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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

MARCELO LIVE NA MADRASSA DO PSD

Agosto 31, 2025

J.J. Faria Santos

2025_Russia–United_States_summit_with_Donald_Tru

A ideia de que o Presidente da República cometeu uma gafe é absurda. Estamos a falar de alguém a quem atribuem uma lendária inteligência, uma incomparável capacidade de análise e uma gloriosa presciência. Marcelo disse o que disse, onde disse e nos termos em que disse por sua exclusiva e irreprimível vontade, na plena posse do domínio das ferramentas da retórica e com a plena consciência do seu potencial efeito jornalístico. As suas declarações mais disruptoras foram proferidas em ambientes descontraídos e despojados de carga institucional. Foi o caso do célebre jantar com correspondentes estrangeiros, em que traçou o perfil psicológico e sociológico de Montenegro, e agora na Universidade de Verão do PSD, onde nem faltou uma aparição live inesperada, nem o soundbite da semana: “O líder máximo da maior superpotência do mundo, objetivamente, é um ativo soviético ou russo.” Convém não esquecer que apesar do nome, o evento social-democrata (que inclui uns convidados independentes e até doutros partidos), tendo em conta os discursos que os ministros lá vão fazer e a intervenção de Hugo Soares, é basicamente um seminário de propaganda e endoutrinamento. Ou, como diria Miguel Relvas com superlativa subtileza, uma espécie de madrassa.

 

O pronunciamento de Marcelo sobre Trump não é original. Em Janeiro de 2021, o jornal The Guardian fazia eco das revelações de um ex-espião do KGB, Yuri Shvets, no sentido de que o magnata americano é, há mais de quatro décadas, “cultivado como um activo russo”. Shvets revelou que o KGB tinha recolhido bastante informação acerca das características pessoais de Trump, visto como alguém “extremamente vulnerável intelectualmente e psicologicamente, e susceptível à lisonja”, bem como disponível para “papaguear propaganda antiocidental”. Trump terá tido contactos com agentes ou colaboradores do KGB, quer no âmbito da sua actividade empresarial nos EUA, quer no contexto de viagens que efectou a Moscovo e a São Petersburgo. O ex-espião russo foi uma das principais fontes do livro American Kompromat do jornalista americano Craig Unger. Em Março deste ano, um fact-checking da Euronews não conseguiu comprovar a alegação de outro ex-KGB, Alnur Mussayev, de que Trump teria sido recrutado pelo KGB em 1987, tendo-lhe sido atribuído o nome de código “Krasnov”. Contactado pela Euronews, Craig Unger fez questão de distinguir entre agente e activo: “Enquanto que um agente é um funcionário pago de um serviço de inteligência, um activo é um amigo confiável disponível para favores.” Considerando estas definições, e tendo em conta a admiração do presidente americano pelo seu homólogo russo, percebe-se o comentário de Marcelo, com especial enfâse no “objectivamente”. Que o Presidente da República o deva verbalizar é outra questão, a ser trabalhada pelo irascível ministro dos Negócios Estrangeiros. Marcelo, claro, está para além do bem e do mal, do salamaleque diplomático e do perfil institucional. É um primus inter pares com licença para ser elefante em loja de porcelanas.

A TROIKA DO PSD NA CÚPULA DO ESTADO

Março 08, 2025

J.J. Faria Santos

José_Pedro_Aguiar-Branco,_Marcelo_Rebelo_de_Sousa

Marcelo Rebelo de Sousa, o dissolvente, sob a capa da magistratura dos afectos, foi acumulando capital político, que depois foi usando numa interpretação criativa dos poderes presidenciais, umas vezes no limite da ingerência, outras vezes na imediação do abuso dos poderes que a Constituição lhe confere. O estilo “presidente do povo” não disfarça um perfil que aprecia salamaleques, cortesias e demonstrações de vassalagem, cuja recusa teve sempre como resultado palavras verrinosas, gestos ostensivos de despeito e expedições esotéricas a caixas multibanco e locais históricos da capital, e até conferências de imprensa informais com correspondentes estrangeiros. Deixou-se enredar numa trama de favores em cadeia, que teve como protagonista o agora mal-amado filho. Insigne criador de cenários e inigualável oráculo do futuro, desbaratou uma maioria absoluta e iniciou o período que ele próprio baptizou de “miniciclos”.

 

Eleito à quarta tentativa presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, o pedagogo, anunciou de imediato que teria para com a bancada do Chega uma atitude “diferente” da do seu antecessor. Dado que todos os deputados tinham sido “eleitos com o voto universal, todos merec[iam] o mesmo respeito”. O Parlamento, explicou, seria o retrato da “diversidade da nossa sociedade”, implicando a convivência com “diferentes formas de estar”. Aguiar-Branco conviveu mal com a “vandalização política” do património nacional quando o partido de Ventura colocou tarjas na fachada do Parlamento com políticos com notas à frente da cara (“uma falta de respeito”, disse), mas convive bem (em nome da “liberdade de expressão”) com discursos de teor racista ou apologistas da violência, com apartes insultuosos e com os comportamentos aviltantes de uma bancada insubordinada que se compraz em rolar na imundície. Aguiar-Branco aposta na “pedagogia” e no “juízo sancionatório” dos portugueses. Os portugueses em casa testemunham a inacção, que é conivência, de um presidente que não quer ser “censor”.

 

Luís Montenegro, o transparente, decidiu exercer o cargo seguindo o estilo de gestão de silêncio do “senador” Cavaco. Na mesma onda, deplorou o “estilo ofegante” da comunicação social e as perguntas sopradas pelo auricular. Ao mesmo tempo construiu uma estratégia comunicacional cuja agenda-setting é potenciada pela presença simultânea de ministros em vários canais de TV, reproduzindo e reforçando as mensagens que pretende fazer passar. Esta mescla de jejum comunicacional com barragem mediática deu curto-circuito com a investigação aos rendimentos e às empresas do primeiro-ministro. Orgulhoso da sua honorabilidade, provocador perante o escrutínio dos seus pares e dos jornalistas, avarento com os detalhes importantes e perdulário com as inutilidades, mostrou-se incapaz de compreender o conceito de conflito de interesses, acabando, em desespero, por ter de assegurar que está “desde a primeira hora em exclusividade total de dedicação à função de coordenação da ação do governo e de representação de Portugal”. Como escreveu Manuel Carvalho no Público, num dos artigos de opinião menos críticos para Montenegro: “(…) um primeiro-ministro de uma democracia não pode ter telhados de vidro. Perante uma suspeita tinha de abrir o jogo, todo o jogo. Falhou e enterrou-se num pântano sem salvação possível.”

 

Marcelo (o dissolvente), Aguiar-Branco (o pedagogo) e Luís Montenegro (o transparente) constituem a troika do PSD na cúpula do Estado, e foram ou são um factor de instabilidade e/ou de degradação da democracia portuguesa, tarefas a que se parecem ter entregado em “exclusividade total de dedicação”.

 

Imagem:https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jos%C3%A9_Pedro_Aguiar-Branco,_Marcelo_Rebelo_de_Sousa,_Lu%C3%ADs_Montenegro_assinam_o_termo_de_sepultura_de_E%C3%A7a_de_Queiroz_no_Pante%C3%A3o_Nacional_2025-01-08.png

OPERAÇÃO NEPO INFLUENCER

Dezembro 10, 2023

J.J. Faria Santos

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Afinal havia um e-mail. Enviado pelo dr. Nuno ao Presidente Marcelo Nuno. E a operação nepo influencer teve início. Sob o signo da generosidade, do impulso humanista. “Quis ser solidário”, explicou o pai acerca das intenções do filho. E apesar do procedimento standard nestas situações consistir no envio dos pedidos por parte do chefe da Casa Civil do Presidente para o chefe de gabinete do primeiro-ministro, neste caso tivemos uma assessora presidencial a telefonar para o Hospital de Santa Maria, o dr. Nuno a confirmar e reconfirmar informações com a assessora e o chefe da Casa Civil e, por fim, o mesmo dr. Nuno a reunir com um secretário de Estado. O mesmo governante que terá solicitado a marcação da primeira consulta das crianças ao Hospital de Santa Maria.

 

Num célebre discurso proferido em Maio deste ano, o Presidente da República afirmou: “Onde não há responsabilidade, na política, como na administração, não há autoridade, respeito, confiança, credibilidade. Um governante sabe que ao aceitar sê-lo aceita ser responsável por aquilo que faz e não faz e também por aquilo que fazem e não fazem aqueles que escolhe, e nos quais é suposto mandar.” O mesmo, quase ipsis verbis, pode ser dito de um Presidente que não se inibe de servir de correia de transmissão do generoso empenho do seu filho, formalizado através de um e-mail, não vendo nesta acção qualquer “privilégio”. E se, ainda por cima, o filho invocou o nome do pai nos diversos contactos que terá mantido? Marcelo espera que ele não o tenha feito, E acrescentou: “Se isso se viesse a comprovar, era totalmente inaceitável.” A formulação é algo arrevesada. Se se viesse a comprovar? Ou se tivesse ocorrido? Se tiver acontecido, mas não se conseguir provar, já não é “inaceitável”?

 

“Responsabilidade é mais do que pedir desculpa, virar a página e esquecer. É pagar por aquilo que se faz ou se deixou de fazer”, disse Marcelo em Maio. Responsabilidade é mais do que avivar a memória e circunscrever a sua acção a 10 dias. É assumir o peso do seu endosso nos acontecimentos subsequentes que conduziram à administração do tratamento às gémeas e pagar por isso, pode dizer-se em Dezembro. Porque como ele próprio reconheceu no dia 4 de Maio, não convém que os portugueses fiquem com a percepção de que “ninguém responde por nada”, ou de que “acabam por só responder, eventualmente, os mais pequenos”.

 

Imagem: captura de ecrã - site www.dn.pt

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