POR QUE RAZÃO TRUMP NÃO É TRATADO COMO UM DITADOR?
Setembro 07, 2025
J.J. Faria Santos

Donald Trump já declarou que a Venezuela “está a ser governada por um ditador”. Se Nicolás Maduro decidisse ripostar no mesmo tom, e usar uma retórica infantil ao estilo do presidente americano, poderia dizer: Quem diz é quem é! Alinhemos no jogo “descubra as diferenças”.
Maduro é acusado de não aceitar os resultados eleitorais e de ter cometido fraude. Trump mantém que venceu as eleições de 2020, inspirou e patrocinou o assalto ao Capitólio e à democracia americana, e pressionou o secretário de Estado da Geórgia para lhe arranjar 11 780 votos.
Maduro é acusado de perseguir os opositores, usando a violência e a tortura. Trump, em 2023, admitiu utilizar o FBI e o Departamento de Justiça (e até as Forças Armadas) para atacar os seus rivais políticos. Em Março deste ano, defendeu que os seus adversários deveriam ser presos.
Maduro é acusado de controlar o aparelho judiciário. Trump nomeou para o Supremo juízes marcadamente conservadores, mandou investigar o ex-procurador que supervisionou duas investigações criminais contra ele, despediu funcionários que trabalharam com o então procurador e diz que “um punhado de juízes de esquerda radical comunista” fazem obstrução à aplicação das leis.
Maduro é acusado de controlar e condicionar o acesso da oposição à comunicação social. Trump comanda uma estrutura descomunal de propaganda, desinformação e notícias falsas. Ameaçou retirar as licenças de radiodifusão a estações de televisão, alegadamente por fazerem uma cobertura “tendenciosa” da sua presidência, e processou meios de comunicação social. Pediu o despedimento de colunistas, barrou o acesso de agências de notícias à Casa Branca e ameaçou acabar com o sigilo das fontes jornalísticas.
Maduro deve a sua continuidade no poder ao apoio das Forças Armadas, nomeadamente o Exército, que se terá transformado numa extensão do governo, beneficiando do acesso a cargos estatais e de oportunidades na economia venezuelana. Trump, com falsos pretextos, aposta na militarização das ruas, colocando a Guarda Nacional a “restabelecer a lei, a ordem e a segurança pública”. Como Maduro, Trump promove e premeia os que lhe são leais, nomeando pessoas sem qualificações para determinados cargos, e persegue os que o contrariam ou, pura e simplesmente, cumprem com rigor a sua função, como foi o caso de Erika McEntarfer, directora do gabinete de estatística.
Maduro, para contrariar o isolamento e as sanções, intensificou as suas relações com regimes párias ou liderados por “homens fortes”, como o Irão, a China e a Rússia. Já Trump, por feitio, elogiou um Xi Jinping “forte como granito”, o “génio” Putin e até um Hitler que “fez algumas coisas boas”.
Por que razão Trump não é tratado como um ditador? A pergunta é retórica e a resposta é óbvia – porque é o presidente da principal potência económica e política do mundo. Além do mais, ele próprio declarou: “Eu não gosto de ditadores. Não sou um ditador. Sou um homem muito sensato e inteligente.” Mais claro não podia ser. Só um militante da “esquerda radical comunista” é que poderá pôr em causa a bondade destas afirmações. Ou aquele historiador argentino, Federico Finchelstein, que coloca Donald na lista dos “aspirantes a fascistas”.