, as críticas à comunicação social e ao poder judicial, Luís Montenegro pareceu querer ilustrar uma frase que Manuel Carvalho escreveu na sua coluna semanal no Público: “…em vez de reformas urgentes, o Governo apresentou ao país uma declaração de interesses com reminiscências do modelo sectário da Hungria”.

 

Ninguém vislumbrava em Montenegro um perfil de estadista, mas também ninguém suspeitava da aparente ausência de valores e da volatilidade dos princípios. Uns chamam-lhe pragmatismo, outros clamam descaramento. A coligação de conteúdos com o Chega resultou na queda da urbanidade. A tentação da orbánidade é um risco que a república não pode correr. Residirá ainda em Montenegro uma centelha de social-democracia?

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