POSTO DE ESCUTA
Dezembro 07, 2025
J.J. Faria Santos

A Justiça é um posto de escuta. Métodos investigativos estilo Sherlock Holmes estão claramente obsoletos. Que maneira mais eficaz haverá de a partir de indícios provar a ilegalidade, para além de qualquer dúvida razoável, do que escutar de viva voz os suspeitos? Claro que, por manifesta “falta de meios”, as intercepções, da ordem de grandeza das centenas de milhar, são uma tarefa hercúlea. As escutas non-stop, por exemplo, que chegam a durar o equivalente a uma legislatura, permitem uma análise preciosa do perfil do putativo meliante. Evidentemente, salvo qualquer lapso ou erro de julgamento, estes procedimentos respeitam escrupulosamente o princípio da legalidade. Como não poderia deixar de ser. Os magistrados são patriotas de alto calibre moral, insusceptíveis de se deixarem contaminar por pragas como o populismo antipolítico ou a visão apocalíptica de uma nação atolada na corrupção. E sabem que a avareza no uso da palavra é um sinal de distinção e sapiência intrínseca.
Há umas ovelhas ronhosas na classe. Como aquele juiz-conselheiro que escreveu que as escutas são “apenas um meio de prova de factos integrantes de ilícitos criminais e não um meio de escrutínio da actividade governativa”. E que “não podem servir para escancarar a acção governativa”. Porque não? E a transparência? E a dessacralização do poder? Ninguém está acima da lei, e quem não deve, não teme. E também se indignam com a divulgação na comunicação social das intercepções, muitas delas inócuas e banais. Vistas bem as coisas, se a população aprecia reality shows, por maioria de razão vibrará com este Big Brother Governo, mesmo transmitido em diferido.
Em Novembro de 2023, o irregular funcionamento das instituições judiciais conduziu à demissão do então primeiro-ministro. Um parágrafo amplificando uma suspeita assente em hearsay (nas aspas das escutas) colocou um ponto final num governo de maioria absoluta e um ponto de interrogação na honorabilidade de António Costa. Passados dois anos, e alterada a titularidade do cargo de PGR, a Justiça persiste, em relação à Operação Influencer, no seu modus operandi de eleição: inquérito interminável e vazamento de informação para a comunicação social, com o consequente perpetuar da suspeita e o acirrar do julgamento popular. Já sabemos: é o tempo e o modo da Justiça, que arrisca atribuir um significado extra ao conceito de irresponsabilidade constante do Estatuto dos Magistrados Judiciais.

