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NO VAGAR DA PENUMBRA

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O NATAL DA TUA AUSÊNCIA III - UMA VIDA (CONTO DE NATAL)

Dezembro 23, 2022

J.J. Faria Santos

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É véspera de Natal. Já passaram quase três anos e meio desde que partiste. O meu irmão já não faz visitas semanais ao local onde repousas, dedicando-te confusos monólogos do luto, o que não significa um qualquer prelúdio de apagamento da memória, representa, isso sim, um apaziguamento. A dor lancinante, bruta, é agora uma agridoce melancolia. Compreenderás que corresponde à ordem natural das coisas, doutra forma ocorreria um perpétuo ritual doentio.

O teu filho foi um valente. Confesso-me abismada com a presença de espírito, a sensibilidade e a discrição com que lidou com a orfandade precoce. É espantoso como encaramos as novas gerações como algo desligadas, inconscientes, impreparadas para a realidade da vida quotidiana, perdidas no manejamento dos smartphones, formatadas para a realidade virtual do Instagram e, de repente, como se movidas pelo prazer perverso de nos surpreenderem, entregam-se a causas fundamentais que nós, adultos certificados, realistas em negação, preferimos ignorar. Sei que, onde quer que estejas, te orgulharás do Tiago e do seu envolvimento no movimento que exige uma acção mais consequente no combate às alterações climáticas. Assim como da sua participação num grupo de apoio aos sem-abrigo, que distribui refeições, roupa e medicamentos, para além de procurar encaminhá-los para soluções institucionais que os retirem da rua. É uma actividade gratificante, mesmo para aqueles de nós que olham para esta forma de voluntariado como um meio de sossegar as consciências. Sim, é tudo muito precário e provisório, e cada história de vida é um novelo difícil de desenredar e ainda mais de orientar para tricotar um futuro, mas uma refeição quente e um gesto caloroso alimentam a esperança.CHR.png

Rememorando agora os primórdios da nossa relação, evoco sobretudo aquele momento em que ultrapassaste o estatuto de namorada simpática do meu irmão e te tornaste numa pessoa fundamental para a minha sobrevivência neste, por vezes, torrencial tumulto dos dias que passam. Exagero? Bom, como se diz algures no Livro do Desassossego, “vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem”. Quando a viagem se tornou tormentosa, tu estavas lá para me ajudar na travessia. Claro que o meu irmão estava presente e os meus pais atentos, mas há tumultos interiores que se acumulam e que por pudor se ocultam, como se uma qualquer revelação nos enfraquecesse irremediavelmente. Quando somos jovens, queremos exibir-nos como inexpugnáveis, resistentes ao assalto da dúvida e imunes à crueldade, quantas vezes capa da insegurança, dos nossos pares. Num misto de perspicácia e sensibilidade, abriste uma porta e soubeste esperar que eu me dispusesse a entrar. Ajudou que tivesses uma tia psicóloga.

Apercebo-me agora da importância de termos ferramentas que nos permitam nomear. Quer dizer, eu, na altura, não sabia que estava a sofrer de assédio no trabalho. Era o meu primeiro emprego depois do curso. Havia comportamentos que me pareciam desnecessários, mas seriam, digamos, naturais? A mão do meu chefe nas minhas costas quando nos encaminhávamos para o elevador, o seu rosto muito próximo do meu quando se aproximava por detrás da minha cadeira e se inclinava sobre a minha secretária como se estivesse a supervisionar um exercício de escrita, os seus dedos intrusivos a procurarem os meus quando, invertendo a prática habitual, me estendia um café, “quente e cremoso”, como gostava de sublinhar. Seguiram-se os elogios indirectos à minha forma física (“que ginásio é que costuma frequentar?) e as loas ao meu guarda-roupa (“profissional e ao mesmo tempo feminino”), que culminaram num convite para jantar num sábado à noite, que eu recusei com delicadeza e “feminilidade”. Foi quando começou um ciclo infernal. Ora me deixava dias a fio quase sem tarefas a desempenhar, ora me atribuía um projecto altamente complexo com um calendário de conclusão impossível de cumprir. Desvalorizava sistematicamente as minhas opiniões e sugestões, propositadamente na presença dos meus colegas de trabalho, tornando pública a sua insatisfação e sugerindo que o meu contrato poderia não ser renovado. Foi neste ponto, e numa altura em que, com a tua ajuda e a da tua tia, a minha fragilidade evoluíra para a resistência e para a vontade de retaliação, que percebi que eu é que iria rescindir o contrato.

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Este é o primeiro Natal depois do regresso da guerra ao coração da Europa. Uma guerra em tempos de pós-verdade, onde uma invasão é descrita pelos violadores de soberania como uma operação militar especial. Este é o Natal do regresso da velha senhora, a inflação. Este é o Natal em que o brilho das luzes e o apelo do consumismo estão ameaçados pelo imperativo da poupança. Eis uma boa altura para regressarmos ao básico, ao essencial. Trocar afectos, sempre bem-vindos, em vez de trocarmos presentes, que por sua vez, enjeitados pelo gosto, serão permutados nos dias a seguir ao Natal, numa romaria às lojas como se fossem casas de câmbio.

Ontem à noite, antes de adormecer, remexendo em gavetas esquecidas em móveis imóveis no meu quarto, deparei com um maço de envelopes com postais de boas festas, relíquias de um passado pitoresco. Num deles descobri uma fotografia de nós os três, todos com aqueles apetrechos para a cabeça que imitam as hastes das renas. Parecemos felizes. (Fomos, não fomos?) Se é possível capturar um estado de beatitude com um clique instantâneo, então esta fotografia é o cânone. Não há um sorriso estrepitoso para a objectiva, há, objectivamente, uma máquina submetida à magia da ausência de encenação.

Não te espantes com as minhas dúvidas. Às vezes, muitas vezes, penso que passei anos da minha vida a deambular como uma sonâmbula, de tal maneira que, com frequência, quando penso em determinado acontecimento ou facto, me interrogo se sucedeu mesmo ou é uma memória falsa. Isto, claro, foi antes, antes de me lançar a viver com uma avidez frenética. Como se fosse possível recuperar o tempo perdido. Não é, sei-o bem. A expressão “nunca é tarde demais” devia ser criminalizada por falsidade dolosa.CHR.png

Por esta altura (embora eu não saiba como funciona o sistema de comunicações no universo que habitas), com toda a probabilidade, já deves estar ao corrente da existência da Maria Ana. Embora tenha sido bem acolhida pela família, com a notória excepção do Fred, que com a sua personalidade bem vincada fez questão de moderar a simpatia e até se entregou a alguns exageros hostis, de início pareceu afectada, salvaguardadas as devidas distâncias, pela “síndrome de Rebecca”. Como no livro de Daphne du Maurier, a Maria Ana deve-se ter sentido transportada para um ambiente em que a persistência da memória da tua existência permeava todos os momentos. Imagino as interrogações que lhe terão ocorrido. Estarão a comparar cada gesto que eu faça, cada modulação do rosto, cada hesitação na fala? Estarei a ser demasiado contida, respeitosa? Transmitirei uma sensação de antipatia ou sensaboria? Deverei arriscar uma atitude mais expansiva sem parecer intrusiva? É este, deveras, o meu lugar, mesmo com o Pedro ao meu lado?

Ela deve ser uns bons cinco ou seis anos mais nova do que tu e é divorciada. Não tem filhos. Tem um ar discreto, sem ser tímida. Veste de forma casual, pelo menos das vezes em que convivemos, mas com bom gosto. Mantém um tom de voz constante, mesmo quando se empolga ou descreve algo emocionante. É atraente sem ser particularmente bonita. E parece fazer feliz o Pedro, o que é o mais importante, não concordas?

O momento em que decidiram ir viver juntos foi precedido de uma conversa com o Tiago. Não se tratava, como decerto perceberás, de pedir a bênção ou, pior ainda, a autorização. Seria absurdo e o Tiago não teria a veleidade (e muito menos a desconsideração) de se colocar na posição de juiz de uma escolha de vida, mesmo sendo parte interessada. Tudo se passou com naturalidade. Como se costuma dizer em certos contextos, tratou-se de uma “evolução na continuidade”. Cada um assumiu os seus papéis, sem usurpação de funções nem comportamentos passivo-agressivos. Cada um foi-se adaptando às circunstâncias. Não é assim que se supõe dever ser? Estou certa de que terão existido momentos de estranheza, de desadequação e de frustração das expectativas, que terão sido resolvidos no íntimo de cada um. Só na sociedade de terapia pública em que vivemos, de sentimentos escancarados nas redes sociais, é que se imagina que tudo se explica e se resolve com a vocalização intensa e interminável das nossas misérias e das nossas contrariedades.

Tudo se foi compondo, pois, até que chegámos aqui. A mais um Dezembro. Não nevou ainda, mas em contrapartida os céus abriram-se com estrondo e uma chuva torrencial varreu terra e asfalto. Uma certa surpresa em tempos de seca extrema. Mas não foi, este ano, a única manifestação do repentino. A inesperada notícia a que agora aludo teve tal impacto que acabou por condicionar a noite da consoada. A mesma noite que agora avalio da janela da sala, pontuada por luzes e fulgor, abstraindo-me do restolho das conversas, enquanto aguardo que o telemóvel toque.

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O Pedro está no hospital a acompanhar a Maria Ana. É dele o telefonema que aguardo. O anúncio do que se passava deixou-nos a todos um pouco aturdidos, inicialmente. Não que fosse particularmente inaudito, muito menos impensável ou insensato. Acho que ele também se debateu com sentimentos ambivalentes. Terá pensado que correria o risco de desempenhar um papel fora de tempo ou que poderia, mesmo inconscientemente, interpretar esta circunstância como um mecanismo de compensação emocional. Um ganho para contrapor a uma perda. Na verdade, se assim fosse, ficaria a ganhar por dois a um.

A gravidez de Maria Ana foi o acontecimento do ano. Brinquei com a perspectiva de o Pedro se voltar a debater com noites insones e fraldas descartáveis, mas também com a oportunidade de pôr em prática os conhecimentos entretanto adquiridos para se tornar um pai 2.0. Claro que, sem me atrever a perguntar se a gravidez fora planeada ou fortuita, meditei por breves instantes (o pudor impediu a extensão da reflexão) se seria avisado ou indispensável para a consolidação da relação. Talvez ela sentisse o apelo da maternidade e ele tivesse aquiescido, por empatia e também por vontade própria de alargar a descendência. Os motivos não importam, sendo certo que o bebé foi desejado, se não antes, a partir do momento em que impôs o esboço da sua presença no útero da mãe. Até que, com a mesma veemência, reclamou a independência do líquido amniótico. A persistência das contracções e o rebentar das águas (eis um dilúvio benfajezo que celebra a vida) tornaram imperiosa a expedição ao hospital.

Lambuzo-me com uma fatia de tronco do Natal e recuso um sonho de abóbora. Comer um sonho soa-me a algo vagamente metafísico (come-se imaginação, devaneio, fantasia ou deglute-se o produto do nosso inconsciente?), embora seja mais aconselhável do que comer sono. Estou um pouco cansada. E ansiosa. Percebo-o quando me acorrem estas divagações idiotas. Há qualquer coisa nos ambientes familiares que me reconforta e ao mesmo tempo me inquieta. Tu sabes, não sabes? Aquela sensação, absolutamente não fundamentada, de não pertencer a lado nenhum… Se ao menos o Pedro telefonasse com a jubilosa notícia do nascimento.

Há uma escolha que o Pedro e Maria Ana fizeram: não saber o sexo da criança. Há pais que preferem saber para planearem as roupas a adquirir ou a decoração do quarto do recém-nascido, mas eles jogaram na surpresa. O importante era que fosse do género saudável. A nossa mãe lamenta não poder tricotar nada sem saber se iria ter um neto ou uma neta, presa ainda ao estereótipo do azul e do rosa. Logo ela, tão “moderna” em quase tudo o resto.

Bebo um licor azulado na exacta altura em que alguém na mesa grita que já passam 25 minutos da meia-noite. Segue-se a romaria para a árvore e o assalto aos presentes. Notificações de mensagens parecem atropelar-se no meu telemóvel. Há camisolas, livros, perfumes e até um tablet exibidos com satisfação. Há o estribilho de uma canção de Natal que escapa da vizinhança. Há um eco de intemporalidade que envolve a celebração. Até que o nome Pedro se ilumina no visor do smartphone.

Sim, nasceu. A menina. E a voz dele a escorrer de emoção e espanto. E orgulho, como se dissesse: contribuí para isto, que feito maior poderei protagonizar? Chama-se Cristina. (O nome fora a única coisa que escapara ao improviso e à ignorância deliberada.) Que nome seria mais apropriado para quem nasce no dia de Natal? Cristina, que significa cristã ou ungida por Deus. Cristina, escolhida por Deus e destinada a ser amada pelos homens.

O NATAL DA TUA AUSÊNCIA II - FRED

Dezembro 20, 2020

J.J. Faria Santos

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É véspera de Natal. Já passou quase um ano e meio desde que partiste e continuo a saltar para o teu lado da cama conjugal que partilhavas com o Pedro. E a olhar para ele. Primeiro para o vulto enrolado nas mantas e depois para o rosto onde se misturam o espanto e a compreensão intuitiva. Os cínicos, os mal-intencionados ou os descrentes da bondade animal podem achar que o meu percurso matinal em direcção ao vosso quarto é apenas a manifestação de um hábito (é verdade que nós, os gatos, apreciamos a constância e as rotinas), mas seria estulto ignorar a possibilidade do sentimento de perda transcender a condição humana. E a verdade é que sinto a tua falta, da tua mão a percorrer o meu dorso, dos teus dedos enredados nas minhas orelhas, da tua voz pairando suave no reino da paz doméstica. Que importa que não me lembre dos traços do teu rosto? (Parece que os investigadores estão divididos no diagnóstico desta falha felina: há quem ache que nós somos incapazes de distinguir os rostos humanos e há quem ache que este é um detalhe que simplesmente nos deixa indiferentes.) Qual é o problema? Não proclamam vocês que “quem vê caras não vê corações”? Pois, nós vemos corações. E aspiramos o aroma da vossa essência humana, o cheiro da vossa identidade única e irrepetível. Nas primeiras semanas após o teu desaparecimento, sempre que me era possível, eu intrometia-me em armários e até gavetas onde repousavam as tuas roupas, as quais preservavam o teu cheiro, mesmo que mesclado com o dos detergentes e amaciadores. Agora, na impossibilidade de o reencontrar, contento-me com um sucedâneo. É por isso que interrompo a minha higiene pessoal quando o Pedro vai tratar da dele e o persigo. Porque sei que na intimidade da casa de banho, empunhando o teu perfume, ele vai evocar-te, permitir que revivas, sob a forma de um esparso aguaceiro perfumado. E quando ele pega em mim e me incita a ir ter com o Tiago, vou de boa vontade, porque graças ao mais apurado dos meus sentidos levo-te comigo.

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Mentir-te-ia se te dissesse que o confinamento me transtorna grandemente. Há alguma coisa mais deliciosa que passar longas horas a dormir, ou intermináveis minutos a fixar um ponto obscuro numa parede ou a examinar o comportamento de um pássaro irrequieto? Não sou um gourmet, nem tenho gostos requintados, e o sexo parece-me claramente sobrevalorizado. Pelo menos do que me lembro… antes de ser castrado, o que, ainda assim, me provoca sentimentos ambivalentes. Os ardores da paixão deixavam-me inquieto, insuportavelmente dependente da lei do desejo, mas, por outro lado, havia algo de boémio e sofisticado na vadiagem alimentada pela luxúria. Mesmo que tudo acabasse num beco esconso com uma gata sem pedigree. Não será exagerado da minha parte dizer que foi cometido um crime contra a minha autodeterminação sexual, mas tudo isto faz parte do passado, e de um passado anterior ao nosso encontro. E mesmo que esse crime pudesse ser reconhecido, certamente já deve ter prescrito. Não sou dado a lutas quixotescas, submeto-me à realidade mesquinha e subverto-a sempre que posso. E nos intervalos durmo. E sonho. E muitas vezes sonho que estou a dormir. E quando acordo, salto para a secretária do Tiago, e posto-me tipo torre de pêlo ao lado do portátil. A caminho dos 14 anos, o Tiago começa a interessar-se por alguns conteúdos que não deseja publicitar no seio familiar, e não serei eu que irei cometer inconfidências. Na verdade, de cada vez que me junto a ele, insiste em impingir-me a visualização de vídeos no YouTube protagonizados por gatos supostamente virtuosos ao piano ou do Instagram da Choupette, a gata “viúva” do Karl Lagerfeld. Ora aqui está um homem que, se fosse vivo, teria motivação, interesse e talento para criar uma máscara protectora para os felinos que se adaptasse aos nossos imprescindíveis bigodes…

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Na verdade, não é recomendada a colocação de máscaras em animais domésticos. Podem até ser prejudiciais. Lamentavelmente, tudo indica que os gatos sejam mais susceptíveis à doença do que os cães. Se eu for infectado, corro o risco de apresentar sintomas de problemas respiratórios e gastrointestinais. Temos de tomar precauções semelhantes às que são recomendadas aos humanos: permanecer em casa, e quando fora de casa manter a distância social, evitar aglomerações e a interacção com outras pessoas que não os coabitantes. A única parte boa é que não existe registo de que algum gato tenha contaminado um ser humano. Estou livre desse receio e do espectro da culpa, mesmo involuntária. E não posso dizer que o afastamento social seja um fardo. Gosto de observar o mundo do parapeito da janela e quando me aventuro no exterior, por períodos curtos, não me afasto dos meus domínios, cercados de muros e sebes. Já tive a minha dose de becos e travessias temerárias de vias rodoviárias. Sim, eu já fui um aventureiro, sedento de novas experiências, radical na minha exposição ao mundo. Agora, prefiro o conforto e o aconchego da repetição do ciclo de vida diário. E qualquer intromissão do inesperado parece (e é) um desaforo, uma contrariedade de proporções alarmantes. Não te quero perturbar, onde quer que estejas, mas uma intrusa ameaça imiscuir-se no nosso lar. Não me parece que a culpa possa ser atribuída ao Pedro. Mesmo sabendo que os homens têm certas necessidades, emocionais e também de índole sexual.  Se fossem apenas estas últimas que estivessem em jogo, eu diria que seria de ponderar a hipótese (horrenda, é certo, desumana, claro) de castrar o Pedro. Só de pensar na selvajaria disto, eriça-me o pêlo todo. Para já não falar do lamentável assassinato da minha coerência.  Eu também tive a minha dose de gatas fatais, miando maviosamente e abanando a cauda sedutoramente. E sucumbi várias vezes. Mas paguei o preço do desencanto e do desalento que as paixões inconsequentes geram. Eu sei que tu quererás que o Pedro persiga a felicidade, sem ficar preso na dor do irrecuperável, mas esta mulher, acredita, é uma sonsa insossa que não o merece.

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Eu sei que estamos na quadra da boa vontade e da comunhão dos espíritos, mas mesmo na época dos licores deixa-me servir o veneno. A candidata ao teu lugar já invadiu a casa. Em plena pandemia, diga-se, embora com a atenuante de ter feito o teste na véspera e o resultado ter sido “não detectado”. Chama-se Maria Ana. Não é Mariana, que é demasiado banal… é Maria Ana. Dá para acreditar? Aposto que se tiver irmãos se chamam Bernardo Maria, Pedro Maria, António Maria e assim sucessivamente. As classes afluentes têm uma fervorosa devoção mariana (ou será devoção maria ana?) Que tal te parece o meu sentido de humor? Cáustico? Que é que eu vou fazer? Sou felpudo, fofo, adorável, mas canso-me de ser bonzinho. Em vez de afiar as unhas, afio a língua? Perdoas-me? Tenho de admitir que ela se esforçou por ser agradável com toda a gente. O Tiago achou-a simpática, mas titubeante. Eu não a achei, digamos, asquerosa, mas deu um passo em falso que pesou sobre a minha consideração (e de que maneira…) Não é que a criatura, de uma forma assarapantada e inopinada, deslocou o pé direito e infligiu-me uma dor lancinante ao pisar a minha cauda? Claro que eu fiz questão de assinalar este humilhante incidente com um miado pungente, que trepou na escala dos decibéis, ao mesmo tempo que me pus em fuga com a agilidade que me caracteriza. Se eu quisesse ser verdadeiramente melodramático, no acto da fuga derrubava a árvore de Natal, mas a criatura não merecia tal tremendismo. E se achas que o pior já pensou, cogitas mal. Tentando emendar o faux pas, e preocupada com o meu desaparecimento fulminante, não obstante a terem tentado sossegar, a Maria Ana tratou de solicitar a minha presença, balbuciando uns piedosos “bichinho, bichinho”. Sabes bem como me irrita quando me tratam assim! O meu nome é Fred! Quem diria que por trás deste pretensioso Maria Ana se escondia uma saloia? Perdão! Uma saloia, não, que tem dignidade e merece respeito! Uma bimba! É o que ela é! Claro que pouco depois saí do meu recanto seguro, mantive uma distância de cerca de três metros (ela é mais perigosa que o coronavírus…) e tratei de me refastelar, permanecendo ainda assim bem alerta às manobras dela. Assoberbada pelo remorso, a criatura descaiu-se, comentando que eu a estava a fixar demoradamente. Que devia estar receoso ou traumatizado, ou, em alternativa, zangado. Seria tranquilizador se alguém explicasse à Maria Ana que graças à membrana nictitante eu não preciso de pestanejar tão frequentemente para evitar os olhos secos. E é isto que explico o magnetismo do olhar felino, que há quem ache enigmático e quem ache sinistro. Ainda bem que ninguém o fez. Não quero que a tranquilizem; quero-a inquieta. Está bem, admito. Quando quero, sou mau. O inconveniente é que ser mau deixa-me exausto. Acho que vou dormitar. Posso não ter a cama Swing da LucyBalu como a Choupette, mas tenho melhor. Tenho duas: a minha e o teu lado da cama.

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Do meu posto de observação, no parapeito da janela, assisto a dois tipos de curtas-metragens: ou ruas desertas de gente ou um soturno Carnaval em Dezembro, com gente exibindo umas máscaras que assustam a criatividade em nome da segurança. Para ser rigoroso, um ou outro exemplar da vasta galeria de humanos arrisca na inovação. São os que usam o acessório no queixo, por exemplo, ou os que deixam o nariz a descoberto. Outros ainda, portadores de máscaras sociais, inovam no tecido e nos padrões, mas a variedade não faz esquecer a ameaça subjacente. Os encontros na rua são furtivos, prudentemente distantes, por vezes deixando que a voz transporte o calor dos gestos que se evitam ou recusam. Muitos deles dedicam-se a passear os cães (quando não são selvaticamente rebocados por animais possantes com fúria de liberdade…), ao passo que outros também se dedicam a uma actividade chamada desporto. Que muitos prefiram correr desalmadamente em vez de se refastelar a dormir ou a descansar ultrapassa a minha capacidade de entendimento…A Maria Ana, a dita cuja, não aprecia o jogging, pelo que neste aspecto particular não acompanha o Pedro. Parece que é praticante de Pilates. Haja alguma coisa que a eleve aos meus olhos. Ouvi dizer que a maior parte dos exercícios de Pilates são executados com a pessoa deitada, o que me parece um franco progresso. Desporto deitado já me parece tolerável.

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Que será que vou receber de presente? Uma daquelas camas com ventosas que se podem prender às janelas para melhor apanhar sol? Um snack estaladiço com recheio de salmão? Um coffret com champô e condicionador? Pelo tamanho não consigo perceber. Já fui discretamente remexer o embrulho, tentar avaliar o peso e se chocalhava. A envergadura não diz nada. Pode ser um daqueles presentes-matriosca, com uma caixa dentro de outra caixa e assim sucessivamente. Não fui assim tão discreto na empreitada, pelo que acabei admoestado e escapuli-me com o rabo entre as pernas. Não por medo, claro está, mas por vergonha, porque fui incompetente e apanhado em flagrante delito. Como um rato reles e impaciente. Enfim, é Natal e ninguém leva a mal. A casa está menos agitada, com menos pernas para contornar ou envolver (e também menos crianças excitadas que acham que a minha cauda é uma espécie de liana preparada para ser manipulada a seu bel-prazer). A Maria Ana não vem. Passa o Natal com a família dela, naturalmente. Também não faria sentido que viesse. Cá entre nós, deixa-me que te diga que acho que o Pedro vê nela apenas um placebo para o desamparo, ou um daqueles medicamentos SOS que os médicos prescrevem para as dores mais insuportáveis. Não há qualquer risco da drageia Maria Ana causar habituação e o único efeito secundário provável é o reavivar da nostalgia. Ela não é feita do material do qual as sucessoras emergem. É esta a minha opinião definitiva, embora tenha de admitir que acho que dificilmente alguém estará à tua altura. Não se trata do exagero da admiração, trata-se de uma evidência irrefutável. Tão irrefutável como o espírito de Natal. Não quero saber dos que acenam com o consumismo ou com a frivolidade dos enfeites. Não há como negar a força da corrente que liga quem percebe partilhar um destino comum ao qual é indispensável um módico de afecto e solidariedade. Eu ia evocar o humanismo, mas que sei eu do humanismo? Eu sou apenas um simples (e ao mesmo tempo esplendoroso, concedo…) felino. Já em relação ao afecto, sinto-me com legitimidade para o invocar, mesmo que o pratique com irregularidade e ao sabor dos meus caprichos. Hoje, esparramado junto a uma fonte de calor, embalado pela música das palavras, sublinhadas pela percussão dos talheres e dos copos que se tocam, aconchegado pela tribo humana reunida à volta da mesa natalícia, sinto um pouco menos a tua falta. Perdoas-me? É que aquela dor aguda, persistente e desorientadora foi substituída por uma melancolia apaziguadora. Graças aos trezentos milhões de neurónios que possuo (quase o dobro dos neurónios dos cães, essas criaturas medonhas claramente sobrevalorizadas…), e à minha intensa devoção a ti, permaneces viva na minha memória, que é por natureza selectiva e episódica, e presente nesta reprise do Natal da tua ausência.

 

Imagem: Rosa Bebb (freevintageart.com)

 

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