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NO VAGAR DA PENUMBRA

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O PODER E O ESCRÚPULO

Novembro 22, 2020

J.J. Faria Santos

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Das várias acepções em que a palavra “escrúpulo” pode ser utilizada, destaco duas: “forte sentido moral” e “inquietação de consciência depois de cometer uma falta” (Infopédia). Ao dar a sua concordância ao acordo do PSD com o Chega nos Açores, Rui Rio desvalorizou o primeiro, ao passo que a leveza e o pouco rigor com que o justificou demonstram a ausência da segunda.

 

Em Janeiro de 2018, antecipando o seu mandato enquanto líder do PSD, Manuel Carvalho traçou no Público o perfil de Rio, escrevendo que “há nele uma mistura de convicção genuína na bondade das suas certezas e a crença numa predestinação para grandes feitos”. E acrescentou: “No homem comum que diz gostar de ser coexiste uma ambição que, em conjunto, o tornam ao mesmo tempo temível e frágil, inspirador e banal, visionário e provinciano, solidário e autocrata, austero e demagogo, afável e feroz”. Carvalho via o potencial PSD de Rio como “um partido que vai do centro-direita ao centro-esquerda”, porventura “um saco de gatos onde cabe tudo”, “uma amálgama da qual a personalidade de Rui Rio vai emergir”. Quase três anos depois sabemos que o “saco de gatos” não desdenha confundir-se com a extrema-direita e que o líder demagogo está a eclipsar o austero.

 

E a “amálgama” tornou-se problemática. Como argumentou um conjunto de personalidades (entre elas, Adolfo Mesquita Nunes, Francisco José Viegas, Miguel Esteves Cardoso, Miguel Poiares Maduro e Pedro Mexia) num manifesto intitulado A clareza que defendemos, não é admissível que a direita se deixe confundir com “políticos e políticas que menosprezam as regras democráticas, estigmatizam etnias ou credos, acicatam divisionismos normalizam a linguagem insultuosa, agitam fantasmas históricos, degradam instituições. A aceitação desta amálgama ideológica por parte das direitas democráticas constitui uma afronta à sua história e o prenúncio de um colapso moral.”

 

Um dos traços característicos das atitudes populistas é o menor grau de confiança nos media, frequentemente encarados como parciais e acusados de propagarem notícias falsas. Eis um aspecto que talvez una os líderes do Chega e do PSD. Thomas Jefferson pode ter afirmado que preferiria “jornais sem governo a governo sem jornais”, mas Rio não se coibiu de considerar, em 2013,  que a comunicação social tem “sido também uma das responsáveis da degradação do regime democrático em Portugal”. No ano anterior, considerando que tudo era permitido aos media, declarava que não era possível “continuar num regime democrático com a comunicação social sem ter balizas para a sua actuação”.

 

E o que balizará a acção de Rio face ao Chega? A entrevista concedida à TVI foi reveladora. “O Chega hoje é uma federação de descontentes, não é bem um partido cimentado”, explicou ele. “O tempo vai obrigar o Chega a ser um partido pela positiva”, prognosticou. O mais provável mesmo é que o ensaio de colaboração com o Chega tenha contribuído para a convicção de Rui Rio de estar mais próximo de ser primeiro-ministro. “Sim, isso acho que sim”, admitiu. É o perfume do poder a tentar abafar o odor a degenerescência moral. A busca legítima da alternância democrática não pode ser feita à custa da degradação do próprio regime.

 

Imagem: sapo.24

 

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