LUÍS MONTENEGRO E A PERCEPÇÃO INCONVENIENTE
Janeiro 18, 2026
J.J. Faria Santos
“As pessoas não precisam de ser alvo de crime para se sentirem inseguras, intranquilas. Basta assistirem a crimes que atingem outras pessoas, basta olharem para alguns fenómenos sociais e assustarem-se com eles”, dizia o primeiro-ministro, que, enquanto defendia que Portugal era “um dos países mais seguros do mundo” e negava que existisse uma associação “entre imigração e insegurança”, sempre ia oferecendo divagações como esta: "Eu não estou a dizer que as pessoas vêm do estrangeiro para Portugal têm essa tendência para criar problemas, mas criam um sentimento, quando não são bem integradas, e esse sentimento tem de ser combatido, como é evidente". Este era o tempo em que um Luís Montenegro sentimental parecia achar as percepções da realidade pelo menos tão importantes como a própria realidade factual. Era também o tempo em que outro Luís, Luís Neves, director nacional da PJ afirmava desassombradamente: “Estamos a assistir a um momento de desinformação, fake news e ameaças híbridas e é isso tudo que leva a fundamentar a perceção de insegurança”.
Flash-forward para 2026. Quem tão se esmerava na valorização dos sentimentos e das percepções, mostra-se agora incomodado com a “absoluta desproporção” entre o trabalho que é efectivamente prestado pelos profissionais de saúde e uma “onda noticiosa” que dá “uma percepção de caos, de crise e de problema permanente” no sector. O facto é que podemos dizer que as notícias sobre as disfuncionalidades do SNS estão mais próximas da realidade, enquanto que o exacerbar do “sentimento de insegurança” era (é) sobretudo uma construção mediática e política. Mas mesmo que assim não fosse, poderíamos sempre usar o template da frase do primeiro-ministro que abre este post, adaptando-a à área da saúde: As pessoas não precisam de ser alvo de doença para se sentirem intranquilas. Basta assistirem a ocorrências que atingem outras pessoas (doentes urgentes com tempo de espera de 16 horas, serviços de urgência fechados, 3 mortos em menos de 48 horas enquanto esperavam pelo socorro do INEM) e assustarem-se com elas.
Curiosamente, uma frase do PM, pronunciada em 13 de Janeiro de 2026, faz uma ligação entre estes dois momentos temporais, entre emigração, imigração e saúde. “O nosso SNS tem o constrangimento de ver muitos dos seus quadros qualificados procurarem oportunidades no estrangeiro e, portanto, ver migrar muito dos seus recursos humanos e, ao mesmo tempo, ver ingressar no país muitos migrantes que têm, e muito bem, direito a uma resposta de saúde”, disse Montenegro. Terá o primeiro-ministro, naquele seu estilo entre o factual, o sonso e o ambíguo, contribuído para a “percepção”, ou para o “sentimento”, de que os imigrantes (só cerca de metade dos imigrantes residentes estão inscritos em centros de saúde) contribuem decisivamente para os “constrangimentos” do SNS? E ter-se-á arriscado a criar uma “onda noticiosa” que valide a tese com grande tracção na direita radical de que os imigrantes estão a “passar à frente” dos portugueses no acesso aos serviços públicos?








