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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A REALIDADE ALTERNATIVA DAS INTENÇÕES BENIGNAS

Janeiro 11, 2026

J.J. Faria Santos

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Segundo a narração do próprio Donald Trump, este terá dito a Maduro: “Tens de desistir. Tens de te render”. Na falta de anuência, os militares americanos “entraram à força e invadiram locais que, teoricamente, não podiam ser invadidos”, descreveu o Presidente americano, esclarecendo que os EUA iriam assumir o “controlo da Venezuela”. “Vamos permitir que as nossas gigantescas companhias petrolíferas americanas, as maiores do mundo, entrem, gastem milhares de milhões de dólares, reparem as infraestruturas petrolíferas em mau estado e comecem a gerar lucro para o país”, explicando que “a indústria petrolífera venezuelana”, construída pelos americanos, “durante administrações anteriores” tinha sido “roubada à força”. No entretanto, a administração americana deixou cair a acusação de que Nicolás Maduro liderava o Cartel de los Soles (cuja existência formal parece ter sido descartada). O Departamento de Justiça fala agora de conspiração para tráfico de drogas, e alude a um “sistema de clientelismo” e a uma “cultura de corrupção”. Todo este modus operandi, conjugado com a nova Estratégia Nacional de Segurança dos EUA, levou comentadores de política internacional e especialistas em direito internacional a usarem expressões como “acto de agressão e ingerência ilegítima”, “regresso da diplomacia de canhoneira” e “imperialismo predatório”.

 

Confrontado com estes factos, o primeiro-ministro de Portugal, com a sua irreprimível tendência para vogar numa realidade alternativa, achou por bem tomar nota do “papel dos EUA na promoção de uma transição estável [rapto do chefe do Estado], pacífica [terão morrido pelos menos 100 pessoas, segundo o governo venezuelano], democrática e inclusiva [os americanos preparam um entendimento com Delcy Rodríguez, uma das cabecilhas do que Paulo Rangel apelida de “elite do narcoestado”] na Venezuela com a maior brevidade possível”. Já o insigne jurista que ocupa o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, lá admitiu que Portugal “acha que se deve respeitar a legalidade e a Carta das Nações Unidas”, e que “muitos consideram esta intervenção feita nestes termos, independentemente das intenções, que são benignas, não estão conformes ao direito internacional”. Ainda assim, prosseguiu Paulo Rangel numa curiosa fuga à declaração na primeira pessoa, considerando a “ilegitimidade de Nicolás Maduro (…), há quem entenda que possa haver algum grau de legitimação”.

 

Luís Montenegro e Paulo Rangel, cujas opiniões sobre esta matéria foram vistas como titubeantes ou mesmo miseráveis, fariam bem em atentar no artigo de Teresa Violante no Expresso, onde se pode ler que “o direito internacional não protege Maduro porque o seu regime é legítimo. Protege-o porque a alternativa – um mundo em que qualquer potência pode decidir unilateralmente quem é criminoso, entrar em território soberano e raptar um chefe de Estado para o julgar nos seus tribunais – é pior”. Houve quem justificasse a tibieza da posição portuguesa com a cautela em não hostilizar um aliado. Mas será ainda um aliado? E que parceria se pode construir com um aliado com o qual não pode haver um debate franco e se opta por assumir exclusivamente uma atitude de subalternidade? E se não se pode usar o softpower de uma declaração de princípios, que poder nos resta? Como escreveu Augusto Santos Silva no Público: “A força não é fonte do direito, e não é o número de mísseis que cada um detém que determina a sua quantidade de razão. Dizer não tem sentido e tem impacto.” Mas nada é mais demonstrativo de uma visão de realidade alternativa (ou pior, de um cinismo atroz) do que o contraste entre a assumpção por parte de Trump da primazia absoluta do interesse americano (sem alegações de nation building ou de um ideal de expansão da democracia – palavra que nunca pronunciou) e a “transição democrática e inclusiva” que só o primeiro-ministro de Portugal terá visto.

CITIZEN CR7

Novembro 23, 2025

J.J. Faria Santos

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A figura pública Cristiano Ronaldo não me desperta arroubos de entusiasmo ou rancores avassaladores. Percebo o poder de uma narrativa rags-to-riches e o apelo de uma odisseia pessoal de superação, ainda para mais quando assente numa vontade inquebrantável, na perseverança e num profissionalismo impenitente. Compreendo a dimensão das suas conquistas, os troféus individuais e colectivos que amealhou e os recordes que bateu. Aprecio que tenha o perfil de quem apoia a família e os amigos, e que tenha feito doações a instituições como a Cruz Vermelha e a UNICEF e financiado unidades hospitalares, para além de outros gestos de filantropia. A Bota de Ouro que recebeu referente à época 2010/2011 foi leiloada por 1,3 milhões de euros, verba cujo destino foi o de apoiar a construção de várias escolas em Gaza.

 

Tudo o resto me deixa indiferente ou, quando muito, com uma impressão negativa contaminada por uma certa tolerância, porque afinal a inconsciência, a soberba e a vaidade são características da natureza humana a que nem os aspirantes a deuses escapam. O mesmo pode ser dito do narcisismo, da hipersensibilidade à crítica e da aparente preponderância atribuída ao êxito individual sobre o colectivo, por exemplo. Já para não falar do resto, que não ignoro, mas cujo conhecimento não aprofundo por absoluta falta de interesse. Falo dos carros que possui, do jacto privado, do seu património imobiliário, do facto de ser o primeiro futebolista com uma fortuna superior a mil milhões de dólares. Ou das peripécias que envolvem a corte que o rodeia: da Georgina vedeta da Netflix à estimável carreira publicitária da também seguramente estimável D. Dolores, passando pelos pronunciamentos das irmãs nas redes sociais. 

 

Em circunstâncias ideais, um ícone global e um ídolo juvenil deveria ter noção das responsabilidades acrescidas de ser visto como um modelo a seguir. E fazer-se rodear de conselheiros que, para além de gerirem a sua fortuna ou a agenda mediática, lhe incutissem alguns laivos de consciência política, que o afastasse daquilo que parece ser uma tendência que o aproxima de Trump – uma visão transaccional das relações interpessoais.  Cristiano Ronaldo mostrou-se empolgado por um Donald Trump que para uns já estabeleceu um “regime fascista” (Jason Stanley) e para outros criou um “regime autoritário competitivo” (Steven Levitsky). E prometeu fazer a sua parte, “inspirando as novas gerações a construir um futuro marcado pela coragem, pela responsabilidade e pela paz duradoura”. Pior, claro, foi a sua colaboração com o branqueamento de uma ditadura teocrática. Esperemos que esta “parceria” não seja inspiradora para as novas gerações.

 

Mas o que são estas considerações perante o privilégio de conviver com la crème de la crème, com o homem mais poderoso do mundo ou com um génio como Elon Musk, imortalizado com uma all-star selfie? Ou de degustar num ambiente sumptuoso uma sopa de abóbora com mel ou um carré de borrego com crosta de pistacho?

 

Convenientemente maquilhados, vestidos para brilhar, superestrelas do nosso star system, Gio e CR7 mergulharam alegremente numa bolha de superficialidade e falta de senso. Siiiiiiiiiiiiiiiim!

 

Foto: Daniel Torok

AUTOCRACIA AMERICANA

Setembro 21, 2025

J.J. Faria Santos

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Seria irónico, se não fosse alarmante a dissonância entre o propósito alardeado e a prática anterior e posterior, que Donald Trump tivesse assinado no primeiro dia do seu segundo mandato um decreto intitulado “Restaurar a liberdade de expressão e terminar com a censura federal”. Nele recordou que a Primeira Emenda da Constituição garantia aos americanos o direito de  “falar livremente na praça pública sem a interferência do Governo”, ao mesmo tempo que defendia que nos “nos últimos quatro anos, a anterior administração atropelou o direito à liberdade de expressão ao censurar o discurso dos americanos nas plataformas online”. Argumentando que a censura é “intolerável numa sociedade livre”, propôs-se assegurar que “nenhum funcionário, empregado ou agente federal se envolvia ou facilitava qualquer conduta que cerceasse de forma inconstitucional a liberdade de expressão de qualquer cidadão americano”.

 

O que se esboçara no primeiro mandato acentuou-se para lá da caricatura, ameaçando as fundações da democracia americana e o etos inerente ao sonho americano de liberdade e prosperidade, com repercussões na ordem mundial e no direito internacional. O que levou o V-Dem, no seu Relatório da Democracia 2025, a aludir ao “episódio de autocratização mais rápido que os EUA viveram na história moderna”. “A expansão do poder executivo, o enfraquecimento do poder fiscal do Congresso, as ofensivas contra as instituições independentes e contra os meios de comunicação social, bem como a eliminação e o desmantelamento das instituições do Estado – estratégias clássicas dos autocratizadores – parecem estar em acção”, prossegue o V-Dem numa caixa justamente intitulada “EUA – Formação de um colapso democrático?”, em que o ponto de interrogação exprime mais incredulidade que surpresa e, porventura, um módico de esperança nos pesos e contrapesos dos poderes do Estado.

 

O cancelamento do programa de Jimmy Kimmel é apenas mais um episódio de ataque à liberdade dos meios de comunicação social, onde pontuam pontas de lança como o presidente da Comissão Federal de Comunicações ou os próprios Donald Trump e J. D. Vance. Aparentemente vale tudo: ataques personalizados a apresentadores, jornalistas e colunistas, ameaças de cancelamento de licenças, o condicionamento mais ou menos subtil de negócios pendentes, apelos a despedimentos e à denúncia pública de comportamentos. Como escreveu David Remnick, editor da New Yorker, a Primeira Emenda vai ser submetida a um teste sem precedentes. E acrescentou: “O Presidente está a tentar carregar na tecla Mute para a sátira, para o jornalismo incisivo, para a crítica. A questão é: Quem é que vai baixar a cabeça (bow down) e quem, em nome da liberdade de expressão e da Constituição, vai dizer o que pensa (speak up)?”

POR QUE RAZÃO TRUMP NÃO É TRATADO COMO UM DITADOR?

Setembro 07, 2025

J.J. Faria Santos

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Donald Trump já declarou que a Venezuela “está a ser governada por um ditador”. Se Nicolás Maduro decidisse ripostar no mesmo tom, e usar uma retórica infantil ao estilo do presidente americano, poderia dizer: Quem diz é quem é! Alinhemos no jogo “descubra as diferenças”.

 

Maduro é acusado de não aceitar os resultados eleitorais e de ter cometido fraude. Trump mantém que venceu as eleições de 2020, inspirou e patrocinou o assalto ao Capitólio e à democracia americana, e pressionou o secretário de Estado da Geórgia para lhe arranjar 11 780 votos.

 

Maduro é acusado de perseguir os opositores, usando a violência e a tortura. Trump, em 2023, admitiu utilizar o FBI e o Departamento de Justiça (e até as Forças Armadas) para atacar os seus rivais políticos. Em Março deste ano, defendeu que os seus adversários deveriam ser presos.

 

Maduro é acusado de controlar o aparelho judiciário. Trump nomeou para o Supremo juízes marcadamente conservadores, mandou investigar o ex-procurador que supervisionou duas investigações criminais contra ele, despediu funcionários que trabalharam com o então procurador e diz que “um punhado de juízes de esquerda radical comunista” fazem obstrução à aplicação das leis.

 

Maduro é acusado de controlar e condicionar o acesso da oposição à comunicação social. Trump comanda uma estrutura descomunal de propaganda, desinformação e notícias falsas. Ameaçou retirar as licenças de radiodifusão a estações de televisão, alegadamente por fazerem uma cobertura “tendenciosa” da sua presidência, e processou meios de comunicação social. Pediu o despedimento de colunistas, barrou o acesso de agências de notícias à Casa Branca e ameaçou acabar com o sigilo das fontes jornalísticas.

 

Maduro deve a sua continuidade no poder ao apoio das Forças Armadas, nomeadamente o Exército, que se terá transformado numa extensão do governo, beneficiando do acesso a cargos estatais e de oportunidades na economia venezuelana. Trump, com falsos pretextos, aposta na militarização das ruas, colocando a Guarda Nacional a “restabelecer a lei, a ordem e a segurança pública”. Como Maduro, Trump promove e premeia os que lhe são leais, nomeando pessoas sem qualificações para determinados cargos, e persegue os que o contrariam ou, pura e simplesmente, cumprem com rigor a sua função, como foi o caso de Erika McEntarfer, directora do gabinete de estatística.

 

Maduro, para contrariar o isolamento e as sanções, intensificou as suas relações com regimes párias ou liderados por “homens fortes”, como o Irão, a China e a Rússia. Já Trump, por feitio, elogiou um Xi Jinping “forte como granito”, o “génio” Putin e até um Hitler que “fez algumas coisas boas”.

 

Por que razão Trump não é tratado como um ditador? A pergunta é retórica e a resposta é óbvia – porque é o presidente da principal potência económica e política do mundo. Além do mais, ele próprio declarou: “Eu não gosto de ditadores. Não sou um ditador. Sou um homem muito sensato e inteligente.” Mais claro não podia ser. Só um militante da “esquerda radical comunista” é que poderá pôr em causa a bondade destas afirmações. Ou aquele historiador argentino, Federico Finchelstein, que coloca Donald  na lista dos “aspirantes a fascistas”.

MARCELO LIVE NA MADRASSA DO PSD

Agosto 31, 2025

J.J. Faria Santos

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A ideia de que o Presidente da República cometeu uma gafe é absurda. Estamos a falar de alguém a quem atribuem uma lendária inteligência, uma incomparável capacidade de análise e uma gloriosa presciência. Marcelo disse o que disse, onde disse e nos termos em que disse por sua exclusiva e irreprimível vontade, na plena posse do domínio das ferramentas da retórica e com a plena consciência do seu potencial efeito jornalístico. As suas declarações mais disruptoras foram proferidas em ambientes descontraídos e despojados de carga institucional. Foi o caso do célebre jantar com correspondentes estrangeiros, em que traçou o perfil psicológico e sociológico de Montenegro, e agora na Universidade de Verão do PSD, onde nem faltou uma aparição live inesperada, nem o soundbite da semana: “O líder máximo da maior superpotência do mundo, objetivamente, é um ativo soviético ou russo.” Convém não esquecer que apesar do nome, o evento social-democrata (que inclui uns convidados independentes e até doutros partidos), tendo em conta os discursos que os ministros lá vão fazer e a intervenção de Hugo Soares, é basicamente um seminário de propaganda e endoutrinamento. Ou, como diria Miguel Relvas com superlativa subtileza, uma espécie de madrassa.

 

O pronunciamento de Marcelo sobre Trump não é original. Em Janeiro de 2021, o jornal The Guardian fazia eco das revelações de um ex-espião do KGB, Yuri Shvets, no sentido de que o magnata americano é, há mais de quatro décadas, “cultivado como um activo russo”. Shvets revelou que o KGB tinha recolhido bastante informação acerca das características pessoais de Trump, visto como alguém “extremamente vulnerável intelectualmente e psicologicamente, e susceptível à lisonja”, bem como disponível para “papaguear propaganda antiocidental”. Trump terá tido contactos com agentes ou colaboradores do KGB, quer no âmbito da sua actividade empresarial nos EUA, quer no contexto de viagens que efectou a Moscovo e a São Petersburgo. O ex-espião russo foi uma das principais fontes do livro American Kompromat do jornalista americano Craig Unger. Em Março deste ano, um fact-checking da Euronews não conseguiu comprovar a alegação de outro ex-KGB, Alnur Mussayev, de que Trump teria sido recrutado pelo KGB em 1987, tendo-lhe sido atribuído o nome de código “Krasnov”. Contactado pela Euronews, Craig Unger fez questão de distinguir entre agente e activo: “Enquanto que um agente é um funcionário pago de um serviço de inteligência, um activo é um amigo confiável disponível para favores.” Considerando estas definições, e tendo em conta a admiração do presidente americano pelo seu homólogo russo, percebe-se o comentário de Marcelo, com especial enfâse no “objectivamente”. Que o Presidente da República o deva verbalizar é outra questão, a ser trabalhada pelo irascível ministro dos Negócios Estrangeiros. Marcelo, claro, está para além do bem e do mal, do salamaleque diplomático e do perfil institucional. É um primus inter pares com licença para ser elefante em loja de porcelanas.

UM FASCISTA NO PODER NA AMÉRICA

Abril 27, 2025

J.J. Faria Santos

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Jason Stanley, professor em Yale, de partida para uma universidade no Canadá, explica deste maneira em entrevista ao Expresso a sua escolha: “Não quero que os meus filhos vivam num país com um regime fascista”. Stanley acha ingénuo supor que a terra da liberdade não possa ser vítima do esboroar da democracia. E nota: “Se os alunos estrangeiros deixam de repente de se poder expressar, que garantia temos de que a seguir não seremos nós?”

 

A revista Time, a propósito da sua lista das 100 pessoas mais influentes do mundo, assinala que “nenhum outro presidente moderno tomou o controlo pela força do governo dos Estados Unidos como Donald Trump”. “Despediu procuradores e inspectores-gerais”, “descartou milhares de funcionários federais, eliminou programas de ajuda global” e esvaziou o Departamento de Educação. E ameaçou invadir a Gronelândia e retirar o apoio à Ucrânia nos intervalos da sua guerra cultural contra os programas de diversidade das empresas e das universidades. Acolitado por J. D. Vance (que a Time denomina de um dos seus “mais prolíficos attack dogs nas redes sociais”) e por Elon Musk, que a mesma revista estima que tenha gasto “quase 290 milhões de dólares em 2024 para ajudar a eleger Donald Trump e outros candidatos republicanos”, o actual presidente americano prossegue com afinco o abastardamento do sonho americano e o ataque sem tréguas à liberdade, em nome de uma noção de patriotismo  e de valores conservadores que contrariam a essência da nação.

 

Antevendo o pior, Jeffrey Goldberg, o editor da The Atlantic, escreveu na edição de Janeiro/Fevereiro de 2024, numa peça intitulada “Um aviso”, que “o Partido Republicano se tinha hipotecado a um demagogo antidemocrático, alguém desprovido de decência”. No mesmo número da revista, David Frum notou que “o desejo político supremo de Trump sempre fora empunhar tanto a lei como a violência institucional como armas pessoais de poder”. Não é difícil concordar com ele. A liberdade e o Estado de direito na América estão à mercê de um perigoso populista narcisista. E com elas a segurança e a paz no mundo. Como sintetiza António Araújo hoje no Público, do que se trata é de uma “ditadura in progress e de um homem ridículo e incompetente, mas sobretudo mafioso e muito perigoso”.

 

Imagem: Daniel Torok / Wikimedia Commons

UM CADASTRADO À PROVA DE BALA

Julho 21, 2024

J.J. Faria Santos

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In God we trust, escarrapacham os americanos nas notas de dólar. E podem confiar nos seus profetas e prosélitos? Onde acaba o interesse pessoal e começa o fervor pelo bem-estar comunitário e o desejo de expansão da fé e da vivência religiosa? Onde termina a genuína expressão da crença e começa a manipulação? Trump sentiu-se seguro após o silvo da bala lhe ter murmurado ameaças ao ouvido porque “tinha Deus a meu lado”. Homens de pouca fé logo trataram de censurar a negligência divina por não ter salvado o bombeiro que também fora atingido, mas podemos sempre supor que o  acesso à salvação se reja por uma espécie de numerus clausus: entre um meritório e compassivo soldado da paz e um candidato a Presidente que promete acabar com a guerra da Ucrânia num dia e reabilitar o sonho americano, quem é que Deus haveria de escolher?

 

A provável vitória de Trump anuncia o triunfo de uma autocracia com laivos de teocracia. Agora sim, vem aí a “carnificina americana”, despedaçando o Estado de direito, a separação de poderes e até os direitos individuais. A terra dos bravos ameaça transtornar o lar dos livres. “Todos os homens e mulheres esquecidos, que foram negligenciados, abandonados e deixados para trás, não serão esquecidos nunca mais”, prometeu o candidato em registo épico. Agora que provou ser feito da matéria dos mitos e dos predestinados, Trump insta os descamisados a não chorarem por ele, porque nunca os abandonará. Nada o deterá. O homem que se portou como um ditador sul-americano, do género dos que desprezam os resultados eleitorais e promovem sublevações sangrentas, milionário de cartoon com pose de wrestler, é agora o futuro do sonho americano. Um futuro em que a democracia americana corre o risco de se assemelhar ao WWE, isto é, uma espécie de campeonato de luta profissional, um entretenimento com protagonistas estilo Marvel, envolvidos em confrontos de resultado combinado. Poderá ser empolgante, para quem apreciar o estilo, mas já não será uma democracia plena.

O RETRATO DE MELANIA TRUMP

Outubro 04, 2020

J.J. Faria Santos

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Consta que Melania não suporta Ivanka. E vice-versa. Referir-se-á à enteada com o epíteto desdenhoso de “a princesa”, a qual retribuirá na mesma moeda, apelidando a madrasta de “o retrato”. Retrato, porquê? Porque ela raramente fala. Bom, o silêncio pode ser eloquente. Mesmo que revele somente frivolidade, desinteresse ou um exacerbado sentido de autopreservação. Podemos sempre adicionar o factor decorativo (correndo o risco de engrossar as fileiras do patriarcado repressor e condescendente), mas a verdade é que a senhora Trump nunca mostrou na defesa das causas típicas de uma primeira-dama o empenho que devota à preservação da sua beleza ou à divulgação dos seus fashion statements. A sua figura pública (algures entre a coreografia do poder e o reality show televisivo) semeia, ocasionalmente, sinais de desobediência e rebeldia (um esgar irritado aqui, uma mão recusada ali…), mas tudo pode não passar de um pouco subtil esquema de negociação de privilégios matrimoniais num casamento atípico. Não seria surpreendente que, a destoar da sua beleza exótica, e tal como Dorian Gray, Melania mantivesse escondido num quarto desabitado um quadro que espelhasse a sua mesquinhez interior, onde, para citar Oscar Wilde, “a lepra do pecado devorava lentamente o rosto”.

 

E que comportamentos ou afirmações censuráveis podem ser atribuídos a Melania? Kali Holloway, num artigo para o Daily Beast em meados de Setembro, defendeu que a maneira como ela mente profusamente é a prova da sua semelhança de carácter com Donald, definindo ambos como “centrados nos seus interesses, fabulistas com a mania das grandezas, espalhando falsidades de cada vez que abrem a boca”. Segundo ela, Melania mentiu sobre uma miríade de assuntos, desde as suas habilitações literárias (não se licenciou, ficando-se pela frequência do 1º ano) à quantidade de línguas que fala (supostamente 6, mas ninguém a terá ouvido exprimir-se além do esloveno e do inglês), passando pela sua idade e pelas cirurgias plásticas. Holloway acusa-a de cumplicidade com o marido, ao desvalorizar ou ignorar em Donald o “mulherengo em série, mas também o predador sexual, a mentira patológica e o racismo virulento”.

 

Se Donald tem uma visão transaccional da actividade política, onde o que prevalece é a afirmação do poder e a capacidade de negociação, pode-se dizer o mesmo da primeira-dama, ou não tivesse ela aproveitado o início do mandato presidencial para renegociar o acordo pré-nupcial. E quando em 2015 lhe perguntaram se teria casado com ele se ele não fosse rico, a resposta surgiu sob a forma de outra pergunta: “Se eu não fosse bonita, acha que ele ficaria comigo?” É caso para dizer, parodiando de forma não particularmente original um standard do cancioneiro americano, The Lady is a Trump. Como também nota Kali Holloway, num momento de “transparência acidental”, Melania revelou encarar a sua condição de primeira-dama como uma oportunidade única de lançar “uma marca comercial de base ampla numa múltipla categoria de produtos”. Do mesmo modo que os concorrentes de um reality show amealham reconhecimento e popularidade que depois capitalizam em “presenças” em eventos e outros proventos comerciais, Melania Trump (à semelhança do resto da família, diga-se) viu no mandato do marido sobretudo um gigantesco golpe publicitário. Resta-nos admitir que para presenças em eventos, nada melhor do que um retrato.  

 

Imagem: Wikimedia Commons

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