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NO VAGAR DA PENUMBRA

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A NOVA PIETÀ INTERPELA OS IMPIEDOSOS

Setembro 20, 2020

J.J. Faria Santos

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A Pontifícia Academia para a Vida publicou na sua conta no Twitter uma versão da Pietà de Miguel Ângelo com um Cristo negro, espoletando a ira e o criticismo, sobretudo por parte de organizações conservadoras norte-americanas. Com a legenda “Uma imagem que vale um discurso”, a iniciativa do órgão do Vaticano é um poderoso manifesto anti-racista.

 

A representação tradicional de Jesus Cristo, omnipresente na arte ocidental e não só, de pele clara, cabelo comprido e barbas, remonta ao período bizantino, notou Joan Taylor, professora no King’s College, em artigo para a BBC, e foi construída como “uma versão jovem de Zeus”, pai dos deuses na mitologia grega. Esta continua a ser a versão predominante, inclusivamente, acrescenta Taylor com um toque de humor, retocada com uns traços hippies. Algumas variantes deste modelo, apresentam olhos azuis e aproximam-no do estereótipo nórdico, muito longe, previsivelmente, do judeu moreno que ele terá sido.

 

Anselmo Borges, em declarações ao Público, diz ver esta publicação no Twitter como uma maneira de “dizer que Jesus é o salvador universal”, e que como “homem verdadeiramente universal, tem muitos rostos”. Já em Junho passado, Justin Welby, figura cimeira da Igreja Anglicana, se tinha pronunciado no sentido de repensar a forma como as igrejas ocidentais retratam Jesus. “Esta ideia de que Deus era branco… Se formos a igrejas [por todo o mundo] não vemos um Jesus branco. Vemos um Jesus negro, um Jesus chinês, um Jesus do Médio Oriente — que, obviamente, seria o mais exato —, vemos um Jesus fijiano”, referiu Welby citado no Observador.

 

Os indignados que alegam que se trata de “blasfémia”, vandalização da arte ou apologia de movimentos sociais (no caso do movimento Black Lives Matter), recusando perceber o simbolismo da montagem postada, revelam-se incapazes de estar à altura da obra artística que veneram. Eles são os impiedosos, alheios à compaixão e à fraternidade, enredados no preconceito que os arrasta para a insensibilidade e para a crueldade.

 

Imagem: Twitter da Pontifícia Academia para a Vida

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