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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O PÚBLICO, O PRIVADO E A VILÃ

Novembro 01, 2020

J.J. Faria Santos

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O ministro da Saúde belga anunciou que o seu país se encontra no limiar de uma situação em que “já não há controlo sobre o que se passa”. Angela Merkel fala do risco de uma “emergência sanitária” como pretexto para o encerramento parcial de restaurantes, bares e teatros. Em França, responsáveis médicos dizem que o país “perdeu o controlo da epidemia” e falam em “situação crítica”, ao mesmo tempo que Emmanuel Macron decretou um novo confinamento. Boris Jonhson prepara-se para decisão idêntica no Reino Unido. Será caso para dizer, como o director do Expresso, que cada um dos Governos destes países “foi incapaz de se preparar para o dia de hoje”? Ou que “não se percebe tanta incompetência”?

 

Na verdade, e para ser rigoroso, devo clarificar que João Vieira Pereira se referia aos governantes portugueses, mais especificamente à ministra da Saúde, suspeita, aos olhos dele, de sofrer de enviesamento ideológico e de, por conseguinte, embirrar com os privados. Curiosamente, em Agosto, na sua página na Internet, o Expresso citava o Jornal de Negócios, que fazia referência a dados do INE, para titular que o “Estado gasta 41% do dinheiro destinado à saúde com privados”, concluindo que “os privados dependem em larga medida do dinheiro público, seja directamente do SNS, ADSE, Segurança Social ou por deduções fiscais”.

 

Significa isto que não é legítimo criticar as opções ministeriais ou as deliberações da DGS? Nada disso. O dever de solidariedade e de colaboração em tempos de grave crise não pode excluir o escrutínio e a censura. O que não se recomenda são as diatribes simplistas ou destemperadas na linguagem, nem que se caia na ingenuidade de ignorar, citando Pedro Adão e Silva, que “o privado não só não está vocacionado para responder à covid (praticamente não tem vagas UCI) como tem resistido a tratar doentes da pandemia”. Adão e Silva terminou o seu artigo no Expresso de 24/10/2020 com uma espécie de sugestão: “Se o privado quiser contribuir, liberte recursos humanos para trabalharem mais horas no SNS – que está, de facto, melhor equipado e tem mais capacidade para responder à pandemia.” Defendendo uma colaboração activa dos sectores público, privado e social no combate à pandemia, parece-me legítima a opção pelo princípio de que o sector privado é complementar do SNS, competindo a este recorrer aos serviços daquele quando os seus recursos se tornarem insuficientes. Sem esquecer que a eficácia do combate à covid-19 depende muito do comportamento individual de cada um de nós.

 

O que é lamentável é que um desejável espírito crítico coexista, porventura devido à fadiga pandémica, com um relaxamento na linguagem. E que em cada canto se descubra um especialista em epidemiologia ou um ás em gestão de crises económico-financeiras. Só assim se explica que um opinion maker tenha usado “linguagem de carroceiro” (citando Miguel Sousa Tavares) para se referir a Marta Temido, ou que o “coleccionador compulsivo de roseiras antigas e modernas” e pianista das horas vagas que dirige o Governo Regional da Madeira tenha classificado como “quase suicidário” as equipas madeirenses  deslocarem-se ao território continental para a prática desportiva.

 

Imagem: 24.sapo.pt

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