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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

LUÍS MONTENEGRO E A PERCEPÇÃO INCONVENIENTE

Janeiro 18, 2026

J.J. Faria Santos

“As pessoas não precisam de ser alvo de crime para se sentirem inseguras, intranquilas. Basta assistirem a crimes que atingem outras pessoas, basta olharem para alguns fenómenos sociais e assustarem-se com eles”, dizia o primeiro-ministro, que, enquanto defendia que Portugal era “um dos países mais seguros do mundo” e negava que existisse uma associação “entre imigração e insegurança”, sempre ia oferecendo divagações como esta: "Eu não estou a dizer que as pessoas vêm do estrangeiro para Portugal têm essa tendência para criar problemas, mas criam um sentimento, quando não são bem integradas, e esse sentimento tem de ser combatido, como é evidente". Este era o tempo em que um Luís Montenegro sentimental parecia achar as percepções da realidade pelo menos tão importantes como a própria realidade factual. Era também o tempo em que outro Luís, Luís Neves, director nacional da PJ afirmava desassombradamente: “Estamos a assistir a um momento de desinformação, fake news e ameaças híbridas e é isso tudo que leva a fundamentar a perceção de insegurança”.

 

Flash-forward para 2026. Quem tão se esmerava na valorização dos sentimentos e das percepções, mostra-se agora incomodado com a “absoluta desproporção” entre o trabalho que é efectivamente prestado pelos profissionais de saúde e uma “onda noticiosa” que dá “uma percepção de caos, de crise e de problema permanente” no sector. O facto é que podemos dizer que as notícias sobre as disfuncionalidades do SNS estão mais próximas da realidade, enquanto que o exacerbar do “sentimento de insegurança” era (é) sobretudo uma construção mediática e política. Mas mesmo que assim não fosse, poderíamos sempre usar o template da frase do primeiro-ministro que abre este post, adaptando-a à área da saúde: As pessoas não precisam de ser alvo de doença para se sentirem intranquilas. Basta assistirem a ocorrências que atingem outras pessoas (doentes urgentes com tempo de espera de 16 horas, serviços de urgência fechados, 3 mortos em menos de 48 horas enquanto esperavam pelo socorro do INEM) e assustarem-se com elas.

 

Curiosamente, uma frase do PM, pronunciada em 13 de Janeiro de 2026, faz uma ligação entre estes dois momentos temporais, entre emigração, imigração e saúde. “O nosso SNS tem o constrangimento de ver muitos dos seus quadros qualificados procurarem oportunidades no estrangeiro e, portanto, ver migrar muito dos seus recursos humanos e, ao mesmo tempo, ver ingressar no país muitos migrantes que têm, e muito bem, direito a uma resposta de saúde”, disse Montenegro. Terá o primeiro-ministro, naquele seu estilo entre o factual, o sonso e o ambíguo, contribuído para a “percepção”, ou para o “sentimento”, de que os imigrantes (só cerca de metade dos imigrantes residentes estão inscritos em centros de saúde) contribuem decisivamente para os “constrangimentos” do SNS? E ter-se-á arriscado a criar uma “onda noticiosa” que valide a tese com grande tracção na direita radical de que os imigrantes estão a “passar à frente” dos portugueses no acesso aos serviços públicos?

MONTENEGRO NO TOPO (DO DELÍRIO)

Dezembro 14, 2025

J.J. Faria Santos

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Adicione-se à megalomania um exacerbado sentido de missão e uma vocação inegável para a propaganda estratosférica e o resultado é Luís Montenegro. Demos de barato que a alienação da realidade que o exercício do poder rodeado de bajuladores produz ainda não se manifestou. Estará, então, no terreno da realidade alternativa, ou, de forma mais benevolente, a promover de forma activa uma visão parcial dessa mesma realidade.

 

Se quiséssemos ser ainda mais indulgentes, poríamos a frase do primeiro- ministro “Estamos no topo: da Europa e do Mundo” ao nível de uma outra do Presidente Marcelo – “Nós somos o maior e o melhor país do mundo”, isto é, na categoria das frases proferidas por uma espécie de life coach ou provedor de auto-estima, sem pretensão de rigor ou veracidade. Sucede que o delírio ou a desonestidade intelectual estendeu-se ao valor do salário mínimo num futuro indeterminado, minando as fundações da nossa clemência. Montenegro garante que os 1600 € de RMMG (retribuição mímina mensal garantida) e o salário médio de 3 000 € constituem um cenário “realista”, e propõe-se “calendarizá-lo quando tivermos os alicerces”. O jornalista do Expresso João Silvestre, pouco impressionado com os atributos de engenheiro civil do primeiro-ministro, titulou a sua coluna “Porque não um salário de €1 milhão para todos?”, notando ainda que “ao ritmo da última década, serão necessários 11 anos até chegar aos €1600”.

 

Montenegro está sob a influência da revista The Economist e do galardão de “economia do ano” atribuído a Portugal, cujo comportamento neste ranking tem sido algo ciclotímico: 2º em 2022, 8º em 2023, 16º em 2024 e, agora, a liderança triunfal. Os portugueses certamente ficariam atordoados se se pusessem a matutar nas razões explicativas para este salto (de 16º para 1º), procurando avidamente no seu viver quotidiano e nos dados estatísticos evidências de alterações significativas. Parece que a posição neste ranking “muda muito com as variáveis usadas”, refere o economista Gonçalo Pina ao Expresso. E este ano, as variáveis…variaram. Voltaram os “indicadores de 2023”.

 

Uma vez que na economia a gestão de expectativas é determinante, influenciando as decisões relacionadas com o consumo e o investimento, e que Portugal é uma economia aberta fortemente condicionada por dinâmicas externas, é positivo que uma revista prestigiada sublinhe o “forte crescimento do PIB, a baixa inflação e um mercado de acções em alta”. Podemos relevar as limitações do mercado bolsista português e ignorar que “o forte crescimento do PIB”, pelos próprios critérios do Governo, seria considerado “medíocre”. Com o que não podemos compactuar é com a demagogia desbragada de quem vende ilusões, promessas sem alicerces e um futuro radiante a prazo indeterminado.

 

URBANIDADE OU ORBÁNIDADE?

Agosto 17, 2025

J.J. Faria Santos

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Que fazer quando tudo arde? Na semana em que o ex-director de um diário de referência escreveu um artigo intitulado “Um governo que hesita entre Passos Coelho e Viktor Orbán”, e em que o Presidente da República decidiu “soprar” ao Expresso que teme a entrada do Chega no Tribunal Constitucional, Montenegro escolheu a entronização do Pontal, qual Nero triunfante, com o bónus de a aclamação dos correligionários lhe permitir alegar que não ouvia as perguntas dos jornalistas.

 

Montenegro não esqueceu a “guerra”, ele que tem sido acusado de ser um general ausente. Falou da “tragédia que nos tem assolado, fruto das circunstâncias meteorológicas”. Só que o homem que fala pouco tem um histórico de falar demasiado. Há três anos, assim falava Montenegro: “Não me agrada nada que nos andem a vender que estamos num ano atípico, de vagas de calor. O que não é correcto é dirigir para aí e disfarçar o que correu menos bem.” Para “disfarçar o que correu menos bem”, nada como anunciar um hospital, duas barragens e o regresso da Fórmula 1, e sublinhar a importância de uma “imigração mais regulada”.

 

Mas não se ficou por aqui. Dando azo ao seu minucioso e empenhadíssimo interesse pela comunicação social (que não se limita à apologia da liberdade de imprensa e se estende à escolha dos temas, ao estilo de inquirição, ao uso de gadgets e à própria apresentação da notícia), o primeiro-ministro censurou as televisões por optarem por “preencher ecrãs com metade da imagem com labaredas e outra metade com a Festa do Pontal”. Compreende-se. Já que é para usar o split screen, ao menos que escolham vultos prestigiados como Donald Trump, o Papa Francisco (de quem ele adora citar o “todos, todos, todos”) ou o Tony Carreira.

 

Por fim, escolheu como alvo o Tribunal Constitucional, acusando “os detentores do poder judicial” de fazerem “um juízo político quando a sua função é fazer um juízo jurídico”. Ao fazer coincidir no seu discurso, e da forma como o fez, as críticas à comunicação social e ao poder judicial, Luís Montenegro pareceu querer ilustrar uma frase que Manuel Carvalho escreveu na sua coluna semanal no Público: “…em vez de reformas urgentes, o Governo apresentou ao país uma declaração de interesses com reminiscências do modelo sectário da Hungria”.

 

Ninguém vislumbrava em Montenegro um perfil de estadista, mas também ninguém suspeitava da aparente ausência de valores e da volatilidade dos princípios. Uns chamam-lhe pragmatismo, outros clamam descaramento. A coligação de conteúdos com o Chega resultou na queda da urbanidade. A tentação da orbánidade é um risco que a república não pode correr. Residirá ainda em Montenegro uma centelha de social-democracia?

O ASSALTO À DEMOCRACIA, O ANTI-HUMANISTA E O POPULISTA BOM

Junho 22, 2025

J.J. Faria Santos

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Invadir o Parlamento e ocupar a residência oficial do Presidente da República, eis duas das acções ponderadas pela milícia neonazi Movimento Armilar Lusitano, visada por buscas e detenções no âmbito de uma operação da Unidade Nacional de Contraterrorismo. Entre os objectos apreendidos constam armas de fogo, armas brancas, explosivos, autocolantes e bandeiras do grupo neonazi 1143 e ainda vários livros de Hitler.

 

Se considerarmos que a direita radical (na visão benévola, já que há investigadores que consideram o Chega um partido extremista) ocupa 60 assentos na Assembleia da República, a invasão do Parlamento por parte do grupo neonazi (inspirado pelo ataque ao Capitólio nos EUA e aos centros de poder no Brasil) acrescentaria carga simbólica à hegemonia da direita (pela ousadia), independentemente de representar uma agressão intolerável à democracia.

 

O Movimento Armilar Lusitano será uma milícia armada sob suspeita de actividades terroristas, e terá, citando uma notícia do Público, “capacidade de organizar ataques de grande escala”. E segue a linha deste género de organizações de incitamento ao ódio e à violência, praticando a “discriminação em função da identidade de género, da raça, em função do credo” (Luís Neves, director nacional da PJ). O Chega é um partido defensor do povo contra as elites financiado pelas elites empresariais e financeiras, que abusa do discurso agressivo contra imigrantes e aquilo que denomina de subsidiodependentes, que não parece ter qualquer compromisso com a verdade, que classifica a comunicação social como “inimigos do povo” e cujo líder, André Ventura, declarou enfaticamente: “Connosco podem ter a certeza de uma coisa, não haverá humanismo que resista.”

 

Num trabalho de investigação para o jornal Público (A grande ‘família’ do Chega), editado em 25/02/2024, o jornalista Miguel Carvalho escreveu: “A extrema-direita (.,,) impulsiona dinâmicas de rua e nas redes sociais que ajudem a criar (…) um ambiente propício ao voto no Chega. O objectivo a longo prazo é contagiar o partido para a adopção de uma agenda política mais autoritária, nacionalista, nativista, racista, xenófoba e anti-‘ideologia de género’.” Ressalvando que, “publicamente”, Ventura rejeitava estas “abordagens e cumplicidades”, Miguel Carvalho descrevia duas correntes de extrema-direita: uma, ligada a Mário Machado, incentivando os seus membros a apoiarem explicitamente as causas do Chega e a inscreverem-se no partido; e outra, mais doutrinária, que punha “a ideologia extremista e as narrativas de ódio ao serviço da mobilização digital e da provocação das comunidades imigrantes”.

 

A verdade é que, não estando em causa a cumplicidade objectiva ou o apoio declarado a grupos criminosos, o que é um facto é que o discurso agressivo, por vezes abertamente racista e xenófobo de André Ventura, aliado a um perfil oportunista, levanta dúvidas acerca de uma futura absorção pelo Chega destes elementos, bem como de uma radicalização ainda maior do seu discurso. Miguel Carvalho falou com o antigo vice-presidente do Chega, Nuno Afonso, que em tempos terá mostrado ao líder uma lista de “extremistas que se preparavam para entrar no partido”, entre eles “nomes ligados ao assassinato de Alcindo Monteiro”. “Não faz mal, queremos os votos de toda a gente”, terá replicado André Ventura. A fazer fé nas palavras de Afonso, “nem mais um!” é uma palavra de ordem que ele reserva para os imigrantes; para extremistas e criminosos é “quanto mais, melhor!”.

 

Mas se assistimos, por um lado, a um possível movimento de infiltração/acolhimento que une o Chega e movimentos de extrema-direita, temos, por outro lado, a cooptação do discurso e da retórica populista e nacionalista por parte do primeiro-ministro e do Governo. Até parece que as questões do reagrupamento familiar e da retirada da nacionalidade são tão relevantes que relegam para um plano secundário os “constrangimentos” na saúde, o problema da falta de habitação ou, para citar um tema caro à direita, os entraves ao empreendedorismo. Esta opção de Montenegro certamente não lhe permitirá obter os galões de estadista, mas essa nunca foi a sua preocupação. O Luís tem faro político e é hábil, e sabe que, como escreveu Giuliani da Empoli (“Os Engenheiros do Caos”), a “questão migratória (…) faz rebentar as barreiras tradicionais entre direita e esquerda.” O papel principal que ele quer interpretar é o do populista bom.

 

Imagem: parlamento.pt

ANDRÉ, O BEM-AVENTURADO

Setembro 28, 2024

J.J. Faria Santos

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Pedro Nuno Santos quer empurrar Luís Montenegro para os braços de André Ventura, dizem uns. André Ventura está mortinho por acolher nos seus braços Luís Montenegro, acrescentam outros. O que ninguém ou poucos dizem é que Montenegro, colocado entre a espada e a parede, não hesitará em derrubar a divisória e criar um open space de convívio com os portugueses de bem. Confrontado com a proposta “radical e inflexível” do PS, nada como negociar com o radical flexível Ventura, notável seguidor dos princípios de Groucho Marx, propagandista de fake news e malabarista de propostas. Radical por radical, antes o de direita, alumnus de Passos Coelho e cruzado da portugalidade. Confrontado com as linhas rosa, o primeiro-ministro fará implodir as linhas vermelhas. Além do mais, o “não é não” aplicava-se a um “acordo político de governação”, não à viabilização de um orçamento. E o Chega, que nos dias mais lúcidos aspira à respeitabilidade, tem aqui uma boa oportunidade.

 

Pode ter sido coincidência a declaração do PM prometendo mão pesada aos responsáveis pelos fogos, anunciando que o Governo não iria “regatear nenhum esforço na acção repressiva”, bem como a alusão recorrente a “interesses particulares” na origem das ignições. Ou o anúncio esta semana da criação da unidade de controlo de fronteiras e fiscalização de imigrantes. Se recordarmos que Montenegro considerou o combate à corrupção uma prioridade desde a “primeira hora”, temos aqui campo de entendimento. A que acresce o facto de o Chega ser favorável à descida do IRC, matéria que o chefe do executivo considera estratégica para a sua política económica. Em Maio de 2023, inspirado por um encontro com o ilusionista Luís de Matos, Montenegro declarou que era importante fazer “desaparecer o socialismo de Portugal”. Para manter agora o socialismo à distância, se for preciso acomodam-se os caprichos do demagogo populista.

 

Não sendo de descartar a hipótese de o líder do PSD se sentir tentado a forçar eleições, aproveitando, como alguém disse, o frontloading de benesses, não é certo que, mesmo recorrendo à vitimização, os resultados fossem suficientemente apelativos. Por outro lado, o rural Montenegro (que já beneficiou da opção presidencial de recorrer a eleições na sequência da demissão de António Costa), evitando novo sufrágio, ganharia capital político perante o urbano Marcelo. Quem sabe se, mais tarde, este não retribuiria a atenção, congeminando um momento mais propício para o seu PSD ir a eleições, arranjando um leque de justificações criativas cuja especialidade decerto já patenteou. Se é certo que não são propriamente best buddies, a cooperação institucional aproxima-se tanto do conluio que até o circunspecto Expresso sugere que “se entende ser assim tão importante evitar uma crise, Marcelo mais do que convocar conselhos de Estado, tudo deve tentar para levar Montenegro a negociar de forma decisiva e séria com o líder da oposição”. Luís, André e Marcelo podem constituir a troika decisiva para a aprovação do orçamento.

UM PASSEIO DE LANCHA EMBALADO PELA BRISA DA TRAGÉDIA

Setembro 01, 2024

J.J. Faria Santos

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O Presidente dos afectos colocou a fasquia alta para os restantes políticos. A cena da tragédia passou a exigir a sua presença – o pathos como circunstância política. Claro que a sua colorida personalidade, bem como a sua sinuosa prática, me levam sempre a pensar que ele é igualmente afectuoso a consolar um “popular” (como dizem invariavelmente os jornalistas) devastado pela perda de um familiar e a atirar para debaixo do comboio um membro de um governo caído na desgraça da impopularidade.

 

Já o primeiro-ministro é uma espécie de mito em construção. A ex-heterónima de Belém do jornal Expresso escreveu esta semana que “o rural vai durar”, porque conseguiu “anular ressentimentos de grupos sociais decisivos” e, mais importante, “foca-se no rumo que traçou e dá pouca confiança”. Se Montenegro “dá pouca confiança” a Marcelo, é compreensível, visto que não se deve permitir grande familiaridade a quem não é confiável. É preferível a fria cortesia do formalismo.

 

Desprovido de carisma, fiel à avareza da palavra, fixado na reconciliação com parcelas do eleitorado que o austero sentido de estado do passismo alienou, o primeiro-ministro procura construir a gravitas a partir de um compósito de propaganda, subsídios, gestão de silêncio e aparições cirúrgicas. É neste contexto que se situa a sua deslocação ao local da queda de um helicóptero no rio Douro.

 

Se a sua presença seria compreensível, dado o cargo que desempenha, já o mesmo não se pode dizer do passeio de lancha no rio, com o segurança/fotógrafo à ilharga, porque “quis estar pessoalmente com os mergulhadores que estavam a desempenhar uma missão muito perigosa e a colocar a vida em perigo”. É possível que, toldado pela emoção, o primeiro-ministro tenha revivido a sua vocação de nadador-salvador, mas isso não disfarça a inutilidade do gesto e a desconfortável suspeita de que assistimos a um evento mediático susceptível de originar um registo fotográfico lisonjeiro. Além do mais, parece-me evidente que para que a solidariedade com os operacionais no terreno fosse plena, Montenegro deveria ter mergulhado e não embarcado num minicruzeiro. No plano dos gestos simbólicos, um mergulho subaquático de Montenegro no rio Douro arrasaria o lúdico mergulho de Marcelo no Tejo.

 

Imagem: site do jornal Observador

A SENSAÇÃO E A SENSATA ACÇÃO

Março 03, 2024

J.J. Faria Santos

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Um ex-líder com aura sebastiânica (Passos Coelho) a fazer uma ligação sem fundamento entre imigração e (falta de) segurança; um candidato a deputado pela AD (Paulo Núncio) a sugerir um novo referendo para reverter a despenalização do aborto e a apoiar medidas para limitar o recurso à IVG; um dos celebrados independentes, cabeça-de-lista da AD por Santarém (Eduardo Oliveira e Sousa), com uma linguagem que o aproxima do negacionismo climático, a falar de insegurança nos campos e na possibilidade de os agricultores formarem “milícias armadas”. Eis 3 exemplos de descolagem do discurso de moderação que a AD diz protagonizar. Mesmo que tenha sido uma sucessão inepta de egos reluzentes a saírem do tom, não é de afastar a possibilidade de terem almejado captar votos numa franja extremista. Como escreveu Giuliani da Empoli, “para se conquistar uma maioria, já não é preciso convergir para o centro, mas adicionar os extremos” (in Os Engenheiros do Caos). Terão estes três oradores, na convicção de terem segurado o centro, querido adicionar os extremos, numa altura em que, citando de novo da Empoli, “já não são as nossas opiniões sobre os factos que nos dividem, são os próprios factos”?

 

Na política dos nossos dias, mais do que os factos e os dados empíricos, o que conta são as sensações e as percepções. Assim ocorre também no domínio da análise política e da leitura das sondagens. Se a maior parte dos estudos de opinião acerca das legislativas colocam a AD na liderança, também é certo que se encaixam na definição de empate técnico. O empate técnico, que foi um sucesso na última temporada eleitoral, é agora como um parente indesejado numa família tradicional. Se parece evidente uma certa dinâmica de vitória à direita, resta saber que parte dessa percepção/sensação  assenta na robustez técnica das sondagens e nos méritos da campanha da AD e que parte se deve a um evidente enviesamento da comunicação social, designadamente das televisões privadas ( a este propósito, Ana Drago escreveu um notável artigo no Diário de Notícias).    

 

Limitações da amostra (sub-representação dos mais velhos ou das mulheres, sobrerrepresentação de licenciados) e/ou do método de inquirição podem afectar a qualidade dos dados recolhidos pelas sondagens. A publicada pelo Expresso na passada sexta-feira, que utilizou o método de simulação do voto em urna, coloca o PS a apenas um ponto percentual da coligação de direita, apresenta um número muito elevado de indecisos (18%) e 22% dos inquiridos que já escolheram em quem votar predispostos a alterar essa decisão.

 

No dia 10 de Março, à noite, a percepção e a sensação vão ser substituídas pela sensata acção. A soma das vontades de cada cidadão vai ditar a correlação de forças no Parlamento que ditará o futuro governo de Portugal. Se o eleitor valorizar a conjuntura económico-financeira, a criação de emprego, a valorização dos salários e do poder de compra e a robustez do Estado social votará à esquerda. Se, por outro lado, decidir apostar na descida de impostos, num crescimento económico aditivado pela fé, na liberdade de escolha que pode redundar em iniquidade, na diabolização do Estado e na pura vontade de mudar votará à direita. Ambas as escolhas são legítimas. Convém é perceber que numa Europa em que o espectro da guerra ameaça impor um acréscimo no peso das despesas militares nos orçamentos nacionais, com possível impacto nos gastos sociais, seria trágico que a descida da carga fiscal fosse feita à custa do Estado social e de uma liberdade condicionada.

É A ECONOMIA, ESTÚPIDO! (OU TALVEZ NÃO)

Fevereiro 25, 2024

J.J. Faria Santos

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O que irá determinar o vencedor das eleições legislativas é a ponderação que o eleitorado fará entre as condições económicas objectivas e a atracção subjectiva pela mudança. Não será despicienda a substituição de um António Costa que, embora não despertasse paixões arrebatadoras, era percepcionado como um político sólido, com capacidade de decisão e solidez de propósitos, por um Pedro Nuno Santos com um projecto político definido mas ainda à procura de um estilo em que o dinamismo e a assertividade não corram o risco de passar por precipitação e radicalismo. Nem o perfil baço de um Luís Montenegro pouco inspirador, acossado pelo espectro da extrema-direita que o leva a tingir a moderação com o resvalar para o panfletário.

 

O impacto da conjuntura económica nas escolhas dos eleitores está vastamente documentado. Más condições económicas conduzem quer à penalização dos governos quer ao aumento da afluência às urnas. O agravamento do desemprego é um dos factores importantes. Um estudo das eleições ocorridas em Portugal já neste século parece sugerir que os eleitores no processo de decisão do seu voto ponderam as condições económicas dos 2 anos anteriores a cada eleição.

 

Os dados económico-financeiros parecem ser favoráveis ao partido incumbente. Em 2015 a dívida pública correspondia a 131,2% do PIB ao passo que no final de 2023 era de 98,7% do PIB; em 2015 o défice público era de 4,4%, e para 2023 o Conselho de Finanças Públicas antevê um superávite de 0,9%; em 2015 a taxa de desemprego era de 12,9% e no final do ano transacto cifrava-se nos 6,5%; a taxa de risco de pobreza era de 46,1% (antes das transferências sociais) e de 19% (depois das transferências sociais) em 2015, sendo que no final de 2022 os valores eram de, respectivamente, 41,8% e 17%. Em 2023 o crescimento económico português superou a média da zona euro, a dívida externa baixou para valores (53,5% do PIB) que não se registavam desde 2005, o salário médio aumentou 6,6% e trabalhadores e pensionistas tiveram aumentos reais.

 

Em 1992 o consultor político James Carville, ao gizar a estratégia da campanha de Bill Clinton, definiu três mensagens-chave para alcançar a vitória: explorar os dados económicos, as virtudes da mudança face à situação e a importância dos cuidados de saúde. Em Portugal, numa data muito próxima dos idos de Março, se a conjuntura económica poderá favorecer o PS, a disrupção nos cuidados de saúde tenderá a favorecer o PSD, pelo mero efeito de protesto, visto não ser evidente que este tenha soluções particularmente inovadoras ou eficazes. No que diz respeito à mudança, resta saber se a alternativa consubstancia uma oferta mobilizadora e carismática, sobretudo quando a novidade, sob a forma de um novo líder, também se instalou no partido incumbente. Portugal inteiro ou mudança segura? O eleitor decidirá.

 

Imagem: jornal Público

A.D. (ANNO DOMINI) 2024

Janeiro 07, 2024

J.J. Faria Santos

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O futuro está a chegar. Em fascículos. Entrámos num novo capítulo, em Portugal. Com novos protagonistas em cena, velhos actores estreando novas peças e com o rei dos cenários em grande agitação táctica na poltrona presidencial. Pedro Nuno Santos promete-nos um Portugal inteiro, em comunhão de gerações, um novo ciclo virtuoso, onde à segurança e à estabilidade se juntam o dinamismo e uma visão de futuro. Luís Montenegro aposta no rebranding da AD (e no Anno Domini de 2024, o primeiro ano D.C. – depois de Costa), incumbindo a esta nova troika (Montenegro, Nuno Melo, Gonçalo da Câmara Pereira) a concretização de um governo “ambicioso, reformista, moderado, estável e maioritário”. E na solidão do Palácio de Belém, enquanto avalia os danos na sua popularidade causados pelo “caso gémeas”, Marcelo, o encenador que se deleita com os cenários, aventa a possibilidade de uma “terceira dissolução”. Já lá diz o povo, que “é quem mais ordena”, que não há duas sem três.

 

Um novo player aparece em grande destaque nesta temporada política: o Ministério Público, que é cada vez mais uma concorrente da Agência Lusa. As fugas de informação e de peças processuais têm um tratamento por parte dos órgãos de comunicação social em que nem sempre se torna explícito que veiculam o ponto de vista de uma das partes, e são apresentadas como “a verdade do dia”, sem contraditório. O MP diz que não se deixa condicionar por timings políticos, mas parece “libertar informação” em função deles. A forma como na mesma semana em que sugere que Costa é suspeito de prevaricação no âmbito da Operação Influencer o MP tornou pública a abertura de quatro inquéritos relacionados com a casa de Espinho do líder do PSD sugere uma intenção de equilíbrio de danos pouco virtuoso. A outra hipótese, ainda mais alarmante, era de gerar um pernicioso efeito de acumulação e generalização de suspeitas terríveis para a saúde da democracia. No dia em que a democracia perecer a autonomia e a independência do Ministério Público valerão zero.

 

Imagem: David Revoy https://www.davidrevoy.com

 

PROGNÓSTICOS ANTES DO FIM DO JOGO

Dezembro 17, 2023

J.J. Faria Santos

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Os comentadores políticos adoram fazer prognósticos. Sacam das suas grelhas analíticas, “auscultam” o sentir do povo e desatam a desafiar a falibilidade e a lógica com conselhos e proclamações definitivas. E com 2024 à porta, que melhor altura para concorrer com videntes e astrólogos? Quando, em 8 de Janeiro do corrente ano, Ana Sá Lopes escreveu no Público – “Há uma – e só uma – possibilidade de o PS resistir às próximas eleições. António Costa demitir-se tão cedo quanto possível e ir fazer uma travessia no deserto para em 2024 ser escolhido para presidente do Conselho Europeu” – estava longe de imaginar um cenário em que, no dizer de Rui Rio, “o PM foi demitido pela PGR”. Nesse mesmo artigo, defendeu que Pedro Nuno Santos seria o mais bem colocado na corrida à sucessão, embora tal não garantisse a manutenção do poder socialista à frente do país. 11 meses depois, empolgada com a verve de Montenegro num congresso partidário, Ana Sá Lopes sintetizou o seu pensamento no seguinte título: “Montenegro ‘mata’ Passos, faz o seu melhor discurso e pode ganhar”. (Entretanto, hoje, já escreve no Público que “Montenegro não aproveitou o embalo do Congresso”.)

 

Apesar de tudo, e porventura na linha da tese clássica de que são os governos que desbaratam o poder e não é a oposição que o conquista, até ao momento não se vislumbra uma onda de entusiasmo pelas propostas de Montenegro. E não é certo como é que os eleitores ponderarão na cabina de voto factores como a crise da habitação, os constrangimentos na saúde, os aumentos nos rendimentos (pensões e salário mínimo) e a descida do desemprego, tudo isto no contexto das chamadas “contas certas”. Se para Ricardo Costa, a três meses das eleições, “o mais provável é o PS vencer as eleições”, para Francisco Mendes da Silva “Montenegro é hoje o mais provável futuro primeiro-ministro”.

 

Para um subgrupo de analistas, a alternância é um imperativo por si só. Por exemplo, Bárbara Reis, indignada com o dinheiro vivo de Vítor Escária, titulou uma das suas colunas de Novembro passado com um definitivo “O PS precisa de ir para a oposição”. Justificando esta asserção, explicou que o caso era “tão grave” que era importante apurar se esta “forma de vida faz parte da cultura do PS, (…) se a bioestrutura do partido está infectada”. Neste subgrupo há quem defenda a mudança para pior. Veja-se o exemplo de Henrique Monteiro no Expresso: “E se o outro lado é pior? Pode ser, mas o efeito de mudança pode e deve exercer-se.” E o eleitor comum, estará apostado em mudar para pior em nome da alternância?

 

E que papel desempenhará nas cogitações dos eleitores o legado de António Costa? Num artigo que até nem é lisonjeiro, Manuel Carvalho escreveu no Público que o actual primeiro-ministro “não deixa de ser uma referência de estabilidade, ponderação e contas certas”. E acrescentou que “não há grandes razões para celebrar a queda. Pelo contrário, é muito provável que ainda venhamos a ter saudades de António Costa”.  Talvez não seja caso para tanto. É que ele vai andar por aí.

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