A GRAMÁTICA CONTEMPORÂNEA DO ÓDIO
Novembro 09, 2025
J.J. Faria Santos

“Portas escancaradas”. “Reengenharia demográfica”. “Portugueses de ocasião”. “Hoje Portugal ficou mais Portugal”. Expressões que são verdadeiros contributos para aquilo que, no Público, António Guerreiro apelidou de “gramática contemporânea do ódio” aplicável ao discurso sobre a imigração. A manobra política de Montenegro (da qual fez parte a encenada – não sabemos se com o contributo do especialista em styling do ministro Pinto Luz – comunicação ao país com o exclusivo da bandeira nacional) pretende obter dois efeitos: cooptar e canibalizar o discurso do Chega e, simultaneamente, tentar neutralizar a ameaça Passos Coelho, um crítico dos “cálculos eleitorais”, das “preocupações distributivas e das “habilidades orçamentais “ do primeiro-ministro e um cidadão colossalmente atormentado pela perspectiva de os “portugueses se sentirem estrangeiros na sua terra”.
“Uma coisa é ser patriota, outra ser nacionalista e xenófobo” (Pacheco Pereira). Estará o PSD “ao mais alto nível a macaquear as teorias da ‘grande substituição’, defendidas pelos partidos nacionalistas e populistas, que querem preservar uma ‘Europa branca e cristã’” (Teresa de Sousa)? Ao deslocar a discussão para o “território da emoção e da irracionalidade” estará o Governo a “mover o combate político para o campo em que [o Chega] é mais eficaz” (Pedro Norton)? Teresa Violante escreveu no Expresso que a nacionalidade “não é uma medalha para imigrantes suficientemente dóceis ou aculturados. É um instrumento que transforma estrangeiros em membros plenos da comunidade política”. E acrescentou que “a Constituição não hierarquiza cidadãos. O artigo 13º proíbe a discriminação por origem. Não há “portugueses de primeira” nem “’de ocasião’”.
André Ventura já disse querer rever a Constituição e instituir a Quarta República. Alimenta um discurso securitário racista e xenófobo, que, em termos gerais, é incompatível com a matriz social-democrata do PSD e com a sua visão europeísta e cosmopolita. E mais ainda com o personalismo cristão advogado por Sá Carneiro, o político que Ventura adora citar. A dissolução do “não é não” de Montenegro, a cavalgada retórica mimética dos slogans do Chega, a primazia das percepções sobre os factos e a preferência por acordos políticos com o partido de Ventura confirmam a deriva radical do PSD de Luís Montenegro. O primeiro-ministro poderá, com natural satisfação, dizer que tal corresponde à vontade do eleitorado, porém, citando Miguel Poiares Maduro, “os votos trazem legitimidade, mas não necessariamente razão”.