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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O TRIUNFO DOS DEPLORÁVEIS DE BEM

Março 24, 2024

J.J. Faria Santos

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O povo costumava ser sereno. Agora, graças aos detergentes do Chega, que se propõe “limpar Portugal”, a indignação do povo puro contra a elite corrupta (Cas Mudde dixit) viu-se amplificada para um batalhão de 50 homens, a maior parte a fazer a recruta. A civilidade e a boa-educação costumavam ser activos valorizados, mas agora são vistos como sinónimo de hipocrisia. O povo está cansado, desiludido, em modo de protesto. E o protesto, dizem os branqueadores dos detergentes, tende a ser ruidoso, agressivo q.b. e, cada vez mais, inorgânico. O comportamento da bancada parlamentar do Chega, passado, presente e futuro, assinalará a tomada efectiva do poder pelo povo (isto é, de uma certa visão do povo), um lugar de osmose entre os representados e os representantes.

 

Uma pequena amostra: uma deputada negra, em plena manhã parlamentar, a ser saudada com um “Boa noite, senhora deputada” (um involuntário lapsus linguae, certamente…); imitação dos “grunhidos de um porco” quando uma deputada passa pela bancada dos detergentes (porventura um desconforto ou uma inoportuna obstrução nasal…); uma deputada comparada a um “peixe-balão” (obviamente um estímulo à adopção de um regime alimentar mais saudável…) e outra apelidada de “senil” (uma forma pouco subtil de, digamos, apontar a pouca jovialidade dos argumentos da oponente); apupos e apartes sistemáticos e ruidosos, uma deputada a ser aconselhada a não frequentar o bar, um assessor de um partido político rival ameaçado fisicamente. Estes exemplos citados num artigo da revista Sábado exemplificam o modo de actuação da bancada parlamentar do Chega, que cita um ex-militante a justificar a importância do “máximo ruído possível” na AR, porque “faz toda a diferença na televisão”. Foi contra esta estratégia que Augusto Santos Silva, na qualidade de presidente da Assembleia da República, se insurgiu em defesa do regimento, do decoro, do civismo e da democracia. Mas para os comentadores auto-intitulados “furiosamente anti-socráticos”, como é o caso de João Miguel Tavares (Público – 23/03/2024), “a não eleição de Santos Silva é uma grande vitória da democracia”, visto tratar-se do “homem que fez tudo para manter Sócrates no poder; (…) para suprimir a voz daqueles que se lhe opunham” (?). A vitória do Chega, diz ele, é “o grito do bárbaro” que estava amordaçado, e a derrota de Santos Silva “um justo castigo dos céus”.

 

Esta formulação punitiva e com um travo religioso ajusta-se à retórica de Ventura. Afinal foi ele que escreveu nas redes sociais: “Deus confiou-me a difícil mas honrosa missão de transformar Portugal”. Esqueçam a possibilidade de blasfémia ou de invocação do nome de Deus em vão. Com 49 apóstolos em adoração, André, o Venturoso, promete fazer jus ao lema Deus, pátria, família, trabalho, ruído. Num partido tão amigo da ordem e de penas agravadas, não se estranhe que lá caibam, como escreveu Miguel Carvalho no Público em 25/02/2024, “os que atiram a matar, agridem imigrantes ou assaltaram caixas de esmolas”. É que o deus Ventura é infinitamente misericordioso e este é o tempo dos deploráveis de bem.

MARCELO QUIS, O CHEGA SONHA E O PSD RENASCE?

Março 17, 2024

J.J. Faria Santos

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Marcelo era um homem preocupado, por causa da “maioria requentada”, da execução insuficiente do PRR e da ausência do mirífico reformismo. Está-se mesmo a ver que, agora, com o seu partido no poder (finalmente), com uma vitória “poucochinha” dependente do populista de extrema-direita, com um governo previsivelmente com vocação eleitoralista, orientado para a manutenção do escasso poder, amarrado à promessa de satisfazer todas as corporações, agora sim, é que vamos ter um executivo com ímpeto reformista.

 

Marcelo, o dissolvente politicamente dissoluto, sabia ao que ia. Especialista em ciclos e mini-ciclos, não hesitou em trocar uma estabilidade robusta pela possibilidade de explorar o descontentamento de camadas do eleitorado para catapultar os seus correligionários para o poder, encarando a ascensão dos extremistas como um dano colateral aceitável.

 

Ainda o cadáver do governo cessante não arrefeceu e já os herdeiros putativos se apressam a reclamar os despojos (como disse de forma inesperadamente eloquente o Correio da Manhã: “Cofres cheios à espera de Montenegro”). O cabeça-de-casal ainda não coligiu a declaração de bens nem procedeu à habilitação de herdeiros, mas o responsável pela certidão de óbito, com um notório apego à vida, já se prepara para dar à luz uma nova solução. Como escreveu o semanário oficioso da Presidência da República, o objectivo é “descomprimir o ambiente”.

 

Com um retumbante direita volver, os eleitores escolheram a mudança pouco segura e atingiram o porta-aviões do bipartidarismo, premiando a retórica vazia do populismo. Há quem, na senda da magistratura dos afectos do PR, prometa acarinhar os eleitores do partido da extrema-direita. Respeitar eleitores e eleitos é uma coisa; saudar escolhas assentes no protesto, sem propósito construtivo, e premiar protagonistas da incivilidade e de propostas desprovidas de seriedade e atentatórias da vida em democracia é outra.

 

Em democracia o direito a escolher é sagrado. Tal como deve ser a responsabilidade que é inerente. Se o resultado é o produto das circunstâncias e da oferta disponível, compete aos actores mais votados construir uma solução que respeite a vontade popular. E aos eleitores cabe aceitar, e depois avaliar, o resultado da vontade colectiva expressa nas urnas.

 

Repetidas vezes foi afirmado que os portugueses se teriam arrependido da maioria absoluta concedida aos socialistas em 2022. Não consta, até ao momento (é demasiado cedo, porventura), que haja um sentimento idêntico em relação aos 18% do Chega. Mas Portugal ainda não está transformado na loja do mestre André. A tal onde se pode comprar um pifarito, um reco-reco ou uma sanfona. Sanfona, aliás, tanto pode ser um instrumento musical de cordas como uma pessoa desprezível. Marcelo, de quem se sugeriu ter querido ser o popular que esterilizasse o populismo, escancarou as portas à extrema-direita em nome do regresso ao poder do seu partido. Deve ser a isto que se chama de sentido de Estado.

O FALSO ÓNUS ÉTICO

Fevereiro 11, 2024

J.J. Faria Santos

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Para a generalidade dos comentadores, a vitória do PSD nas eleições regionais dos Açores teve o efeito de transferir para o PS o ónus ético da contenção do Chega. Um voto contra o Governo minoritário de Bolieiro significaria empurrá-lo para o colo do Chega. Mas se um compromisso moral unilateral é o pináculo, na acção política, a arte do compromisso por excelência, é aconselhável que se opte pela ética da reciprocidade, se mais não fosse por uma questão de coerência e boa-fé. Bolieiro já recorreu ao colo do Chega quando se socorreu de um acordo de incidência parlamentar com este partido para se apresentar como alternativa a uma força política que ganhou as eleições em 2020. Não tem moral, agora, para exigir que o resgatem da ameaça da extrema-direita que já acolheu porque lhe foi conveniente. Como, aparentemente, André Ventura deixou cair a exigência de integrar o executivo açoriano, mesmo tendo em conta a autonomia insular, é credível que Bolieiro possa reeditar o acordo da legislatura anterior, agora numa posição reforçada com a vitória nas eleições. Nada de novo, portanto.De resto, como defendeu Pacheco Pereira em artigo no Público, se o objectivo do PSD era obter a abstenção do PS deveria negociar com este um “acordo mínimo que garanta uma qualquer estabilidade à governação”. Porquê? Porque “para existir seriedade política, não basta empossar um governo que depois fique nas mãos do Chega para a governação quotidiana”.

 

Se, à direita, há quem pretenda alistar o PS para afastar o partido de Ventura do poder, também há quem celebre o fim das chamadas “linhas vermelhas”. O argumento principal é o de que com a divisão do espectro político em dois blocos os extremos de ambos os pólos ficaram legitimados, doutra forma ficaria em risco a alternância democrática. O problema essencial desta linha de raciocínio é que parte de uma falsa equivalência entre os extremos. Não há equivalente à esquerda ao discurso racista, xenófobo e misógino do Chega. Ninguém como este partido ataca a imigração, faz cercos a sedes de partidos ou transforma a sua actividade parlamentar numa discussão de taberna entre o bullying e a grosseria. Ninguém como este partido recorre, alegando depois inocência, a gestos e comportamentos associados a regimes fascistas e ditatoriais. Nenhum recorre de forma sistemática à demagogia despudorada e à mentira compulsiva. Nenhum como este constitui um risco evidente para a democracia. É um problema para a direita? Claro que sim, menos, presumo, para aquela que com ele aceita partilhar poder ou influência.

 

Mas também é um problema para a esquerda. Não só porque acarreta um efeito de radicalização da direita democrática como também tem mostrado capacidade de penetração no eleitorado tradicional daquela. Entrevistado pelo jornal Setenta e Quatro, o jornalista Miguel Carvalho declarou: “O Chega está muito bem representado em todas as escalas da sociedade e nos diversos sectores laborais. Encontrei gente que teve um percurso político à esquerda — inclusivamente candidatos autárquicos do BE e do PCP — e até sindical, em alguns casos na CGTP. Só assim seria possível o partido crescer. De facto, com a sua narrativa, o Chega abraçou todos os setores, em todo o território nacional, que se sentem representados não por tudo o que o Chega defende, mas pelo menos por uma parte.” Os deserdados do regime apostam na capacidade disruptiva do Chega na ilusão de verem mediatizados os seus agravos, num impulso contestatário que, mesmo que direccionado para os alvos errados ou cavalgando argumentos falsos, lhes dêem esperança de verem reconhecidos os seus agravos.

 

Em época de Carnaval, de acentuado jogo de máscaras, convém ter cautela para que os aparentes gestos grandiosos não tenham como resultado a entrega a forças antidemocráticas do monopólio da mobilização do protesto e da corporização da alternativa.

 

AI, CHEGA, CHEGA, CHEGA, CHEGA O MEU SOUNDBITE!

Janeiro 29, 2023

J.J. Faria Santos

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André Ventura, a fazer fé da descrição do Diário de Notícias, garante que “"há um único partido que lidera a oposição, que eleva os 'soundbites'" no parlamento, "que se irrita e se enerva, como todos os seres humanos, porque sofre" as "dores que os portugueses estão a sofrer em casa". Talvez seja esta mistura de megalomania, superficialidade e empatia esforçada e/ou parasitária que explica o comportamento de carroceiro que o grupo parlamentar do seu partido exibe no Parlamento.

 

Como bem descreve a jornalista Bárbara Reis em artigo do Público de ontem, os deputados do Chega viram-se envolvidos em vários casos de violência, física e verbal, que incluíram ameaças, empurrões, cabeças encostadas e agressões físicas, ocorridos nos corredores ou em gabinetes da AR. Já no plenário, o comportamento inclui apartes ruidosos, gargalhadas, tiradas ofensivas e gesticulação ostensiva num desrespeito atroz pelos restantes deputados e pelo Parlamento. Bárbara Reis citou Carlos Guimarães Pinto, parlamentar da IL, que afirmou: “Não falam para o lado num tom de voz normal. Gritam.” O que talvez permita concluir que a asserção do primeiro-ministro com referência aos “queques que guincham” errou o alvo; são os “cheganos” que guincham.

 

Não deixa de ser curioso que um partido que, no que diz respeito às forças de segurança, defende uma política que  promova “uma cultura cívica do respeito pela instituição e seus agentes” se comporte na AR como uma associação de arruaceiros. Aliás, o Partido Chega é uma espécie de organização fora-da-lei, cujos estatutos, segundo o Tribunal Constitucional, demonstram “problemas de transparência”, “restrição à livre expressão” e uma “significativa concentração de poderes” no seu líder.

 

O Chega adoptou a firma André Ventura Unipessoal, limitada na clareza, consistência e coerência das suas propostas e ilimitada nas suas ambições. O grande líder clareia a voz, alarga os gestos, estica o pescoço, saca de recortes de jornais, torce a estatística, carrega na demagogia e solta os soundbites, que se “elevam” no Parlamento como se fossem palavras do Deus, por amor a quem, em tempos idos ele se mortificava, usando “materiais religiosos de castigo, como o cilício”. André Ventura é tudo e nada ao sabor das conveniências, com princípios maleáveis e convicções descartáveis. Jorge Castela, colega de faculdade que Ventura contactou com a ideia inicial de “formar um partido próximo do 5 Estrelas italiano”, descreveu-o nestes termos ao Expresso, em Março de 2021: “O André não é racista, fascista, homofóbico ou xenófobo, é um político inteligente, que sabe fazer a leitura das discussões de café. Ele é um surfista. Cavalga a onda que é importante para conseguir captar eleitorado. Não interessa o quê.” Um dia destes, ao executar manobras como o floater ou o aéreo, pode ser que o surfista acabe engolido pela onda.

O PACTO DE NÃO-AGRESSÃO E O RACISMO TEMPERAMENTAL

Outubro 02, 2022

J.J. Faria Santos

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Já sabíamos que o líder do Chega tinha sido condenado por ofensas ao direito à honra e ao direito de imagem, numa sentença onde foi reconhecida pelo tribunal da Relação de Lisboa “a vertente discriminatória em função da cor da pele” presente nas declarações ofensivas. Agora foi a vez de um dirigente da Iniciativa Liberal, Jorge Pires, utilizar uma expressão racista num tweet para se referir ao primeiro-ministro. Posteriormente, Jorge Pires apagou o tweet e, em declarações ao Observador, pediu “desculpa a quem se possa ter sentido ofendido” (aparentemente, não especificamente ao directamente ofendido) e justificou-se com o facto de ter uma “personalidade temperamental”. Quanto à IL, desvalorizou o que apelida de “questiúnculas ou excessos individuais nas redes sociais”, embora condene tratamentos discriminatórios. Portanto, desde que o excesso seja “individual” e nas “redes sociais”, há rédea solta para o racismo, e o liberalismo continuará a funcionar, mesmo quando comete uma falta.

 

Se do partido de Ventura já nos habituámos a declarações de teor abertamente discriminatórias, racistas e de teor troglodita, no caso da IL o que sobressaía era a propaganda activa das mais desbragadas (e até desacreditadas) teses económicas ultraliberais e uma alucinada crença na trickle-down economics. Não sei se esta contaminação resultará do alegado pacto de não-agressão entre PSD, IL e Chega que o Nascer do SOL anunciou estar a ser preparado pelas segundas linhas dos partidos. Nas cogitações do jornal, o apoio do PSD à eleição do candidato do Chega a vice-presidente da AR terá sido o primeiro sinal do “conluio”, que poderá ter como momento-chave a eleição de Passos Coelho para a Presidência da República. O que é certo é que José Miguel Júdice já deu a sua bênção à recomposição da direita, declarando ao Nascer do SOL que não vê “nenhuma dificuldade, se o Chega largar temas completamente fraturantes, como a questão dos ciganos e da castração química, e passar a ser um partido inserido no sistema político”. Se virmos bem, ninguém está em melhor posição do que Júdice para ilustrar esta caminhada do extremismo e do ostracismo para a respeitabilidade.

 

Este rassemblement da direita, rasurando tabus em nome do poder, e a sua crescente apologia, tornará inquestionável aquilo que Pacheco Pereira escreveu no Público, e que há muito me parece evidente, ou seja, “que o argumento de que há uma ‘hegemonia cultural da esquerda’ tem uma função vitimizadora, mas é uma completa falsidade”.

CHEFE, MAS POUCO

Novembro 21, 2021

J.J. Faria Santos

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André Ventura, já se sabia, é líder de uma sociedade política unipessoal, com uns estatutos manhosos e uma doutrina pouco consistente que alimenta uma acção política flutuante. O que é surpreendente é a contínua sabotagem da sua autoridade, trunfo inalienável para um líder da extrema-direita. É chefe, mas pouco. Goza de votações norte-coreanas, mas às vezes tem de ir às lágrimas até conseguir eleger a sua direcção.

 

O partido é temperamental, sanguíneo, delira com as propostas de castração química dos pedófilos (e 38 militantes apoiaram a moção que propunha a remoção dos ovários das praticantes da IVG) ou com o corte até 75% das pensões dos políticos, mas alheia-se das grandes proclamações ideológicas e das tiradas do vice-presidente Gabriel Mithá Ribeiro, que vê Marcelo encavalitado “no topo da pirâmide leninista da espiral do silêncio” (?) que afectará a direita portuguesa. O partido acolhe as propostas que celebram a primazia do instinto, a suprema sabedoria do senso comum, e quem, como Ventura, pregou o desdém pelas elites não pode esperar que a sua palavra seja encarada como ordem divina. (Mesmo que os congressos do Chega pareçam, na descrição de um podcast do Observador, um culto religioso, com “choro, ranger de dentes, homens de joelhos, militantes de braços no ar” e lágrimas). Desacreditadas as elites, como haveria o militante do Chega de reconhecer em Ventura um espírito iluminado incontestado? 

 

Adicione-se a este contexto o espírito independentista insular e temos o caldo de cultura para que o deputado do Chega no Parlamento dos Açores, José Pacheco, desautorize o seu líder, afirmando: “Aqui não há nem fantoches nem totós, nem nada que se pareça. Aqui não há criadagem. A última palavra será sempre minha”. Face a esta declaração com perfume de luta de classes, o intrépido Ventura viu-se forçado a transformar a decisão “fortemente definitiva” de retirar o apoio do Chega ao Governo Regional dos Açores num “cenário não fechado” fortemente indefinido.

 

Ventura pode ter um discurso fluido, combativo e apelativo, com forte projecção na comunicação social, mas o seu apelo populista e anti-sistema sofre um abalo cada vez que se vê forçado a recorrer aos contorcionismos tácticos que condena nos seus adversários políticos. Aos olhos dos seus correligionários ( e dos seus potenciais eleitores), é uma vergonha que ele recorra à linguagem e às manobras dúbias utilizadas pelos políticos. Enredado no seu percurso ziguezagueante, Ventura pode muito bem vir a descobrir que o joker do seu populismo galopante é insuficiente para ganhar o jogo do voto útil.

 

Imagem: Paulo Novais/Lusa (dn.pt)

AS POLÍTICAS DE CLARIDADE E O GUARDA-NOCTURNO SOFISTICADO

Julho 25, 2021

J.J. Faria Santos

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O candidato tem um slogan chamativo: Lisboa sem corrupção. Porquê? Porque ela está na “ordem do dia”. Como se combate? Com “políticas de claridade”, nomeadamente com a “abertura dos dossiers”, porque “muitos dossiers estão fechados e tudo se passa debaixo da mesa”. Quando o jornalista do DN faz notar que no ano passado, na comarca de Lisboa, foram registadas 9 acusações de corrupção, a reacção é lapidar: “Para as que existem, de facto, são muito poucas.”  Instado a avançar dados concretos, o candidato atira, entre o garbo e a inconsciência: “Dir-lhe-ei a seu tempo, quando puder confirmar isso. Não vou estar aqui a levantar uma lebre. A seu tempo saberão.”  Sendo um Chega um partido preocupado com as comunidades migrantes, que propõe o candidato nesta área? “Integração.” E que “medidas concretas”, insiste o jornalista. “As medidas concretas são integração.” Nuno Graciano defende a necessidade de rendas acessíveis nas várias zonas da cidade de Lisboa, mas questionado se sabe como funciona o programa Renda Segura responde prontamente: “Não faço ideia”. Informado de que se trata de uma forma de financiamento parcial das rendas, Graciano prontamente “concorda” com a ideia. E, a propósito, para que não se diga que não as tem, avança com a proposta de uma versão moderna do guarda-nocturno, “mais sofisticado”, para conferir tranquilidade e para “acudir em momentos de perigo”. Questionado acerca da sua proposta de restruturação dos transportes públicos, que enfrenta o obstáculo da Câmara não ter capacidade de intervenção sobre o Metro, Graciano parece o porta-voz de um Chega light: “Só nos podemos dedicar ao diálogo, não é? Única e exclusivamente.

 

A entrevista do candidato do Chega à Câmara de Lisboa ao Diário de Notícias é um compêndio soberbo de lugares-comuns, ignorância, futilidade  e prosápia. Cavalgando um passado de figura pública e gozando do apadrinhamento de Ventura, julga ser capaz de atrair votos prescindido de um programa estruturado e de uma noção elementar de gestão de recursos públicos em favor de banalidades habitualmente reservadas para as mesas do café ou para os bancos dos táxis. Mais tarde ou mais cedo, Graciano e Ventura perceberão que existe um limite para os ganhos eleitorais que a vacuidade e a exploração dos instintos mais primários conseguem alcançar. Mesmo que contem com o beneplácito implícito de guardiões do legado de Sá Carneiro ou com o incentivo expresso de quem lhes reserva o lugar de tropa de choque do assalto ao poder.

 

Imagem: magg.sapo.pt / Instagram

BONIFÁCIO E A BELEZA DE SALVAR FASCISTAS

Dezembro 22, 2020

J.J. Faria Santos

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Atente. Engatilhe a sua indignação. Prepare-se para usar a arma da petição. Sabia que está em cena uma peça que faz uma “chocante [e] implícita apologia da violência”, onde “o acto de matar ergue-se até ao elevado e sublime patamar do belo”? Felizmente, temos a historiadora M. Fátima Bonifácio para nos chamar a atenção para o “desaforo do título”, para “o sentimento de impunidade da esquerda” e, sobretudo, para a alarmante evidência de que “a ideia de violência revolucionária não morreu, apenas aguarda um momento oportuno para de novo matar fascistas” (Público, edição de 21/12/2020, artigo Matar fascistas).

 

A peça em questão intitula-se Catarina e a beleza de matar fascistas e tem texto e encenação de Tiago Rodrigues. A acção situa-se em 2028, num Portugal governado por uma extrema-direita em maioria absoluta apostada em ilegalizar sindicatos, instituir cercas sanitárias para os ciganos e desmantelar o SNS. Aquando da estreia em Guimarães, o encenador, citado pela Visão, fez notar que se trata de “uma peça que nos coloca num contexto imaginário, ficcionado, para pensarmos sobre as nossas vidas e sobre o que poderá ser o futuro se não tivermos cuidado e não refletirmos e agirmos no presente.” E acrescentou estar em causa uma “abordagem muito clara à ameaça da ascensão de populismos de extrema-direita, de tendência fascista” e à forma como a democracia se pode defender dessa “ameaça”. 22 representações da peça previstas para os primeiros meses de 2021 já se encontram esgotadas, facto certamente explicável pela adesão entusiástica da turbamulta de furibundos intelectuais de esquerda e de proletários sedentos de sangue, armados de alfaias agrícolas, prontos para esquartejar fascistas.

 

Bonifácio esclarece-nos, com uma clareza ofuscante, que a vida tem “corrido bem” a Tiago Rodrigues porque ser de esquerda “rende muito”, ilustrando esta premissa com a renovação do seu mandato como director artístico do Teatro Nacional e com a atribuição do Prémio Pessoa em 2019. É, aliás, do conhecimento público que o júri do Prémio Pessoa é uma corja de esquerdistas radicais. O mesmo pode ser dito de quem o galardoou com o Prémio Europa de Teatro em 2018 e da República Francesa que lhe atribuiu o grau de Chevalier des Arts et Lettres. E se não fosse a covid-19 (nem tudo é mau numa pandemia…), ele estrearia uma peça pela Royal Shakespeare Company baseada em dois livros do notório comunista José Saramago. Os indícios amontoam-se. É certo que foi nomeado para director do teatro em 2014 por Jorge Barreto Xavier, membro do Governo de Pedro Passos Coelho, mas quem nos garante que o secretário de Estado da Cultura não era um esquerdista aparentemente assintomático?

 

Mas a historiadora vai mais longe e mais rápido, iluminando com a sua clarividência as inúmeras e terríveis implicações de tolerarmos ou desvalorizarmos a noção da “beleza de matar”. É que, explica ela com uma linearidade assombrosa, “os assassinos do ucraniano, segundo a tese de Tiago Rodrigues, podem muito bem ter actuado impelidos por uma irreprimível sede de beleza”. Estaríamos assim, se não desvirtuo o pensamento de Bonifácio, muito perto de legitimar o assassinato de Ihor Homeniuk como uma espécie de arte performática.

 

Já dizia Oscar Wilde que “toda a arte é simultaneamente superfície e símbolo. Os que penetram para lá da superfície, fazem-no a suas próprias expensas. Os que lêem o símbolo fazem-no a suas próprias expensas.” Felizmente ainda existem pessoas corajosas como a historiadora, que não se deixam intimidar pela opacidade do símbolo, nem hesitam perante a sua aplicação empírica. Devemos estar todos gratos à professora doutora M. Fátima Bonifácio pela sua luta persistente e corajosa contra a barbárie esquerdista, a bem da nação e da preservação da fauna fascista. Principalmente aquela que na região demarcada do Chega pode ajudar a “terraplanar um território em que uma direita liberal e conservadora poderia assentar arraiais”, como ela escreveu num outro artigo, intitulado Desnorte. A minha única objecção é em relação ao termo “terraplanar”. Aterro e escavação parece-me um pouco sinistro, propício a evocações de violência e desordem, algo tão longe da tradição de uma conservadora de boa cepa.

 

Imagem: Inimigo Público/Marco Neves Ferreira

O PODER E O ESCRÚPULO

Novembro 22, 2020

J.J. Faria Santos

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Das várias acepções em que a palavra “escrúpulo” pode ser utilizada, destaco duas: “forte sentido moral” e “inquietação de consciência depois de cometer uma falta” (Infopédia). Ao dar a sua concordância ao acordo do PSD com o Chega nos Açores, Rui Rio desvalorizou o primeiro, ao passo que a leveza e o pouco rigor com que o justificou demonstram a ausência da segunda.

 

Em Janeiro de 2018, antecipando o seu mandato enquanto líder do PSD, Manuel Carvalho traçou no Público o perfil de Rio, escrevendo que “há nele uma mistura de convicção genuína na bondade das suas certezas e a crença numa predestinação para grandes feitos”. E acrescentou: “No homem comum que diz gostar de ser coexiste uma ambição que, em conjunto, o tornam ao mesmo tempo temível e frágil, inspirador e banal, visionário e provinciano, solidário e autocrata, austero e demagogo, afável e feroz”. Carvalho via o potencial PSD de Rio como “um partido que vai do centro-direita ao centro-esquerda”, porventura “um saco de gatos onde cabe tudo”, “uma amálgama da qual a personalidade de Rui Rio vai emergir”. Quase três anos depois sabemos que o “saco de gatos” não desdenha confundir-se com a extrema-direita e que o líder demagogo está a eclipsar o austero.

 

E a “amálgama” tornou-se problemática. Como argumentou um conjunto de personalidades (entre elas, Adolfo Mesquita Nunes, Francisco José Viegas, Miguel Esteves Cardoso, Miguel Poiares Maduro e Pedro Mexia) num manifesto intitulado A clareza que defendemos, não é admissível que a direita se deixe confundir com “políticos e políticas que menosprezam as regras democráticas, estigmatizam etnias ou credos, acicatam divisionismos normalizam a linguagem insultuosa, agitam fantasmas históricos, degradam instituições. A aceitação desta amálgama ideológica por parte das direitas democráticas constitui uma afronta à sua história e o prenúncio de um colapso moral.”

 

Um dos traços característicos das atitudes populistas é o menor grau de confiança nos media, frequentemente encarados como parciais e acusados de propagarem notícias falsas. Eis um aspecto que talvez una os líderes do Chega e do PSD. Thomas Jefferson pode ter afirmado que preferiria “jornais sem governo a governo sem jornais”, mas Rio não se coibiu de considerar, em 2013,  que a comunicação social tem “sido também uma das responsáveis da degradação do regime democrático em Portugal”. No ano anterior, considerando que tudo era permitido aos media, declarava que não era possível “continuar num regime democrático com a comunicação social sem ter balizas para a sua actuação”.

 

E o que balizará a acção de Rio face ao Chega? A entrevista concedida à TVI foi reveladora. “O Chega hoje é uma federação de descontentes, não é bem um partido cimentado”, explicou ele. “O tempo vai obrigar o Chega a ser um partido pela positiva”, prognosticou. O mais provável mesmo é que o ensaio de colaboração com o Chega tenha contribuído para a convicção de Rui Rio de estar mais próximo de ser primeiro-ministro. “Sim, isso acho que sim”, admitiu. É o perfume do poder a tentar abafar o odor a degenerescência moral. A busca legítima da alternância democrática não pode ser feita à custa da degradação do próprio regime.

 

Imagem: sapo.24

 

CONFINADAMENTE DESALENTADO

Novembro 15, 2020

J.J. Faria Santos

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Confrontado com a omnipresença mediática de figuras sem nenhum talento especial ou arte que as enobreçam, com a trivialidade e a encenação bacoca que alastram pelas redes sociais e com a relevância noticiosa atribuída a um partido unipessoal, cujo representante máximo se celebrizou por invocar a toda a hora um sentimento que manifestamente lhe falta, as palavras de Bernardo Soares (in Livro do Desassossego) parecem-me mais actuais que nunca: “Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação”.

 

Há algo de sinistro na expressão “seguidores”, que faz lembrar os stalkers (e a sua fixação patológica nos seus objectos de desejo); é preferível a designação fãs ou admiradores. Idealmente, seria de esperar que os admiradores procurassem notícias acerca da obra e dos projectos dos seus ídolos, porém, nesta época de simulação de proximidade e de encenação da vida privada e da vida íntima, o que desperta a atenção são publicações do género: “fulano revela que está apaixonado”, “sicrano surpreende mulher com viagem de sonho”, “it girl sensual exibe rabo incrivelmente tonificado” ou “modelo seminu mostra as suas tatuagens”. É a vida em directo, as temporadas sucessivas da série da vida irreal, o dia de cada um de nós no star system das nossas existências.

 

Enfadonho, seguramente, mas talvez não particularmente grave, se não nos distrair do essencial. Que é manter a decência e a humanidade em tempos de covid, desalento e já algum desespero, circunstâncias em que um verdadeiro artista (de que não sou seguidor, nem perseguidor, apesar da retórica abjecta que necessita ser combatida) se exibe em toda a sua miséria. O líder do Chega, que Francisco Assis definiu como um “charlatão” que elevou a “patamares quase demenciais” a “tarefa de afirmar tudo e o seu contrário”, concedeu uma entrevista à Lusa onde criticou Salazar porque “atrasou-nos muitíssimo em várias aspectos”. Antes, porém, foram retirados de uma estante no gabinete onde concedeu a entrevista vários livros acerca do ditador. Encenação, palavra volátil. O gesto é tudo para este artista português com um guião inspirado no populismo universal.

 

IMAGEM: "Family Walking Day" de Alena Shymcnenok (courtesy of Bert Christensen)

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