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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

TUDO EM TODO O LADO AO MESMO TEMPO

Março 12, 2023

J.J. Faria Santos

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Quase ao bater do minuto 50, em resposta a António José Teixeira, o Presidente balbuciou: “Pois é. Mas eu, eu, eu não me sigo, eu não, não me defino por sondagens.” Que os dois entrevistadores tenham mantido alguma circunspecção e não tenham desatado às gargalhadas é uma demonstração do seu profissionalismo. O Presidente que não se “define” por sondagens tinha minutos antes explicado que existe uma alternativa “aritmeticamente”, mas não “politicamente”, porque “a maioria das sondagens” mostra uma percentagem de votos nos partidos de direita e centro-direita superior aos da esquerda, mas isso resulta numa “alternativa fraca de liderança” devido ao facto de o “partido mais importante daquela área não ter o dobro do somatório dos outros dois”. Da última vez que o PR “não se definiu” por sondagens, anteviu uma votação fragmentada e acabou surpreendido por um empate técnico que resultou em maioria absoluta.

 

Pois é, os portugueses preferiram “uma maioria requentada”, “uma maioria cansada” à pujança do rioísmo suportado pelo impulsivo e dinâmico Ventura, e o resultado foi uma “legislatura um pouco patológica”, em que “durante seis meses, presidentes e primeiros-ministros trataram da guerra”. Olha que maçada, a guerra a obrigar-nos a tratar do imediato e a adiar os grandes desígnios de médio e longo prazo. Marcelo disparou em todas as direcções: contra um primeiro-ministro que “olha para o lado cheio do copo” (no seu olhar de geometria variável o “optimismo irritante” de Costa é tão pernicioso quanto o “pessimismo” de Passos); contra uma oposição “fraca na liderança”; contra incertos (as grandes cadeias alimentares?), em relação aos quais “se fica com a sensação de que há um aproveitamento” que se reflecte na inflação; contra a Igreja Católica, que “foi uma desilusão” na reacção às denúncias da comissão independente.

 

Confesso que olho com cepticismo para declarações como as de Sérgio Sousa Pinto no Expresso (Marcelo como “aliado político do Governo”) e as de Luís Paixão Martins ao Público (“O Presidente tem uma relação especial com o dr. António Costa, por não conseguir ter uma relação normal com a sua família política.”) A razão é muito simples: o Presidente só é aliado dele próprio. E depois de ter alimentado as expectativas mediáticas sucessivamente com Montenegro, Moedas e Passos, o grande objectivo da sua Presidência, a seguir a manter e se possível elevar os seus níveis de popularidade, é “restabelecer” a relação com o seu partido e conduzi-lo ao poder. Para tal não bastarão escaramuças e demissões no Governo ou um “panorama desgraçado do ponto de vista da execução do PRR”. Talvez uma “desgraçada situação económica e social do país” lhe sirva para invocar estar em causa o regular funcionamento das instituições democráticas, mas tal conjuntura poderia implicar também um golpe na sua taxa de popularidade. Um dilema. Às vezes, neste mundo, acontecem coisas “que são do outro mundo”, o que deve constituir um desafio estimulante para quem tem vocação para futurologista e encenador, aprecia golpes de teatro e estima “repensar a realidade”.

 

A grande missão que Marcelo tomou como sua é exigir, aos outros,  tudo em todo o lado ao mesmo tempo. No seu papel de comentador emérito, e Presidente nas horas vagas, paira etereamente sobre os comezinhos limites da realidade. Ele inspira, os outros que transpirem.

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