O MINISTRO DA EDUCAÇÃO E OS CUSTOS DE (DES)CONTEXTUALIZAÇÃO
Dezembro 21, 2025
J.J. Faria Santos

Esta semana ficámos a saber que se de repente um ministro da Educação afirmar que se “metemos pessoas que são basicamente todas de rendimentos mais baixos a beneficiar de um serviço público, nós sabemos que o serviço publico se deteriora”, isso não é um lapsus linguae na vizinhança do preconceito ou do estigma, ou uma formulação infeliz, tratando-se, evidentemente, da explanação de um princípio fundamental da obra de um sociólogo que deu aulas na London School of Economics. Três breves notas sobre a polémica da semana.
Sendo ministro de um executivo que não esconde o seu desprezo pela “bolha mediática” e que ostensivamente prefere prescindir da intermediação jornalística quando comunica com o “povo que está com este Governo”, e supondo que o destinatário do seu discurso acerca do novo modelo de acção social no ensino superior seria esse mesmo “povo”, é no mínimo insólito que Fernando Alexandre parta do princípio de que a generalidade dos portugueses é versada nas teorias e conceitos de Richard Titmuss. Acresce que o Governo de que faz parte, a começar de forma exuberante pelo primeiro-ministro, é conhecido pela avareza das explicações e pela ambiguidade das proclamações, o que aconselha clareza e profissionalismo nos discursos públicos (ou será que a central de comunicação/propaganda está vocacionada apenas para a produção de “informação chave na mão”?)
O senhor ministro queixa-se de que as suas declarações foram descontextualizadas. Admitamos que sim. E que o académico se esqueceu de que também é um político a dirigir-se às massas. Sucede, porém, que Fernando Alexandre, por sua vez, também já tirou proveito da descontextualização, como quando acusou o reitor da Universidade do Porto de “mentir sem qualquer pudor”, afirmando que este dissera ao Expresso ter sido pressionado pelo ministro da Educação, facto imediatamente desmentido pelo reitor e que não encontra suporte na notícia do jornal. Se uma descontextualização não desculpa a outra, a incoerência retira alguma legitimidade. E não ajudou a soberba e a prepotência com que se propôs aceitar a demissão do reitor, algo totalmente alheio às suas atribuições e poderes.
O ministro da Educação não é um simples técnico prestigiado a debutar na dura arte de governar a nação. Tem experiência política e vocação para tiradas ambiciosas que acabam em manchetes de jornais. Como no caso da fantasiosa redução de 90% dos alunos sem aulas a pelo menos uma disciplina, que acabou num honroso “pedido de desculpas” ao jornal Expresso e na admissão de ter fornecido “dados errados” e “não credíveis”. E como sucedeu quando se aventurou no esoterismo e decretou com sapiência que “alguém que anda em manifestações perde a aura”. Talvez um pouco de bom senso e alguma prudência sejam recomendáveis na transposição de conceitos académicos para o discurso político. Doutro modo, qualquer dia, ainda alguém se lembra de dizer que políticas para os pobres são políticas pobres.