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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O NACIONALISTA, O CONTROLADOR DA COMUNICAÇÃO SOCIAL E O CANDIDATO DO AMOR

Outubro 19, 2025

J.J. Faria Santos

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Pedro Passos Coelho vê as pessoas “inseguras, ameaçadas, de certa maneira desorientadas, desconfiadas”, em risco de se sentirem “estrangeiras na sua própria terra”. A culpa é do milhão e meio de imigrantes. Passos Coelho, como economista e como ex-governante, deveria sugerir às pessoas que reflectissem melhor. Considerando o peso dos imigrantes no sector social, tratando de idosos e doentes, restrições desadequadas à sua entrada no território nacional evidenciará outro risco mais realista: o do abandono à sua sorte dos dependentes dos cuidados de terceiros. Por outro lado, considerando os desafios da demografia, um garrote demasiado apertado aos fluxos de imigração compromete a sustentabilidade da Segurança Social e das contas públicas. O estudo "Os Custos de Construir Muros: Imigração e o Fardo Orçamental do Envelhecimento na Europa" conclui que a proibição da entrada de imigrantes em Portugal “obrigaria a um aumento da carga fiscal em 7,9% para garantir a sustentabilidade das contas públicas”.

 

Hugo Soares, indignado com as notícias sobre o caso Spinumviva, foi ao canal público pedir mais “escrutínio” às notícias e mais “sentido crítico” aos portugueses. Pelo meio, sugeriu que as fontes das notícias podem ser “inventadas” e queixou-se de “uma notícia plantada”. Aparentemente, ao PSD já não basta a hegemonia eleitoral e a preponderância do “aparelho comunicacional da direita” (expressão de Pacheco Pereira). Nem sequer a anunciada criação de uma central de comunicação e o reforço da “equipa para gerir redes sociais”. Seguindo o padrão do amigo primeiro-ministro, também Soares tem uma ideia do que é o jornalismo “puro”. Noutros tempos, uma tomada de posição deste teor daria origem a clamores de “claustrofobia democrática” e a denúncias do apetite pelo controlo dos meios de comunicação social, quiçá até, se me permitem a pequena provocação, à imputação de atentado contra o Estado de direito. Quem não se ficou foi o editor de Sociedade da CNN Portugal, que fechou o seu artigo intitulado “Será Hugo Soares um traficante de influências?” com uma valente canelada: “Não somos nós amigos do procurador-geral para que ele nos confidencie, por absurdo, o que pensa fazer.”

 

António José Seguro é o candidato do amor. Isto já vai para além da moderação, do diálogo como método, da construção de consensos, da resolução pacífica dos problemas, do humanismo. “O nosso país precisa de amor”, enfatiza, como se sintetizasse um programa político. Dado que para espalhar a boa nova, precisa de ser eleito, o candidato jantou com “dezenas de influentes personalidades da direita” e saiu do repasto com o apoio dos “passistas”. Que isto possa reforçar o seu estatuto de candidato independente, é admissível. Já que se possa compaginar com o seu perfil de moderação, é que é mais difícil de crer. De qualquer forma, como isto está tudo ligado, é bem possível que com muito amor as pessoas já não se sintam estrangeiras na sua própria terra.

 

OS INIMIGOS DE ALEXA

Janeiro 19, 2025

J.J. Faria Santos

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Alexandra Leitão, diz o colunista Henrique Monteiro, não é o melhor nome para derrotar Moedas. “Não por falta de qualidades, mas por falta de moderação a expor as ideias”, explica. E sugere que ela reduza no “espírito de ´Pasionária’”. Monteiro foi moderado nas suas considerações. Nem lhe devem ter passado pela cabeça os adjectivos “histérica” ou “esganiçada”. Mas pode ter ponderado expressões como “saliente” ou “radical”. Como para Monteiro o problema reside na forma como Leitão expõe as ideias, fica a dúvida se o problema está no modo articulado como se expressa, na assertividade que emprega, no tom firme mas sereno com que se exprime ou na franqueza (ou impiedade) e no rigor com que analisa as ideias e as acções dos adversários políticos.

 

Ficámos sem perceber se à frontalidade Monteiro prefere as proclamações melífluas carregadas de subentendidos (da “escola Marcelo”, por exemplo). Ou se aprecia a moderação ora titubeante, ora sucedâneo de locutora de continuidade a ler o teleponto da ministra da Administração Interna. Ou se admira o estilo de frases pré-formatadas envoltas em vacuidades da ministra da Saúde. E, já agora, seria interessante saber se aprecia o “perfil conflituoso” e a “fúria exoneradora” (para citar duas expressões do colega de jornal Daniel Oliveira) da ministra da Cultura, também dada a tiradas bombásticas contra o compadrio e as cunhas.

 

E será moderado Carlos Moedas com a sua dificuldade em lidar com interpelações incisivas (amua, abandona a Assembleia Municipal), e com a pouco subtil colagem ao discurso securitário? E será moderado Hugo Soares com as suas vociferantes intervenções no Parlamento (não se pode dizer que expõe ideias – nem ele se preocupa com estas minudências -, expele propaganda)? E será moderado um primeiro-ministro que declara que “os extremos saíram à rua”, comparando, por exemplo, como notou Amílcar Correia no Público, o SOS Racismo e o Habeas Corpus? E que criticou a comunicação social “ofegante” que interpela os políticos seguindo o guião de uma voz sinistra nos auriculares?

 

Imagem: Instagram

NOTAS SOBRE 30 DIAS DE GOVERNAÇÃO

Maio 05, 2024

J.J. Faria Santos

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Quando um primeiro-ministro, ufano entre correligionários, proclama que está “mesmo a gostar muito de governar”, que concluir senão que está embriagado pela sua própria performance? Que esta assente na gestão maximalista do silêncio, e coexista com a ambiguidade do discurso, com a vacuidade dos propósitos e com a escassez dos feitos, talvez possa ser explicado pelo curto período de exercício do cargo. Mas esta atenuante, tal como a circunstância da juventude do cabeça-de-lista às eleições europeias, é algo que tenderá a desaparecer com o tempo. E muito rapidamente.

 

Que Miranda Sarmento tenha sempre exibido uma confrangedora inépcia política, não é novidade. Já que se disponha a explorar a diferença entre contabilidade pública e contabilidade nacional para efeitos de disputa política, pondo em causa a sua própria credibilidade técnica e a reputação do país, é inaudito. O ministro fala agora de défice das contas públicas, de reservas comprometidas e de despesa não orçamentada. Não fosse a credibilidade do anterior ministro da pasta, a certificação do INE e o acompanhamento e escrutínio das contas do país por parte de organismos nacionais e internacionais, e esta bravata ridícula (de quem nem sequer meditou que é contraditória com o acréscimo que promoveu na baixa do IRS) teria consequências na forma como os mercados e as agências de notificação financeira nos avaliam. Como o Conselho de Finanças Públicas nota: “Enquanto o sistema de contabilidade pública tem estado mais vocacionado para os aspetos ligados à gestão e ao controlo de tesouraria, a contabilidade nacional é um sistema orientado para a análise e avaliação macroeconómica”. Que não se avalie, portanto, as contas do país numa óptica de tesouraria, de forma parcelar e sem ter em conta que não existe uma evolução linear ao longo do ano, é uma questão de rigor e bom senso.

 

Talvez seja sintomático que o ministro das Finanças tenha sido desautorizado pelo ministro da Educação (um dos poucos que tem conciliado a discrição com diligências para tomar medidas com efeito mais ou menos imediato), designadamente na questão da recuperação do tempo de serviço dos professores. De resto, desde a acção da ministra da Saúde, que parece não saber que organismos do seu ministério elaboram um dado plano, e foi mais pressurosa a afastar uma figura com créditos firmados, até a uma ministra do Trabalho que decidiu exonerar, com efeitos imediatos, Ana Jorge da SCML por “actuações gravemente negligentes” para depois fazer um despacho para a obrigar a ficar em gestão até à nomeação do substituto, passando por um ministro da Defesa enredado na fonética de um tratado e numa proposta que afinal era uma hipótese académica, o panorama não é brilhante.

 

O erro original parece estar na estratégia do primeiro-ministro de maximizar a sua condição de vencedor das eleições e governar como se os deputados da oposição estivessem obrigados a permitir que ele aplicasse o programa do Governo. Na íntegra e sem desvirtuamentos. A táctica do afrontamento e do desdém pela negociação estão bem patentes no estilo do líder parlamentar Hugo Soares. Que, aliás, apresenta um discurso que pode galvanizar as hostes e funcionar num contexto de guerrilha, mas é de uma indigência atroz. 30 dias é muito pouco. Fica a primeira impressão, que é pouco impressiva.

 

Imagem: portugal.gov.pt

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