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NO VAGAR DA PENUMBRA

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SPINNINGVIVA - INFORMAÇÃO CHAVE NA MÃO

Novembro 16, 2025

J.J. Faria Santos

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Terá havido um momento-chave em que o Governo decidiu pela relevância de fornecer informação “chave na mão” aos jornalistas, apostar na produção de conteúdos e profissionalizar a gestão das redes sociais. A expressão “chave na mão” é tão ampla que os mal-intencionados poderiam deduzir que o Governo se prepara para proporcionar aos jornalistas os meios para a sua própria descredibilização, a caminho de uma espécie de obsolescência programada. Afinal não foi Hugo Soares que declarou enfaticamente: “São falsas muitas das notícias que são publicadas em muitos jornais que são todos os dias vendidos aos portugueses”?

 

Temos, felizmente, um primeiro-ministro empenhado (“empenhadíssimo”) em “valorizar o trabalho” dos órgãos de comunicação “tradicionais”, desejoso de “incentivar” o jornalismo capaz de “contrariar a desinformação, as fake news e a manipulação desregrada que pulula nas redes sociais, com a aparência de jornalismo” (artigo de opinião no Expresso em 11/10/2024). Seguramente que alguém com este caderno de encargos não pactuará com uma qualquer “informação” institucional “chave na mão” que pretenda ter uma “aparência de jornalismo”. Infelizmente, como acontece com uma miríade de assuntos, Luís Montenegro tem uma flexibilidade argumentativa que evita a cristalização da opinião. No mesmo artigo, confessou achar as redes sociais uma “poderosa ferramenta de comunicação directa”, cuja “utilidade” admite não desconhecer. Trata-se, portanto, de um território comunicacional carregado de desinformação e manipulação, mas verdadeiramente útil.

 

Que não haja confusão! Não se trata de uma “central de comunicação”. A coisa denomina-se “direcção de serviços de comunicação institucional” (diz o Público de ontem; em 31 de Outubro passado, o Expresso chamava-lhe a “recém-criada [para todo o serviço] Secretaria-Geral-Adjunta para a Comunicação Institucional). Não é uma “estrutura politizada”, garante fonte governamental ao Público, assacando-lhe a “obrigação de responder e informar com transparência”. A ser assim, tratar-se-ia de um verdadeiro progresso. Tirando as aparições governamentais programadas de cariz propagandístico e as respostas sui generis do PM (“eu respondo áquilo que entendo que é aquilo que devo dizer ao país”), “responder e informar” são práticas que têm vindo a ser vítimas da avareza dos governantes.

 

Apesar de não ser uma “estrutura politizada”, uma das suas funções será a de medir a “percepção e o impacto das medidas do Governo”. “Um Governo competente tem isto”, explicou o ministro Leitão Amaro. Se o primeiro-ministro alardeou há um ano a vontade de valorizar os mass media tradicionais, o que prevalece agora é a “comunicação directa”, ou “comunicação desintermediada”, conforme declararam fontes governamentais. Não sabemos se as mesmas que, retoricamente, questionaram o Expresso: “Vamos entregar o Estado às mãos dos jornalistas e não fazer nada?”, ou que, desassombradamente, afirmaram que “o jornalismo não pode tudo nem está acima de tudo”. Claro que “tudo” isto pode ser fake news. Como diria o azougado Hugo Soares: “Mas que fontes são estas? Posso acreditar nas notícias? Mas quem são estas pessoas? (…) Terão sido inventadas?”

 

Uma das funções desta direcção de serviços de comunicação institucional será, de acordo com o Público, a de elaborar as “chamadas fact sheets”, um documento conciso, que resume os aspectos essenciais de determinado tópico numa linguagem clara e acessível. Algo que raramente se “vislumbra” nas declarações do primeiro-ministro. Confiemos que esta direcção terá o talento para evitar transformar uma fact sheet numa fact shit.

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