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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

MARCELO QUIS, O CHEGA SONHA E O PSD RENASCE?

Março 17, 2024

J.J. Faria Santos

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Marcelo era um homem preocupado, por causa da “maioria requentada”, da execução insuficiente do PRR e da ausência do mirífico reformismo. Está-se mesmo a ver que, agora, com o seu partido no poder (finalmente), com uma vitória “poucochinha” dependente do populista de extrema-direita, com um governo previsivelmente com vocação eleitoralista, orientado para a manutenção do escasso poder, amarrado à promessa de satisfazer todas as corporações, agora sim, é que vamos ter um executivo com ímpeto reformista.

 

Marcelo, o dissolvente politicamente dissoluto, sabia ao que ia. Especialista em ciclos e mini-ciclos, não hesitou em trocar uma estabilidade robusta pela possibilidade de explorar o descontentamento de camadas do eleitorado para catapultar os seus correligionários para o poder, encarando a ascensão dos extremistas como um dano colateral aceitável.

 

Ainda o cadáver do governo cessante não arrefeceu e já os herdeiros putativos se apressam a reclamar os despojos (como disse de forma inesperadamente eloquente o Correio da Manhã: “Cofres cheios à espera de Montenegro”). O cabeça-de-casal ainda não coligiu a declaração de bens nem procedeu à habilitação de herdeiros, mas o responsável pela certidão de óbito, com um notório apego à vida, já se prepara para dar à luz uma nova solução. Como escreveu o semanário oficioso da Presidência da República, o objectivo é “descomprimir o ambiente”.

 

Com um retumbante direita volver, os eleitores escolheram a mudança pouco segura e atingiram o porta-aviões do bipartidarismo, premiando a retórica vazia do populismo. Há quem, na senda da magistratura dos afectos do PR, prometa acarinhar os eleitores do partido da extrema-direita. Respeitar eleitores e eleitos é uma coisa; saudar escolhas assentes no protesto, sem propósito construtivo, e premiar protagonistas da incivilidade e de propostas desprovidas de seriedade e atentatórias da vida em democracia é outra.

 

Em democracia o direito a escolher é sagrado. Tal como deve ser a responsabilidade que é inerente. Se o resultado é o produto das circunstâncias e da oferta disponível, compete aos actores mais votados construir uma solução que respeite a vontade popular. E aos eleitores cabe aceitar, e depois avaliar, o resultado da vontade colectiva expressa nas urnas.

 

Repetidas vezes foi afirmado que os portugueses se teriam arrependido da maioria absoluta concedida aos socialistas em 2022. Não consta, até ao momento (é demasiado cedo, porventura), que haja um sentimento idêntico em relação aos 18% do Chega. Mas Portugal ainda não está transformado na loja do mestre André. A tal onde se pode comprar um pifarito, um reco-reco ou uma sanfona. Sanfona, aliás, tanto pode ser um instrumento musical de cordas como uma pessoa desprezível. Marcelo, de quem se sugeriu ter querido ser o popular que esterilizasse o populismo, escancarou as portas à extrema-direita em nome do regresso ao poder do seu partido. Deve ser a isto que se chama de sentido de Estado.

A SENSAÇÃO E A SENSATA ACÇÃO

Março 03, 2024

J.J. Faria Santos

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Um ex-líder com aura sebastiânica (Passos Coelho) a fazer uma ligação sem fundamento entre imigração e (falta de) segurança; um candidato a deputado pela AD (Paulo Núncio) a sugerir um novo referendo para reverter a despenalização do aborto e a apoiar medidas para limitar o recurso à IVG; um dos celebrados independentes, cabeça-de-lista da AD por Santarém (Eduardo Oliveira e Sousa), com uma linguagem que o aproxima do negacionismo climático, a falar de insegurança nos campos e na possibilidade de os agricultores formarem “milícias armadas”. Eis 3 exemplos de descolagem do discurso de moderação que a AD diz protagonizar. Mesmo que tenha sido uma sucessão inepta de egos reluzentes a saírem do tom, não é de afastar a possibilidade de terem almejado captar votos numa franja extremista. Como escreveu Giuliani da Empoli, “para se conquistar uma maioria, já não é preciso convergir para o centro, mas adicionar os extremos” (in Os Engenheiros do Caos). Terão estes três oradores, na convicção de terem segurado o centro, querido adicionar os extremos, numa altura em que, citando de novo da Empoli, “já não são as nossas opiniões sobre os factos que nos dividem, são os próprios factos”?

 

Na política dos nossos dias, mais do que os factos e os dados empíricos, o que conta são as sensações e as percepções. Assim ocorre também no domínio da análise política e da leitura das sondagens. Se a maior parte dos estudos de opinião acerca das legislativas colocam a AD na liderança, também é certo que se encaixam na definição de empate técnico. O empate técnico, que foi um sucesso na última temporada eleitoral, é agora como um parente indesejado numa família tradicional. Se parece evidente uma certa dinâmica de vitória à direita, resta saber que parte dessa percepção/sensação  assenta na robustez técnica das sondagens e nos méritos da campanha da AD e que parte se deve a um evidente enviesamento da comunicação social, designadamente das televisões privadas ( a este propósito, Ana Drago escreveu um notável artigo no Diário de Notícias).    

 

Limitações da amostra (sub-representação dos mais velhos ou das mulheres, sobrerrepresentação de licenciados) e/ou do método de inquirição podem afectar a qualidade dos dados recolhidos pelas sondagens. A publicada pelo Expresso na passada sexta-feira, que utilizou o método de simulação do voto em urna, coloca o PS a apenas um ponto percentual da coligação de direita, apresenta um número muito elevado de indecisos (18%) e 22% dos inquiridos que já escolheram em quem votar predispostos a alterar essa decisão.

 

No dia 10 de Março, à noite, a percepção e a sensação vão ser substituídas pela sensata acção. A soma das vontades de cada cidadão vai ditar a correlação de forças no Parlamento que ditará o futuro governo de Portugal. Se o eleitor valorizar a conjuntura económico-financeira, a criação de emprego, a valorização dos salários e do poder de compra e a robustez do Estado social votará à esquerda. Se, por outro lado, decidir apostar na descida de impostos, num crescimento económico aditivado pela fé, na liberdade de escolha que pode redundar em iniquidade, na diabolização do Estado e na pura vontade de mudar votará à direita. Ambas as escolhas são legítimas. Convém é perceber que numa Europa em que o espectro da guerra ameaça impor um acréscimo no peso das despesas militares nos orçamentos nacionais, com possível impacto nos gastos sociais, seria trágico que a descida da carga fiscal fosse feita à custa do Estado social e de uma liberdade condicionada.

É A ECONOMIA, ESTÚPIDO! (OU TALVEZ NÃO)

Fevereiro 25, 2024

J.J. Faria Santos

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O que irá determinar o vencedor das eleições legislativas é a ponderação que o eleitorado fará entre as condições económicas objectivas e a atracção subjectiva pela mudança. Não será despicienda a substituição de um António Costa que, embora não despertasse paixões arrebatadoras, era percepcionado como um político sólido, com capacidade de decisão e solidez de propósitos, por um Pedro Nuno Santos com um projecto político definido mas ainda à procura de um estilo em que o dinamismo e a assertividade não corram o risco de passar por precipitação e radicalismo. Nem o perfil baço de um Luís Montenegro pouco inspirador, acossado pelo espectro da extrema-direita que o leva a tingir a moderação com o resvalar para o panfletário.

 

O impacto da conjuntura económica nas escolhas dos eleitores está vastamente documentado. Más condições económicas conduzem quer à penalização dos governos quer ao aumento da afluência às urnas. O agravamento do desemprego é um dos factores importantes. Um estudo das eleições ocorridas em Portugal já neste século parece sugerir que os eleitores no processo de decisão do seu voto ponderam as condições económicas dos 2 anos anteriores a cada eleição.

 

Os dados económico-financeiros parecem ser favoráveis ao partido incumbente. Em 2015 a dívida pública correspondia a 131,2% do PIB ao passo que no final de 2023 era de 98,7% do PIB; em 2015 o défice público era de 4,4%, e para 2023 o Conselho de Finanças Públicas antevê um superávite de 0,9%; em 2015 a taxa de desemprego era de 12,9% e no final do ano transacto cifrava-se nos 6,5%; a taxa de risco de pobreza era de 46,1% (antes das transferências sociais) e de 19% (depois das transferências sociais) em 2015, sendo que no final de 2022 os valores eram de, respectivamente, 41,8% e 17%. Em 2023 o crescimento económico português superou a média da zona euro, a dívida externa baixou para valores (53,5% do PIB) que não se registavam desde 2005, o salário médio aumentou 6,6% e trabalhadores e pensionistas tiveram aumentos reais.

 

Em 1992 o consultor político James Carville, ao gizar a estratégia da campanha de Bill Clinton, definiu três mensagens-chave para alcançar a vitória: explorar os dados económicos, as virtudes da mudança face à situação e a importância dos cuidados de saúde. Em Portugal, numa data muito próxima dos idos de Março, se a conjuntura económica poderá favorecer o PS, a disrupção nos cuidados de saúde tenderá a favorecer o PSD, pelo mero efeito de protesto, visto não ser evidente que este tenha soluções particularmente inovadoras ou eficazes. No que diz respeito à mudança, resta saber se a alternativa consubstancia uma oferta mobilizadora e carismática, sobretudo quando a novidade, sob a forma de um novo líder, também se instalou no partido incumbente. Portugal inteiro ou mudança segura? O eleitor decidirá.

 

Imagem: jornal Público

MUDANÇA SEGURA UM BOCADINHO ARRISCADA (CONFESSA ELE)

Fevereiro 18, 2024

J.J. Faria Santos

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Esta meta é “um bocadinho arriscada, mas o país precisa de arriscar”, disse Luís Montenegro acerca dos 3,4% de crescimento do PIB previstos pela AD para 2028. O risco estará sobretudo na crença de que o chamado “choque fiscal” (que implica uma quebra de 1500 milhões de euros na receita de IRC e de 3000 milhões de euros na receita de IRS) terá um efeito indutor no crescimento que tornará compatível o “desaparecimento” de 7240 milhões de euros do orçamento com superávites orçamentais todos os anos e uma dívida pública de 80,2% do PIB em 2028. A própria coligação reconhece que o cenário macroeconómico “é marcado por uma forte incerteza em vários domínios”. De facto. Basta evocar as 11 economias da EU que se contraíram em 2023. Ou a economia alemã estagnada (previsivelmente a crescer 0,2% em 2024) a condicionar decisivamente a retoma europeia (0,9% de crescimento do PIB em 2024). Ou ainda a circunstância da guerra na Europa a criar instabilidade e imprevisibilidade.

 

No que diz respeito ao IRC, a AD propõe a “redução das taxas de IRC, começando com a redução gradual de 2 pontos percentuais por ano até aos 15% no final da Legislatura”. A coligação acha que se deve caminhar “no sentido de eliminar, de forma gradual, a progressividade da derrama estadual, e de eliminar a derrama municipal em sede de IRC”, mas não calendariza. Nem se pronuncia acerca de um desagravamento das tributações autónomas (que incidem, por exemplo, sobre despesas das viaturas, ajudas de custo ou despesas de representação). Muito menos esclarece como irá ser a evolução da taxa de IRC de 17% que hoje é aplicável aos primeiros 50 000 € de matéria colectável das empresas caracterizáveis como PME e Small Mid Cap (emprega menos de 500 pessoas).

 

Apesar de a taxa nominal de IRC ser de 21% (17% nos casos acima mencionados), a que acrescem as tributações autónomas, a derrama municipal (valor máximo 1,5%) e a derrama estadual (para empresas com lucro tributável acima de 1.500.000 € com 3 escalões de taxas – 3%, 5%  e 9%), os dados estatísticos de 2021 revelam que a taxa média efectiva do imposto pago pelas empresas foi de 18,9%, não muito distante dos 15% de taxa nominal de IRC proposta por Montenegro para o final da legislatura (e significativamente abaixo da taxa estatutária de 31,5%, que agrega a taxa nominal de 21%, a derrama de 1,5% e a taxa mais elevada da derrama estadual – 9% aplicável ao lucro tributável que exceda os 35 milhões de euros). Como a AD também se propõe efectuar uma “forte simplificação fiscal, eliminando exceções, regimes especiais e incentivos fiscais dispersos”, fica a dúvida se estará a ser equacionada alguma poupança com benefícios fiscais, que em 2022, só em sede de IRC, representaram uma despesa fiscal de 1 638 milhões de euros. Ponderados todos os factores, e dependendo do mix e da calibragem da política fiscal, não me admiraria se o “choque fiscal”, caso viesse a ser aplicado, se acabasse por revelar pífio. Nas intenções e, muito mais, no efeito prático.

 

PROGNÓSTICOS ANTES DO FIM DO JOGO

Dezembro 17, 2023

J.J. Faria Santos

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Os comentadores políticos adoram fazer prognósticos. Sacam das suas grelhas analíticas, “auscultam” o sentir do povo e desatam a desafiar a falibilidade e a lógica com conselhos e proclamações definitivas. E com 2024 à porta, que melhor altura para concorrer com videntes e astrólogos? Quando, em 8 de Janeiro do corrente ano, Ana Sá Lopes escreveu no Público – “Há uma – e só uma – possibilidade de o PS resistir às próximas eleições. António Costa demitir-se tão cedo quanto possível e ir fazer uma travessia no deserto para em 2024 ser escolhido para presidente do Conselho Europeu” – estava longe de imaginar um cenário em que, no dizer de Rui Rio, “o PM foi demitido pela PGR”. Nesse mesmo artigo, defendeu que Pedro Nuno Santos seria o mais bem colocado na corrida à sucessão, embora tal não garantisse a manutenção do poder socialista à frente do país. 11 meses depois, empolgada com a verve de Montenegro num congresso partidário, Ana Sá Lopes sintetizou o seu pensamento no seguinte título: “Montenegro ‘mata’ Passos, faz o seu melhor discurso e pode ganhar”. (Entretanto, hoje, já escreve no Público que “Montenegro não aproveitou o embalo do Congresso”.)

 

Apesar de tudo, e porventura na linha da tese clássica de que são os governos que desbaratam o poder e não é a oposição que o conquista, até ao momento não se vislumbra uma onda de entusiasmo pelas propostas de Montenegro. E não é certo como é que os eleitores ponderarão na cabina de voto factores como a crise da habitação, os constrangimentos na saúde, os aumentos nos rendimentos (pensões e salário mínimo) e a descida do desemprego, tudo isto no contexto das chamadas “contas certas”. Se para Ricardo Costa, a três meses das eleições, “o mais provável é o PS vencer as eleições”, para Francisco Mendes da Silva “Montenegro é hoje o mais provável futuro primeiro-ministro”.

 

Para um subgrupo de analistas, a alternância é um imperativo por si só. Por exemplo, Bárbara Reis, indignada com o dinheiro vivo de Vítor Escária, titulou uma das suas colunas de Novembro passado com um definitivo “O PS precisa de ir para a oposição”. Justificando esta asserção, explicou que o caso era “tão grave” que era importante apurar se esta “forma de vida faz parte da cultura do PS, (…) se a bioestrutura do partido está infectada”. Neste subgrupo há quem defenda a mudança para pior. Veja-se o exemplo de Henrique Monteiro no Expresso: “E se o outro lado é pior? Pode ser, mas o efeito de mudança pode e deve exercer-se.” E o eleitor comum, estará apostado em mudar para pior em nome da alternância?

 

E que papel desempenhará nas cogitações dos eleitores o legado de António Costa? Num artigo que até nem é lisonjeiro, Manuel Carvalho escreveu no Público que o actual primeiro-ministro “não deixa de ser uma referência de estabilidade, ponderação e contas certas”. E acrescentou que “não há grandes razões para celebrar a queda. Pelo contrário, é muito provável que ainda venhamos a ter saudades de António Costa”.  Talvez não seja caso para tanto. É que ele vai andar por aí.

ERA UMA VEZ UM "ALIADO"

Maio 07, 2023

J.J. Faria Santos

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Era uma vez um “aliado” que disse que “não faz sentido falar periodicamente de dissolução” do Parlamento e que, no entanto, em menos de quatro meses falou dela pelo menos 10 vezes.

 

Era uma vez um “aliado” que, depois de ter dito ao primeiro-ministro que “não será politicamente fácil que essa cara que venceu de forma incontestável e notável as eleições possa ser substituída por outra a meio do caminho”, tem insinuado com frequência que esse caminho pode ser interrompido.

 

Era uma vez um “aliado” que disse à ministra da Coesão Territorial Ana Abrunhosa: “Super infeliz para si será o dia em que eu descubra que a taxa de execução dos fundos europeus não é aquela que eu acho que deve ser. Nesse caso não lhe perdoo. Espero que esse dia não chegue, mas estarei atento para o caso de chegar.”

 

Era uma vez um “aliado” que na tomada de posse deste Governo assegurou que continuaria "vigiando distrações, adiamentos, autocontemplações e deslumbramentos” e que agora promete estar “mais atento e interveniente no dia-a-dia”. Esteve vigilante, mas não suficientemente atento?

 

Era uma vez um “aliado” que, citando Pacheco Pereira (Público -  27.01.2018), foi “comentador conhecido pelo seu cinismo, propensão para a intriga e mesmo ajuste de contas nas antipatias próprias” e se transformou num Presidente que “não se coíbe de usar as armas dos políticos populistas modernos, feitos pela televisão, para cultivar uma ‘proximidade’ cujo sucesso é sempre ser ‘contra’ alguma coisa”.

 

Era uma vez um “aliado” que, a pretexto de se pronunciar sobre determinada lei, anunciou que o Executivo tinha “falta de credibilidade” e inspirava pouca confiança.

 

Era uma vez um “aliado” cujas prioridades, em tempo de guerra na Europa e com uma inflação persistente a ameaçar o poder de compra das famílias,   incluem a análise e teorização sobre sondagens: se o PS cair para 26% ou 27%,  se o PSD subir para 35% ou 36%, então talvez se pudesse gerar uma alternativa com a IL e o CDS .

 

Era uma vez um “aliado” que pouco depois de ter jurado que “temas sensíveis” não são para “tratar na praça pública”, fazia chegar à comunicação social que não se contentaria com menos do que a demissão de um ministro.

 

Era uma vez um “aliado” que em vez de um tratamento em plano de igualdade pretendia subserviência, que em vez de cooperação solicitava vassalagem, que à lealdade e à frontalidade preferia a dissimulação, que à concertação entre poderes privilegiava a concentração de poderes sob a sua tutela.

 

Era uma vez um “aliado” que asseverou que não contassem com ele “para criar conflitos, nem deixar crescer tentativas para enfraquecer a função presidencial” imediatamente a seguir a tentar enfraquecer o mandato do primeiro-ministro, imiscuindo-se na prerrogativa deste de nomear e demitir os membros do seu Governo.

 

Era uma vez um “aliado” que diz ser “o último fusível de segurança política” do sistema constitucional, e que devido a uma sobrecarga de prepotência causada pela alimentação em excesso do ego se arrisca a provocar um incêndio político enquanto sorve um gelado.

 

Imagem: Rui Gaudencio/Público

LE PORTUGAL EN ROSE

Fevereiro 06, 2022

J.J. Faria Santos

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Como Piaf, António Costa não se arrepende de nada e não se importa com o passado, porque a vida começa agora com os portugueses que lhe deram um Portugal en rose. Onde muitos adivinhavam cansaço do eleitorado e entusiasmo com a oferta da oposição, o sufrágio revelou a pujança do nome da rosa e a importância repetidamente afirmada em inquéritos de opinião de um líder que transmite confiança, segurança e competência.

 

Duas evidências que se viriam a confirmar: os portugueses apreciaram a geringonça e tenderiam a castigar eleitoralmente os parceiros que chumbaram o orçamento. Algum descontentamento que Catarina Martins encontrou na campanha ia neste sentido. Os eleitorados do BE e do PCP valorizariam os contributos dos seus partidos para uma política de esquerda, mas veriam com desagrado algum fundamentalismo que tendia para a intransigência e para a rejeição do gradualismo na aplicação das medidas. A perspectiva de uma geringonça de direita agudizou o recurso ao voto útil.

 

O único mérito da campanha de Rui Rio (e não foi pouco) radicou na criação da ilusão da vitória e em ter conseguido reunir as tropas do partido, incluindo um Luís Filipe Menezes que um mês antes, em artigo no semanário Nascer do Sol, aludia à “bem oculta e cinzenta mediocridade enquanto homem de formação cultural mediana”, à “auto-suficiência sem sustentação” e à “tendência para os dictates e decisões prepotentes” do líder do PSD. Tivemos direito a um Zé Albino special guest star na campanha e a uma participação mediocremente ensaiada num programa televisivo, que não fizerem esquecer o erro capital de insinuar uma geringonça de direita com o Chega.

 

O sucesso da Iniciativa Liberal e do seu bordão de teatro de revista (“o liberalismo funciona e faz falta”), acompanhado de um estilo jovial, parece prometer um papel decisivo na reestruturação da direita, ainda para mais com o definhamento do CDS. Veremos se não acabará por tropeçar no excessivo proselitismo e na tenaz colagem a soluções que sob a aparência da liberdade condenam ao cárcere do desamparo e aos alçapões da meritocracia, e que apresentadas com o verniz da modernidade não passam de velhas soluções recondicionadas.

 

Costuma dizer-se que à dúzia é mais barato, mas o imperioso é que nenhum dos onze acólitos que se vão juntar a Ventura represente um preço demasiado alto para a democracia. Como representantes eleitos do povo português terão o seu espaço de intervenção e a liberdade de propor o que muito bem entenderem, mas não devem esperar qualquer tipo de permissividade ou complacência para com ideias que agridam o core business da própria democracia.

 

Já conhecemos as explicações dos especialistas. As sondagens são um “retrato do momento”, não são uma previsão. Há um grupo de eleitores que só decide na última semana ou no próprio dia das eleições. E há a questão técnica da distribuição dos indecisos. E, todavia, elas continuam a ser entendidas e comentadas (profusamente comentadas…) como se fossem estimativas do resultado. E, mais uma vez, falharam miseravelmente. As sondagens e os comentários.

 

A avalanche de comentadores que dissertaram nos diversos meios de comunicação social, mas sobretudo nas televisões, asseguraram a pluralidade de opinião, mas maioritariamente veicularam teses desfavoráveis ou abertamente hostis ao partido e ao líder que viriam a vencer. A possibilidade de vitória do PSD criou um frenesim mediático em que as inclinações pessoais contaminaram a análise e nublaram o brilhantismo analítico. Mas ainda antes, a 23 de Dezembro de 2021, já Clara Ferreira Alves escrevia que o PSD tinha ganho “aquilo que se chama momentum”, concluindo que “no dia 31 de Janeiro, Costa pode ter perdido tudo depois de perder a cabeça”. Faça-se justiça a João Miguel Tavares, que em meados de Janeiro titulava o seu artigo no Público com um definitivo “Porque é que Rui Rio vai perder as eleições”. A explicação era simples: “os portugueses ainda não estão suficientemente fartos de António Costa”. Pecou largamente por defeito. Uma indiferença a roçar o fastio não conduz a uma maioria absoluta.

ESTE DOMINGO HÁ DESEMPATE TÉCNICO

Janeiro 28, 2022

J.J. Faria Santos

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Rui Rio é católico, mas não crente, e decerto se acreditasse na sua ressurreição como candidato a primeiro-ministro seria com base na mais pura racionalidade. A menos que não tendo fé, tenha sempre uma fezada. A transfiguração do político tecnocrático com um perfil autoritário (com posições muito próprias acerca de dois domínios fundamentais do Estado de direito - a Justiça e a comunicação social) em afável cat lover com um humor esforçado e um trabalhado ar genuíno terá contribuído para a inesperado crescimento do PSD. Mesmo que nos derradeiros dias de campanha tenha ressurgido a figura conflituosa.

 

Outros dirão que o excessivo tacticismo de Costa terá contribuído para o encurtar das distâncias. A aposta inicial na maioria absoluta, procurando congregar a confiança do eleitorado central e dos descontentes com a pouca flexibilidade dos parceiros da geringonça, falhou. O plano B mais credível é o plano G de geringonça, o que levou Rio a considerar que os portugueses não irão “compreender” o regresso da solução. O líder do PSD parece ignorar que António Costa se apresenta ao eleitorado com um balanço que inclui, no contexto do combate à pandemia, uma campanha de vacinação bem-sucedida e um conjunto de apoios às pessoas e às empresas que minimizaram o seu impacto na sociedade e na economia. O seu legado é o de um crescimento económico acima da zona euro, de uma baixa taxa de desemprego e de contas públicas controladas.

 

A motivação para o eleitorado castigar o incumbente passa também (ou sobretudo) pelo perfil inovador e disruptivo do challenger. Que ideia inovadora ou galvanizadora propõe Rio? O propósito de “reorganizar o Ministério da Agricultura”? A “Revisão Constitucional Verde”? A prioridade da redução do IRC sobre o IRS?  A menos que seja a garantia de afastar o espectro da geringonça, que poderá atormentar os chamados eleitores moderados. Infelizmente para ele, a sua ascensão ao poder estará sempre dependente do liberalismo “moderninho” (como diria o Chicão) e delirante da Iniciativa Liberal (com escassos pontos de contacto com a realidade portuguesa) e, sobretudo, do beneplácito sob a forma de apoio ou abstenção do extremismo do Chega. O eleitorado dito moderado que se assustaria com a geringonça vai tolerar o populismo boçal, a retórica incendiária e fascizante e a instabilidade do Chega?

 

Apesar do empate técnico que as sondagens prenunciam, continua a ser significativamente superior o conjunto de inquiridos que reconhecem a António Costa qualidades superiores às de Rui Rio, e esmagadora a percentagem dos sondados que consideram que o PS, independentemente da sua preferência, vai vencer o sufrágio. Podemos no domingo à noite assistir a mais um dos épicos e inesperados triunfos de Rio? Podemos, mas o mais provável é os portugueses que oscilam entre os dois partidos de poder fazerem (permitam-me invocar o diabo) uma vénia à expressão de língua inglesa better the devil you know, escolhendo o Costa que conhecem há seis anos em vez de um Rio, colheita de 2022, descafeinado para efeitos eleitorais. A menos que o milhão de confinados ou o factor Zé Albino condicionem decisivamente o resultado das eleições.

 

Imagem: portaldoeleitor.pt

O CANSADO E OS INSUFICIENTEMENTE FARTOS

Janeiro 16, 2022

J.J. Faria Santos

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A tese é a seguinte: “António Costa já não tem vontade de ser primeiro-ministro”, mas “Rui Rio vai perder as eleições”. Porquê? Porque “os portugueses ainda não estão suficientemente fartos de António Costa”. Estes considerandos foram desenvolvidos em dois artigos no Público por João Miguel Tavares. Em suma, António Costa estará cansado de ser primeiro-ministro, mas os portugueses ainda não estão suficientemente cansados de António Costa.

 

O tema do cansaço tem sido glosado com persistência e intencionalidade por analistas de direita. Eu, quando ouço os comentários de personalidades como, por exemplo, Maria João Avillez, vem-me imediatamente à memória uma frase do insuspeito José Miguel Júdice, em entrevista há poucos dias ao Diário de Notícias, em que ele afirma: “As pessoas desejam uma coisa e, portanto, acham que o comentário político deve ser para ajudar a que essa coisa aconteça”. Ninguém parece ponderar que um perfil de Costa mais sério e mais sereno, menos exuberante e menos enérgico, possa corresponder a uma estratégia política que privilegie a gravitas da pose institucional ao dinamismo quantas vezes balofo que pretende passar por predisposição reformista.

 

Apetece dizer que aos que lhe apontam a fadiga, Costa poderia responder com uns versos de José Régio: “Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces, / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: “Vem por aqui”! / Eu olho-os com os olhos lassos, / (Há nos meus olhos, ironias e cansaços) / E cruzo os braços, / E nunca vou por ali…”

 

Como é difícil defender que Portugal está hoje pior do que há seis anos, o argumento principal de J.M. Tavares é o de que trilhamos “um rumo de empobrecimento relativo e de fatal decadência”. Mas “a catástrofe não é imediata” e “há mínimos de gestão que vão sendo cumpridos”. E “Bruxelas tem apreciado, aprovado e sustentado”, ou seja, não só Bruxelas não está suficientemente farta de Costa como até parece apreciar as suas qualidades.

O CENÁRIO TOTOBOLA: 1 X 2

Outubro 31, 2021

J.J. Faria Santos

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Politólogos e economistas partilham o facto de analisarem com talento e brio profissional o passado com a inadequação para prever o futuro. Na ausência de uma bola de cristal, melhorada com algoritmos e teorias de base empírica, restava-nos o deus ex machina Marcelo, não só para antecipar desenvolvimentos que as próximas semanas e meses trarão, mas sobretudo para condicionar o presente em nome da sua visão do interesse nacional, visão essa, preferivelmente, alheia aos jogos partidários. Ora, sucede que o PR fracassou com estrondo no seu território de expertise, afundando-se em manobras condenadas ao insucesso (com o temperamental poder madeirense) e dando uma machadada na sua neutralidade perante os interesse político-partidários e até intrapartidários (o timing da audiência a Rangel é tão inepto que só pode ter sido propositado). E a célebre proclamação “Eu sou como sou”, com ressonâncias de inimputabilidade, é a cereja no topo do bolo de uma semana que acelerou o tempo e marcou o início, agora sim, de um novo ciclo.

 

Para sermos justos, temos de convir que não foi o PR que espoletou a crise política. Embora fosse de esperar que tão arguto analista político percebesse que também o BE, mas sobretudo o PCP, “são o que são”, e que a sua proclamação definitiva de que o chumbo do Orçamento do Estado redundaria em eleições antecipadas continha em si uma forte probabilidade de ricochete. Em perda eleitoral, convencidos de que a geringonça não lhes trouxe grandes dividendos, Bloco de Esquerda e PCP regressaram ao conforto do estatuto de partidos de protesto. À direita, nem sequer o vago perfume do poder serve para unir um PSD em convulsão interna (com os passistas a quererem cavalgar o efeito Moedas e Rangel a fazer campanha como se já fosse líder do partido) e um CDS em guerra civil, com o Chicão a diminuir-se com expedientes que pretendem iludir uma cisão grave, enquanto que, acossado à direita, planeia abrigar-se na enseada do PSD dos tiros das fragatas da Iniciativa Liberal e do Chega, dupla candidata a crescimento em votos e deputados.

 

Politólogos e analistas políticos entregam-se, agora, ao “cenário totobola”. 1 – o PS, apesar do desgaste, capitaliza o voto útil e  parte do voto flutuante ao centro e vence com margem significativa. X – fica tudo sensivelmente na mesma, a ingovernabilidade adensa-se e Marcelo tem de gerir o impasse por ele directamente provocado. 2 – o eleitorado, confrontado com os desentendimentos à esquerda e/ou com os méritos da alternância, concentra votos à direita. Questão fulcral: os cenários 1 e 2 proporcionam uma solução estável de governo? O PAN pode ser decisivo à esquerda e o Chega tornar-se indispensável à direita?

 

Como sempre, em democracia o povo é quem mais ordena. Marcelo diz-se pronto para crises sucessivas e vai insinuando a sua simpatia por uma solução que não ousa dizer o seu nome (diz que é uma espécie de bloco central, informal e implícito). Teresa de Sousa escreve hoje no Público que “o primeiro-ministro joga tudo nestas eleições”. E interroga-se: “Continuará a ocupar o centro do palco? Marcelo gostaria de lhe ficar com o lugar.” Depois de uma solução à esquerda, que apesar da retórica da direita nunca foi extremista nem extremada, caminhamos para um centro radical?

 

IMAGEM: Nuno Fox (expresso.pt)

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