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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

AS LÁGRIMAS AMARGAS DE CR7 NO ADEUS PORTUGUÊS

Dezembro 11, 2022

J.J. Faria Santos

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Um guarda-redes com ar de “milhafre ferido na asa” depois de um voo falhado. Um semideus a atravessar um vale de lágrimas a caminho do balneário. Jogadores avulsos, espraiados pelo relvado, aturdidos pela inapelável circunstância do fim. O esforço traído, a técnica que se revelou insuficiente, a táctica que parece ter confundido paciência com lentidão, para depois se abandonar ao frenesim que condiciona a ponderação e a eficácia. E uma bola com chip, rebelde sem causa, que não se deixa guiar e se entretém a jogar, ela própria, com as probabilidades e a sorte.

 

As lágrimas amargas de CR7 no adeus português sublinham o final melodramático deste Casablanca rodado no Catar. Portugal, que esperava obter o livre-trânsito para as meias-finais, acabou destroçado, com o sonho de uma geração transformado em nevoeiro. O protagonista, um cruzamento de D. Sebastião com Fausto, depois de assinar uma carreira ímpar com o seu robusto ego e ao ritmo dos seus desejos, mostra-nos, agora, a sua humana vulnerabilidade.

 

O genérico pode ter terminado e a legenda “fim” ter tomado conta do ecrã, mas, no futebol como no cinema, os remakes acontecem. E, muitas vezes, os protagonistas da primeira fita aparecem como convidados de prestígio na nova versão. Há etapas que terminam, mas há muitas maneiras de evitar o fora-de-jogo.

O CREPÚSCULO DO SEMIDEUS

Outubro 23, 2022

J.J. Faria Santos

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O que acontece quando, depois de se atingir o cume, se perspectiva no horizonte o inevitável declínio? Será inescapável que a tentação da negação, a tão humana defesa perante o sofrimento ou a incredulidade, funcione como uma cortina diante da realidade? Cristiano Ronaldo ascendeu ao topo do futebol mundial graças ao seu talento, à sua força de vontade, à disciplina e ao alto grau de profissionalismo, e fê-lo de uma forma admirável. No seu percurso (uma verdadeira história de rags to riches), acabou por construir uma persona com um ego desmesurado, com tiques cartoonescos e gestos exibicionistas, toleráveis perante o seu rol de conquistas, troféus e recordes.

 

A batalha pela longevidade da carreira decorre em simultâneo com a preservação da juventude: dieta rigorosa, sestas, sessões de pilates, tratamentos de crioterapia semanais. A sua imagem pública é a de um semideus, exibindo todas as características distintivas da estética masculina corrente, a que se soma um estilo de vida marcada pelo luxo e até pelo excesso, ainda que acompanhado por um espírito solidário para com a família e os amigos e o apoio de causas públicas meritórias. Como fazer a transição do esplendor dos relvados para o trono das bancadas? Se o banco de suplentes é já uma tortura e uma espécie de insulto, como gerir a cronologia do afastamento?

 

O episódio do telemóvel do jovem autista atirado para o chão (pelo qual pediu desculpa) e sobretudo a recusa em entrar em campo no jogo com o Tottenham são sintomas de desassossego e transtorno, e este último constitui um assomo de vedetismo e fere o seu profissionalismo. A grandeza não se mede só pelos títulos individuais ou colectivos conquistados, sendo certo que deslizes comportamentais não poderão, por si só, pôr em causa um palmarés inigualável e um historial quase irrepreensível. Faltará nesta circunstância o conselho avisado de um gestor de carreira. Para quem se empenhou de corpo e alma na gestão de uma ambição, será sempre trágico e doloroso programar a desistência.

 

Imagem: desporto.sapo.pt

IRRITAÇÕES

Agosto 29, 2021

J.J. Faria Santos

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Cristiano Ronaldo regressa ao Manchester United e o frenesim mediático instala-se. Tirando o talento invulgar, o profissionalismo inexcedível e as conquistas individuais e colectivas, dispenso tudo o resto que envolve o personagem. A começar pelas manifestações do seu desmesurado ego e a terminar nas aventuras empresariais e artísticas da família, passando pelo exacerbado papel de Mãe Coragem da D. Dolores, como se não existissem milhares de mulheres que com sacrifício pessoal e abnegação lograram ultrapassar dificuldades e contrariedades em busca de melhores condições de vida.

 

Apesar de todo o progresso científico, permanecia uma evidência a impossibilidade de prever o dia e o local em que ocorreria um sismo. Até agora. A azougada Suzana Garcia promete pôr muita gente a tremer das pernas no dia 26 de Setembro, num movimento tectónico com epicentro na Amadora. Os traficantes, a direita fofinha, a esquerda caviar, os tachistas, os burocratas, todos vão tremer. Até os populistas, diz ela, o que torna inevitável que também tremelique quem pretende fazer desabar os adversários à força de demagogia, olhos arregalados, língua destravada e rosto à beira da apoplexia. É o chamado efeito de ricochete.

 

Henrique Monteiro assinala no Expresso a saída do livro de memórias de Pinto Balsemão. Do “príncipe” da Lapa, de quem Monteiro diz nortear o seu comportamento por um estrito código de honra, ficámos a saber que chegou a viajar “pendurado num trolley do eléctrico para poupar dinheiro para ir ao cinema” (lá está, a caução cultural que desculpa a transgressão). Mas o mais relevante, com direito a chamada de primeira página, é o facto de ele se referir à mulher como “Queen Mother”. Monteiro diz que tal se deve à “influência emocional e apaziguadora” que Mercedes (aka Tita) exerce sobre Francisco. Mercedes, majestosa e benevolente, reinará sobre esta aristocracia por afinidade com a sabedoria de quem tendo lidado com sumidades de petit nom é capaz de limar arestas e evitar choques de titãs (ou Titas…)

 

De quem se diz ser um “príncipe” da política, no trato e na acção, é Jorge Sampaio. Republicano impenitente, recusaria este título, mas seguramente não levará a mal que o consideremos um gentleman. Numa altura em que se debate com problemas de saúde, questão de foro privado e a ser tratada com discrição e elegância, seria de esperar que o actual Presidente resistisse a ocupar o palco, qual repórter com fontes privilegiadas, protagonista de um lancinante Última Hora. Poderia deixar o boletim clínico para o hospital ou para o gabinete de Sampaio, mas seria pedir demais. Em plena Feira do Livro do Porto, logo tratou de relatar à comunicação social o que o médico da Presidência da República lhe transmitira acerca do estado de saúde do ex-chefe do Estado. Ninguém escapa à sua natureza, nem a coberto do verniz institucional.

 

Imagem: "Grand Shore" de Richard Ahnert (courtesy of Bert Christensen)

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