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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

ALTA PRESSÃO - A VIDA COSTA!

Novembro 20, 2022

J.J. Faria Santos


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“Ai, Costa, a vida Costa!” era o bordão da série Malucos do Riso, programa de humor que consistia, basicamente, na encenação de anedotas. António Costa, jornalista, disse na CNN Portugal, a propósito do livro baseado em entrevistas ao ex-governador Carlos Costa, que este “é hoje um homem isolado e utilizado pela direita, nomeadamente o PSD”, para uma luta política com o PS. A coisa foi tão ostensiva e tão pouco subtil que levou a jornalista São José Almeida a considerar que “a sessão do lançamento do livro se transformou num comício do PSD”. Desde a tomada de posse de Carlos Moedas que a direita não saía em peso à rua (com a notória ausência de Paulo Portas, que não morre de amores pelo ex-governador). O “comentador” Marques Mendes liderou a sessão de propaganda, desafiando (pressionando?) o Ministério Público a abrir uma investigação criminal à venda do BANIF, por alegado “abuso de poder” e “favorecimento” do Santander. Carlos Costa, em entrevista ao mesmo canal, lamentou a ausência dos seus amigos de esquerda, facto que “desequilibrou a audiência”, seguramente uma deplorável falha na mise-en-scène.

 

Segundo o relato do Expresso, o tom e o conteúdo da intervenção de Marques Mendes foi interpretado por parte dos presentes como “o embrião de um programa de candidatura” presidencial. Mendes terá usado a táctica do 2 em 1- champô e endurecedor: limpou e branqueou o desempenho do ex-governador e endureceu a crítica ao primeiro-ministro em funções. A narrativa da direita foi abalada por declarações como as de António Lobo Xavier e, sobretudo, pela intervenção do Presidente da República, sublinhando que, em relação ao BPI, o interesse nacional foi salvaguardado e Isabel dos Santos afastada, tudo na decorrência de um processo em que se conjugaram decisões financeiras com considerandos políticos e ponderações acerca das relações entre Estados, no qual o próprio governador esteve envolvido.

 

Um detentor de um alto cargo que não saiba lidar com pressões não possui qualificações para o desempenhar. E ainda menos se encarar a sua área de actuação como região demarcada, imune a circunstâncias políticas, financeiras ou diplomáticas. Uma coisa é preservar a independência da instituição que dirige, outra muito diferente é encarar cada diligência ou contributo externo como uma ingerência intolerável. Apregoa uma das teses acerca das motivações para a elaboração deste livro que o objectivo de Carlos Costa seria o de ajustar contas com Mário Centeno. Com a narrativa das pressões, e com o takeover da sessão de lançamento orquestrado pela ala passista do PSD, o ex-governador conseguiu a proeza de ser peão de uma manobra política, provocar o rememorar do balanço entre o pouco abonatório e o desastroso dos seus mandatos e recolher os remoques e o desinteresse dos banqueiros. Na conferência “A banca do futuro”, organizada pelo Jornal de Negócios, o CEO do BPI, João Pedro Oliveira e Costa, comentou: “Já houve comissões de inquérito, já houve pessoas que não tomaram Memofante, devemos passar à frente, a história está contada no sentido em que os bancos estão bem.”

MARCELO AMEAÇA MINISTRA

Novembro 06, 2022

J.J. Faria Santos

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Estamos habituados aos “recados”, aos “avisos” e às “recomendações” do Presidente da República. Desta vez, tendo em conta a formulação e o tom, aqui e ali suavizados por um esboço de sorriso equívoco, não será exagerada a palavra ameaça. Marcelo dirigiu-se à ministra Ana Abrunhosa nestes termos: “Este é um dia superfeliz, mas há dias superinfelizes. E verdadeiramente superinfeliz para si será o dia em que eu descubra que a taxa de execução dos fundos europeus não é aquela que eu acho que deve ser. Nesse caso não lhe perdoo. Espero que esse dia não chegue, mas estarei atento para o caso de chegar”. Entre o paternalismo, a infantilização e a  ilusão da co-governação, o Presidente teve uma tirada “superinfeliz”.

 

Da última vez que reli o artigo 133º da Constituição da República Portuguesa, não constavam do rol das competências do PR relativamente a outros órgãos a sindicância e a avaliação do desempenho dos membros do Governo. Afirmações deste calibre não se coadunam com a noção comum de cooperação institucional, nem sequer com o conceito fluido de “magistratura de influência”, na exacta medida em que se afastam do simples grau de exigência que deve orientar qualquer exercício de funções públicas para se aproximarem da advertência grosseira dissimulada por uma linguagem infantil.

 

O Presidente está mal-acostumado. Em tempos, logrou antecipar-se à demissão aprazada da ministra Constança Urbano de Sousa e aparecer em público como o indutor do seu despedimento do Governo. É certo que, depois, fracassou quando tentou forçar a demissão de Eduardo Cabrita, mas não perde uma oportunidade para tentar extravasar os limites do seu poder. Agora, penalizado pela sua verborreia e pela presunção da omnipresença e da omnisciência, grita aos setes ventos que não vai ficar enclausurado no palácio, algo que nunca ninguém esperou ou sugeriu. Que porfie, pois. Que intervenha, que se desloque pelo país, que quase arranque o braço ao Paddy Cosgrave ou que avise ou ameace ministros. Não espere é uma qualquer espécie de imunidade face aos juízos de valor dos cidadãos. Até lhe podemos perdoar, mas continuaremos a cobrar-lhe os dias em que for “superinfeliz”.

O MOMENTO HORRIBILIS DE MARCELO E O MOMENTO TONY BLAIR DE COSTA

Outubro 16, 2022

J.J. Faria Santos

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Pontos comuns à monarquia inglesa e à República Portuguesa? Bom, a rainha inglesa declarou 1992 o seu annus horribilis e a imprensa portuguesa diz que em Outubro de 2022 ocorreu o momento horribilis  de Marcelo. E se Carlos III recebeu Liz Truss entre o desdenhoso e o enfadado (“Back again? Dear oh dear. Anyway,,,”), a maioria dos portugueses, quando assiste à enésima intervenção diária do seu Presidente, deve desabafar: “Outra vez? Que inadiável comunicação informal ao país o Presidente nos impinge agora?”.

 

Passando por cima da questão de saber até que ponto a condição de católico condiciona o desempenho do seu mandato, a verdade é que as suas declarações a desvalorizar a dimensão dos casos de abusos sexuais denunciados em Portugal dentro da Igreja Católica foram lamentáveis. O que se seguiu foi uma manobra pouco hábil de controlo de danos, culminando num relutante pedido de desculpas (centrado mais na susceptibilidade das vítimas do que na insensibilidade ou na irrazoabilidade das suas afirmações), o que levanta a suspeita de que, citando Helena Pereira em artigo no Público, “a total impunidade ou arrogância de quem está há muito tempo no poder, e que o Presidente já criticou a propósito do Governo, se instalou também em Belém”. 

  

Adoptando o modo bravata (o que é capaz de ficar bem ao Comandante Supremo das Forças Armadas), Marcelo asseverou ao Expresso: “Não pensem que me vou fechar no Palácio”. Ninguém o pediu, nem ninguém espera que adira a um voto de silêncio em contexto monástico. E prometeu continuar o seu caminho, “exactamente como sempre foi, sem mudar uma vírgula nos valores, nos princípios, na determinação…”. Já os fins serão mais flexíveis ou mutáveis. A confirmar a sua natureza, diz-nos o Expresso que na quarta-feira à noite foi testar a sua popularidade num trajecto que incluiu Lisboa e Cascais. Parece que os resultados da sondagem PR/Portugália/Santini foram satisfatórios, dado que “o povo ter-se-á mantido afectuoso”.

 

Regressando ao paralelismo entre a monarquia inglesa e a República Portuguesa, Ana Sá Lopes escreveu no Público que há quem tenha visto na vigorosa solidariedade do primeiro-ministro para com o Presidente uma variante por parte de António Costa do “momento Tony Blair no dia da morte da princesa Diana”, ou seja, perante um chefe de Estado debilitado e acossado por uma gaffe monumental, o líder do Governo aparece como referencial de estabilidade e bom senso. Curiosamente, o secretário-geral do PS, em reunião com os deputados do seu partido, explicou aos seus atentos interlocutores que o PS dever ser um “referencial de tranquilidade” e que tal não é compaginável com “andar a correr de um lado para o outro, fazer 30 declarações por dia, e dizer uma coisa num dia e outra noutro”. Ring a bell?

REALIDADE ALTERNATIVA E ALTERNÂNCIA

Outubro 09, 2022

J.J. Faria Santos

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O presidente da câmara de Lisboa fez um discurso de líder da oposição a pedir “audácia” e “vontade de mudança”, enquanto perorava que o que tornava a vida “insuportável” para os portugueses era (A inflação? As taxas de juro dos empréstimos? A escassez habitacional? Os rendimentos baixos?) “o jugo fiscal”. O Presidente da República, escassos meses depois das eleições legislativas e da tomada de posse do Governo, achou oportuno revelar ao país, para surpresa generalizada, que “nada é eterno em democracia” e que o “Presidente tem o poder de dissolver o Parlamento”, num discurso visto à direita, conforme declarações ao Expresso, como “errático” (Miguel Morgado) e “repetitivo e inconsequente” (Diogo Feio). O líder do PSD, reagindo a um discurso presidencial que alertava para os riscos da ascensão da extrema-direita e dos “apelos a regimes autocráticos”, vislumbrou nele um estímulo à “criação de alternativas”, mas sentiu a necessidade de se afastar de uma possível ligação ao Chega, “que não existe, é uma ficção”. Já o primeiro-ministro, com aquele seu ar que combina a estóica paciência de Buda com uma persistente poker face, não resistiu a afirmar que “O sr. Presidente da República deve expressar aquele que é em cada momento o sentimento do país, o sentimento da nação. Nós não falamos. Nós agimos, fazemos, resolvemos.”

 

No entretanto, o país envolveu-se numa discussão académica acerca da noção de conflito de interesses, a cavalo de uma sucessão de notícias onde o sensacionalismo e o sentido de oportunidade jornalística se sobrepuseram à relevância e à consistência. Regressou a clássica dicotomia legalidade/ética, com leituras maximalistas apaixonadas desta última, sem que se tenha tornado evidente a necessidade de uma leitura equilibrada de cada caso, onde acima de tudo se coloque a transparência e o escrutínio. Em última análise, uma visão absolutista do conflito de interesses poderia ferir liberdades e garantias consagradas no plano constitucional.

 

Por fim, ao nível económico-financeiro, prossegue a novela da “folga orçamental”. Parece-me evidente que numa conjuntura de inflação em níveis históricos, uma possível recessão no horizonte e uma guerra na Europa com impactos económicos tremendos, seria aconselhável prudência na gestão das finanças públicas, procurando um equilíbrio difícil entre a prossecução da consolidação orçamental, os estímulos à economia e a salvaguarda do Estado social. Num país cuja dívida pública ronda os 120%, e cujo juro médio de emissão da mesma subiu de 0,6 % em 2021 para 1,3% este ano (e que já pagou 2,754% na última colocação de dívida a 10 anos), falar em “folga orçamental” é um erro de paralaxe. Convinha que no afã de mostrar apego e entusiasmo às inegáveis virtudes da alternância, políticos, jornalistas e comentadores evitassem cair numa realidade alternativa onde a semelhança com a ficção não é pura coincidência.

 

Imagem: Miguel Figueiredo Lopes/Presidência (sol.sapo.pt)

A OUSADIA DA CO-GOVERNAÇÃO

Setembro 04, 2022

J.J. Faria Santos

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Marcelo é Presidente da República, analista político informal, director de comunicação da sua Casa Civil, fonte jornalística e técnico de balões (ele diz que, em determinadas situações, se não tivesse “intervindo o balão inchava”, mas desconfio que noutras ocasiões terá soprado com força).

 

Esta semana esteve ocupado a justificar-se perante a sua família política, na Universidade de Verão do PSD. Questionado por um jovem que aludiu à sua “benevolência” e “compaixão pelo Governo”, respondeu: “O Presidente vai tendo presente em cada momento a vontade popular, a situação vivida, a existência que sempre defendi de alternativas. Disseram muitos: foi uma benevolência que não foi compreendida por sectores da sociedade, mas foi pelo povo que foi votando.” Como observou o Papa Francisco, ter compaixão é “aproximar-se e tocar a realidade. Não olhá-la de longe”. O PR, como bom católico, aproximou-se da realidade (incluindo a realidade virtual dos estudos de opinião) e moldou o seu registo de actuação em função da avaliação que fez dos dados disponíveis.

 

A existência de uma maioria absoluta veio dificultar a sua acção e retirar-lhe margem de manobra em termos institucionais, mas, por outro lado, libertou-o para apostar nas acções mediáticas. É previsível o aumento das declarações em que, apostando no poder da influência, simula ou sugere uma espécie de co-governação. Como foi o caso desta semana, brindando-nos com as suas preferências sobre a forma de gestão do SNS e tecendo considerações acerca da urgência dos apoios para combater as dificuldades trazidas às famílias e às empresas pelo aumento da inflação. O PR é o mestre dos equilíbrios precários. É por isso que mesmo interessado em dar um impulso a Montenegro e em promover o desgaste do Governo, enquanto este não estiver numa trajectória descendente irreversível, prosseguirá a sua estratégia de elogios e censuras alternados, alardeando o seu papel de árbitro imparcial que recorre ao VAR (os inquéritos de opinião e os resultados dos sufrágios).

 

A ilusão da co-governação depende da boa vontade e da paciência do primeiro-ministro, cuja frieza terá limites perante atitudes ou declarações na fronteira da ingerência na sua esfera de acção. Se Marcelo pretende alargar-se na explanação das suas ideias acerca de sectores-chave da governação, talvez fosse conveniente ponderar a renúncia ao cargo que exerce e tratar de candidatar-se a líder do PSD. Doutro modo, arrisca-se a criar na mente dos portugueses a ideia de que se dedica com indisfarçável deleite à arte de semear a dissensão, sem propósitos definidos (visto que não tem legitimidade democrática para impor os seus pontos de vista), em desfavor da estabilidade e apostando, para citar o seu correligionário Cavaco Silva, em “querelas inúteis”.

 

Imagem:Manuel de Almeida / Lusa

O INVERNO ESTÁ A CHEGAR

Agosto 28, 2022

J.J. Faria Santos

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Com o desemprego registado em mínimos históricos e o país a crescer acima da média da EU, mas com uma taxa variação homóloga da inflação acima dos 9% e uma guerra no coração da Europa de consequências imprevisíveis, ainda bem que temos dirigentes políticos, líderes de opinião e académicos empenhados no debate de ideias, no diagnóstico das situações e na apresentação de soluções, capazes de ver para além da espuma dos dias, isto é, separar o acessório do essencial, o episódio circunstancial da tendência longa. Era bom que assim fosse, mas como muitas vezes sucede, há uma elite (entendida em sentido lato) atolada na malaise, desgostosa com Portugal e com os portugueses, em busca de um desígnio perdido, que se compraz na amálgama de situações de gravidade e importância variável para compor um retrato de um país à beira do descalabro.

 

Três exemplos. Ricardo Reis, em “depressão pós-férias”, socorre-se das estatísticas da emigração para, no Expresso, interpelar as mais altas figuras da nação nestes termos: “Senhores Presidente e primeiro-ministro, desculpem-me a brutalidade, mas é preciso um abano: as pessoas fogem da vossa liderança e governação ao mesmo ritmo que fugiam da Guerra Colonial”. No mesmo jornal, o seu director (João Vieira Pereira), enumerando uma série de “casos” que envolveram o Governo, lamenta-se: “(…) por muito menos do que isto Marcelo Rebelo de Sousa chumbava ministros. Hoje protege-os. Como chegámos aqui? (…) Não temos hoje um primeiro-ministro. (…) Ninguém sabe que caminho estamos a percorrer ou onde queremos estar daqui a cinco ou dez anos”. António Barreto, na sua coluna no Público, prognostica, ao estilo Guerra dos Tronos, que “vai ser um duro Inverno” (que está a chegar), e sugere uma espécie de comité de sábios (“independentes”, “gente isenta”, “técnicos competentes”, “chamar o que há de melhor em Portugal e no estrangeiro”. E interroga-se: “Não seria a altura de pedir ajuda a quem sabe para tratar daquilo para que este Governo, e outros antes dele, se mostraram incapazes?”

 

Não há nada de errado numa atitude exigente e crítica face ao desempenho da classe dirigente. Pelo contrário. É de incentivar a proliferação de propostas, análises e estudos, mesmo que corramos o riso das suas conclusões deslizarem para o déjà vu (como é o caso do livro da SEDES). O que se torna cansativo, e eventualmente contraproducente, é esta espécie de transtorno maníaco-depressivo em que os episódios depressivos parecem prevalecer, onde se vislumbra a nação como uma choldra donde apetece fugir e onde só o socorro de iluminados, estrangeiros e estrangeirados, nos pode salvar. Felizmente, com todos os seus defeitos, existe uma classe (pejorativamente apelidada de “os políticos”) que se dedica à resolução dos problemas quotidianos sem desviar o olhar do futuro. Isto enquanto uma elite com falta de comparência (quando era mais necessária) se compraz, a pretexto de uma lucidez sem par, na enumeração das insuficiências e das falhas.

 

Imagem: Rick Morais (Wikimedia Commons)

SILLY SEASON À LUZ DE AGOSTO

Agosto 07, 2022

J.J. Faria Santos

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Parece que o árbitro do interesse público não pode exercer o seu poder moderador e exibir um cartão amarelo ao presidente de um grande player do sector da energia (que, inopinadamente, anunciou o aumento colossal na factura de electricidade, logo desmentido pela empresa em comunicado), sem que isso seja interpretado pelas forças amigas das empresas e da livre iniciativa como o prenúncio da caminhada para o estatismo chavista. Na verdade, António Costa, no seu despacho, limitou-se a destacar a necessidade de proteger os consumidores de “ameaças de práticas especulativas”, a frisar a necessidade de gerir bem “os dinheiros públicos” e a lembrar que há outros prestadores e serviços no mercado. Houve quem sugerisse o recurso ao VAR (também conhecido como o nosso senhor dos avisos e dos recados), mas Marcelo limitou-se a pedir “bom senso” e “responsabilidade social” às empresas.

 

Largado com estrondo o pronunciamento do Sr. 40%, publicado com brutalidade o despacho da discórdia (desrespeitoso para as primas-donas da economia de mercado, habituadas a salamaleques untuosos, subsídios a fundo perdido e amizades recíprocas com salvos-condutos para portas giratórias), eis que comentadores indignados e políticos empenhados em transformar a “piolheira” num farol do liberalismo se apressaram a denunciar a prepotência, a ameaça e a retaliação. Marcelo não convocou o Conselho de Estado, a Endesa tranquilizou os seus clientes e Portugal prosseguiu indiferente à bolha mediática da política, atenção dividida entre o astronauta Mário Ferreira (que foi ao espaço durante 10 minutos), o melhor jogador do mundo, CR7, agora entretido a desfazer a sua imagem de profissionalismo, e o apelo da praia e do mar. Isto enquanto o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelidou de “imoral que as petrolíferas e as empresas de gás estejam a fazer lucros recordes a partir da crise energética e graças às comunidades mais pobres, com um custo enorme para o clima”.

MARCELO EM DIGRESSÃO MUNDIAL

Maio 29, 2022

J.J. Faria Santos

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Como uma vedeta consagrada do showbiz, subitamente desafiada pelas estrelas instantâneas do YouTube ou do TikTok, Marcelo vai partir em digressão mundial. Com o seu soft power de influencer a ser claramente ofuscado por Marques Mendes e Paulo Portas e o seu hard power associado ao desempenho presidencial a ser alvo de acusações de “falta de sentido de Estado” por parte de militares, o Presidente da República prepara uma tournée, que começa em 10 de Junho no Reino Unido e, segundo o Expresso, vai “do Equador ao Brasil, passando pelo Canadá, Costa Leste dos EUA, Irlanda, Moçambique e Suíça”. Nada como uma recepção apoteótica em Moçambique ou um convívio alargado com as comunidades portuguesas no estrangeiro para dar novo brilho à sua star quality.

 

Claro que a estrela da companhia não pode admitir que os novos influencers, e sobretudo a circunstância da existência de um governo de maioria absoluta, lhe retiraram margem de manobra. Resta o poder da magistratura de influência e da palavra presidencial, neste caso, porventura, acusando alguma usura pelo uso excessivo e muitas vezes improdutivo. Por conseguinte, a justificação oficiosa é a de que o Presidente não pretende “continuar, ele próprio, a bipolarizar com o chefe do Governo”, abrindo assim espaço para a intervenção do novo líder do PSD. Doutro modo, terá dito Marcelo, correria o risco de “liquidar o próximo líder da oposição”.

 

A digressão, que tem o nome provisório de Tourbilhão 2022/2023, é ainda uma espécie de work in progress, não estando confirmada a hipótese avançada por fontes afastadas de que o PR iria sambar. Já se afigura incontornável que, em Moçambique, esteja previsto um número que inclua a marrabenta. Para já, foi posta de parte a ideia do PR ter uma página no Instagram, pelo que esta tournée é, para os fãs do homem por quem Cristo não se dignou descer à Terra, uma oportunidade para o fazer sentir-se perto do Céu.

BIG SHOW MARCELO OU A MÁSCARA?

Abril 03, 2022

J.J. Faria Santos

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Prossegue, envolto em deslumbramento, dividindo-se entre a flash interview, o espectáculo de variedades, a actividade de fonte de Belém e o exercício de sniper supostamente inspirado nos discursos institucionais, o reportório presidencial. O afamado analista, que quando convocou eleições imaginou um período de instabilidade e turbulência políticas (propício ao estender da sua tutela), viu-se confrontado com uma maioria absoluta e recorre agora ao estafado bordão de que esta não pode ser sinónimo de “poder absoluto”. Nem, imagine-se, “ditadura da maioria”. Como o primeiro-ministro já tinha dito o mesmo na noite das eleições (“Uma maioria absoluta não é poder absoluto, não é governar sozinho”), não se pode dizer que se tenha manifestado aqui a celebrada capacidade de antecipação do PR. Tratou-se de um “aviso” requentado para memória futura.

 

Claro que, está na sua natureza, o PR tinha de marcar a agenda de forma que ele considerasse bombástica. Ao nível do discurso, a subtileza não é o seu forte, porque padece sempre de um défice de impacto na esfera noticiosa. Por isso, para além de um elaborado caderno de encargos que desfiou (a exigir quase a omnipotência do primeiro-ministro para corresponder ao grau elevado de exigência), o Presidente deixou implícito que se Costa abandonasse a legislatura a meio para ir exercer um cargo europeu, convocaria eleições antecipadas. Porquê? Porque “os portugueses deram a maioria absoluta a um partido, mas também a um homem”, e “não será politicamente fácil que esse rosto, essa cara que venceu de forma incontestável e notável as eleições, possa ser substituído por outro a meio do caminho”.

 

A jogada do mestre da táctica teve grande impacto nos mass media e colheu o aplauso entusiástico dos junkies dos factos políticos, mas arrisca-se a ter um efeito bumerangue. Não só o PR traçou o perfil de um primeiro-ministro, na prática, insubstituível, como viu Costa afastar a hipótese de não cumprir o seu mandato, e colocar uma “fonte próxima” a garantir ao Expresso que o PM “gostou muito de ouvir o Presidente atribuir-lhe uma legitimidade que até agora só o Presidente da República tinha: a de ter sido eleito pessoal e directamente pelos portugueses.” A forma escolhida por Costa para “responder” ao inusitado teor da intervenção presidencial é um portento de ironia: através de uma manchete no Expresso, utilizando a figura da “fonte próxima” e, coincidência ou não, com o requinte acrescido do artigo ser co-assinado por Ângela Silva, o veículo privilegiado dos “recados” presidenciais no semanário em causa.

 

Fazendo jus à sua veia pedagógica (não que as suas palavras tivessem causado qualquer perplexidade…), o PR tratou depois de dar explicações adicionais. Que podem ser resumidas do seguinte modo: As suas palavras podem ser consideradas um “ultimato”? Não. “O ultimato é do povo, não é meu.” Alguma vez Costa tinha dado qualquer sinal de que poderia optar por um cargo europeu? Não. Então porque escolheu falar sobre isto? “Porque é uma evidência”.

 

Tecendo considerações acerca de uma intervenção de Marcelo respeitante à formação do governo, António Guerreiro escreveu no Público que se denomina de preterição a figura de retórica “que consiste em fingir que não se quer falar de um assunto, muito embora não se faça outra coisa do que falar dele”, e que esta “figura de linguagem serve o comportamento manhoso, ínvio, que avança sinuosamente”. Acrescentando que esta figura é aquela com que “podemos identificar o nosso Presidente e nos convida a ouvi-lo com precaução”, Guerreiro anota que que a preterição “denuncia um traço de carácter que tem alguma graça e subtileza, mas é como um rosto que avança mascarado”.

 

Como algumas bebidas e alguns tipos de alimento, Marcelo é para ser consumido moderadamente. E, no que diz respeito a sua performance, quer opte pelo estilo abrangente do Big Show Marcelo quer se refugie na opulência enigmática de A Máscara, apetece reagir com um provérbio popular: cantas bem, mas não me alegras.

 

Imagem: jn.pt/Lusa

A LISTA DE COSTA

Março 27, 2022

J.J. Faria Santos

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Com a pandemia submersa na corrente comunicacional, a guerra que alterou a ordem mundial foi brevemente ofuscada pela efervescência que acompanhou a divulgação do novo elenco governamental. O Presidente da República aproveitou a circunstância de este ter sido escarrapachado na comunicação social antes de lhe ter sido oficialmente apresentado para fazer um dos seus números de teatro burlesco. A simulação de desagrado institucional foi demonstrada através de uma entrevista informal e o número, de tão rotineiro e artificial, foi surpreendente, mas não relevante. No dia a seguir, paternalista e vagamente ameaçador, proclamou: “Passou. Foi registado. Agora vamos ver para o futuro.” Aposto que António Costa, longe de ter tremido das pernas, encolheu os ombros com enfado e respirou fundo.

 

Unanimemente saudado por se tratar de um executivo paritário, confesso a minha satisfação pela continuidade de Ana Mendes Godinho (competente) e Marta Temido (corajosa e assertiva), bem como de João Gomes Cravinho (bem preparado, experiente e rigoroso, tendo sido alvo da ira de Marcelo e dos chefes militares por ter ousado reformar o sector. Parece que terá sido avaro nos salamaleques, bendito seja!) As nomeações de António Costa e Silva, Elvira Fortunato e Helena Carreiras geram expectativas elevadas e Pedro Adão e Silva, aparentemente um erro de casting, pode, na minha opinião, vir a fazer um bom lugar. Claro que uma grande qualidade técnica, uma carreira profissional brilhante ou abundantes dotes políticos não garantem capacidade executiva. A prova dos nove, para os noviços, começa agora.

 

Os que ficaram de fora foram tratados nos média como se fossem concorrentes expulsos do Big Brother. O Pedro, que é amigo do PM, queria continuar, entusiasmado pela maioria absoluta, mas não se comprometia a ficar 4 anos. Nélson quis sair, mas ficou aborrecido pelo facto de o Planeamento ter sido despromovido a secretaria de Estado e não gosta que tratem António Costa e Silva como o “pai do PRR”, quando foi ele, Nélson, que elaborou e negociou o documento final com Bruxelas. E a Alexandra queria ser ministra de Justiça, razão pela qual declinou ser líder parlamentar do PS. O Público escreveu mesmo que Costa “’despediu’ o amigo e número dois, Pedro Siza Vieira, sem remorsos”. Ou seja, a comunicação social ora acusa o PM de se rodear de amigos e de não os deixar cair, ora o retrata como um líder caracterizado pela frieza e pela ausência de estados de alma. Será ingénuo imaginar que se limita a agir de acordo com o grau de oportunidade, pertinência e relevância que determinada acção tem para os superiores interesses do país?

 

Ainda o Governo não entrou em funções e as pitonisas já determinaram a falha na ambição: falta uma visão de futuro. E evocam os mantras do costume: as “reformas estruturais” que não se adivinham, o “desígnio” que não se vislumbra, a gloriosa cavalgada para a regeneração nacional que nos levaria a inverter a queda do PIB per capita e a trepar na tabela da União Europeia. Se calhar o futuro não pode esperar, mas o presente impõe-nos desafios ainda mais urgentes face a uma conjuntura altamente instável. António Costa foi reeleito com maioria absoluta, julgo, sobretudo pela sua capacidade de transmitir confiança na forma como foi capaz de lidar com circunstâncias complexas e imprevisíveis. E nada é mais imprevisto do que o futuro. A “bazuca”, se mal utilizada, pode vir a ser um mero paliativo, mas a ideia de que existe uma “bala de prata”, engendrada por uma mente iluminada, que transformará Portugal numa nação unicórnio não passa de um delírio.

 

Imagem: portugal.gov.pt

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