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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

ALTA PRESSÃO - A VIDA COSTA!

Novembro 20, 2022

J.J. Faria Santos


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“Ai, Costa, a vida Costa!” era o bordão da série Malucos do Riso, programa de humor que consistia, basicamente, na encenação de anedotas. António Costa, jornalista, disse na CNN Portugal, a propósito do livro baseado em entrevistas ao ex-governador Carlos Costa, que este “é hoje um homem isolado e utilizado pela direita, nomeadamente o PSD”, para uma luta política com o PS. A coisa foi tão ostensiva e tão pouco subtil que levou a jornalista São José Almeida a considerar que “a sessão do lançamento do livro se transformou num comício do PSD”. Desde a tomada de posse de Carlos Moedas que a direita não saía em peso à rua (com a notória ausência de Paulo Portas, que não morre de amores pelo ex-governador). O “comentador” Marques Mendes liderou a sessão de propaganda, desafiando (pressionando?) o Ministério Público a abrir uma investigação criminal à venda do BANIF, por alegado “abuso de poder” e “favorecimento” do Santander. Carlos Costa, em entrevista ao mesmo canal, lamentou a ausência dos seus amigos de esquerda, facto que “desequilibrou a audiência”, seguramente uma deplorável falha na mise-en-scène.

 

Segundo o relato do Expresso, o tom e o conteúdo da intervenção de Marques Mendes foi interpretado por parte dos presentes como “o embrião de um programa de candidatura” presidencial. Mendes terá usado a táctica do 2 em 1- champô e endurecedor: limpou e branqueou o desempenho do ex-governador e endureceu a crítica ao primeiro-ministro em funções. A narrativa da direita foi abalada por declarações como as de António Lobo Xavier e, sobretudo, pela intervenção do Presidente da República, sublinhando que, em relação ao BPI, o interesse nacional foi salvaguardado e Isabel dos Santos afastada, tudo na decorrência de um processo em que se conjugaram decisões financeiras com considerandos políticos e ponderações acerca das relações entre Estados, no qual o próprio governador esteve envolvido.

 

Um detentor de um alto cargo que não saiba lidar com pressões não possui qualificações para o desempenhar. E ainda menos se encarar a sua área de actuação como região demarcada, imune a circunstâncias políticas, financeiras ou diplomáticas. Uma coisa é preservar a independência da instituição que dirige, outra muito diferente é encarar cada diligência ou contributo externo como uma ingerência intolerável. Apregoa uma das teses acerca das motivações para a elaboração deste livro que o objectivo de Carlos Costa seria o de ajustar contas com Mário Centeno. Com a narrativa das pressões, e com o takeover da sessão de lançamento orquestrado pela ala passista do PSD, o ex-governador conseguiu a proeza de ser peão de uma manobra política, provocar o rememorar do balanço entre o pouco abonatório e o desastroso dos seus mandatos e recolher os remoques e o desinteresse dos banqueiros. Na conferência “A banca do futuro”, organizada pelo Jornal de Negócios, o CEO do BPI, João Pedro Oliveira e Costa, comentou: “Já houve comissões de inquérito, já houve pessoas que não tomaram Memofante, devemos passar à frente, a história está contada no sentido em que os bancos estão bem.”

O PhD, O GERENTE, OS COSTAS E O BENTO DA BANCA

Novembro 13, 2022

J.J. Faria Santos

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O empresário Ricardo Moutinho disse ao Expresso que “não pagar impostos é uma metodologia comum”. Aparentemente, obter adiantamentos também. PhD (Para hoje, Depressa). O resto é uma amálgama de factos alternativos: uma sede inventada, um falso doutoramento, uma empresa que é apenas um “conceito” e uma actividade que consistiria basicamente em propor às autarquias soluções que lhes permitissem contornar os rácios de endividamento.

 

“É perfeitamente legítimo, em termos fiscais não existe problema nenhum”, defende Fernando Santos acerca da opção da FPF de celebrar um contrato de prestação de serviços não com ele, mas com uma empresa da qual ele é sócio-gerente. Como a dita empresa não distribui lucros, Santos é tributado pelo ordenado de gerente, 5 000 €, ou seja, pouco mais do que a remuneração de um assessor governamental. Ainda assim, não consta que o seleccionador tivesse dito que é uma “metodologia comum”.

 

Costa vs Costa no ringue dos média. O ex-governador do Banco de Portugal contra o actual primeiro-ministro. Carlos diz que António o pressionou para não afastar Isabel dos Santos do BIC, alegadamente porque “não se pode tratar mal a filha de um Presidente de um país amigo de Portugal”. O primeiro-ministro vai processar o ex-governador por causa de declarações “ofensivas do seu bom nome, honra e consideração”. Como o Governo Costa, no caso do BPI, fez publicar legislação que permitiu ao Caixa Bank ultrapassar o veto angolano (O Correio da Manhã titulou “Isabel empurrada para fora do BPI” e Marques Mendes, o explicador da nação, considerou estar em causa “uma violência enorme” contra a herdeira Dos Santos) é caso para nos interrogarmos acerca do conceito aqui em causa de “tratar mal”, que, no mínimo, não parece uniforme. De resto, é palavra contra palavra, e há sempre a hipótese de ter ocorrido um “erro de percepção mútuo”.

 

 “O trabalho dos bancos não é fazer caridade”, declarou o clarividente Vítor Bento, presidente da Associação Portuguesa de Bancos. O que não surpreende. Não é como se ele fosse membro da Associação Cristã de Empresários e Gestores. Por outro lado, mostra-se atento à semântica. Não aprecia que se diga que a banca “tem interesses”, porque “a palavra interesse tem uma carga negativa”. E confessa não saber o que são “lucros excessivos”. Como, felizmente para ele, não saberá o que é a pobreza extrema.

 

LE PORTUGAL EN ROSE

Fevereiro 06, 2022

J.J. Faria Santos

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Como Piaf, António Costa não se arrepende de nada e não se importa com o passado, porque a vida começa agora com os portugueses que lhe deram um Portugal en rose. Onde muitos adivinhavam cansaço do eleitorado e entusiasmo com a oferta da oposição, o sufrágio revelou a pujança do nome da rosa e a importância repetidamente afirmada em inquéritos de opinião de um líder que transmite confiança, segurança e competência.

 

Duas evidências que se viriam a confirmar: os portugueses apreciaram a geringonça e tenderiam a castigar eleitoralmente os parceiros que chumbaram o orçamento. Algum descontentamento que Catarina Martins encontrou na campanha ia neste sentido. Os eleitorados do BE e do PCP valorizariam os contributos dos seus partidos para uma política de esquerda, mas veriam com desagrado algum fundamentalismo que tendia para a intransigência e para a rejeição do gradualismo na aplicação das medidas. A perspectiva de uma geringonça de direita agudizou o recurso ao voto útil.

 

O único mérito da campanha de Rui Rio (e não foi pouco) radicou na criação da ilusão da vitória e em ter conseguido reunir as tropas do partido, incluindo um Luís Filipe Menezes que um mês antes, em artigo no semanário Nascer do Sol, aludia à “bem oculta e cinzenta mediocridade enquanto homem de formação cultural mediana”, à “auto-suficiência sem sustentação” e à “tendência para os dictates e decisões prepotentes” do líder do PSD. Tivemos direito a um Zé Albino special guest star na campanha e a uma participação mediocremente ensaiada num programa televisivo, que não fizerem esquecer o erro capital de insinuar uma geringonça de direita com o Chega.

 

O sucesso da Iniciativa Liberal e do seu bordão de teatro de revista (“o liberalismo funciona e faz falta”), acompanhado de um estilo jovial, parece prometer um papel decisivo na reestruturação da direita, ainda para mais com o definhamento do CDS. Veremos se não acabará por tropeçar no excessivo proselitismo e na tenaz colagem a soluções que sob a aparência da liberdade condenam ao cárcere do desamparo e aos alçapões da meritocracia, e que apresentadas com o verniz da modernidade não passam de velhas soluções recondicionadas.

 

Costuma dizer-se que à dúzia é mais barato, mas o imperioso é que nenhum dos onze acólitos que se vão juntar a Ventura represente um preço demasiado alto para a democracia. Como representantes eleitos do povo português terão o seu espaço de intervenção e a liberdade de propor o que muito bem entenderem, mas não devem esperar qualquer tipo de permissividade ou complacência para com ideias que agridam o core business da própria democracia.

 

Já conhecemos as explicações dos especialistas. As sondagens são um “retrato do momento”, não são uma previsão. Há um grupo de eleitores que só decide na última semana ou no próprio dia das eleições. E há a questão técnica da distribuição dos indecisos. E, todavia, elas continuam a ser entendidas e comentadas (profusamente comentadas…) como se fossem estimativas do resultado. E, mais uma vez, falharam miseravelmente. As sondagens e os comentários.

 

A avalanche de comentadores que dissertaram nos diversos meios de comunicação social, mas sobretudo nas televisões, asseguraram a pluralidade de opinião, mas maioritariamente veicularam teses desfavoráveis ou abertamente hostis ao partido e ao líder que viriam a vencer. A possibilidade de vitória do PSD criou um frenesim mediático em que as inclinações pessoais contaminaram a análise e nublaram o brilhantismo analítico. Mas ainda antes, a 23 de Dezembro de 2021, já Clara Ferreira Alves escrevia que o PSD tinha ganho “aquilo que se chama momentum”, concluindo que “no dia 31 de Janeiro, Costa pode ter perdido tudo depois de perder a cabeça”. Faça-se justiça a João Miguel Tavares, que em meados de Janeiro titulava o seu artigo no Público com um definitivo “Porque é que Rui Rio vai perder as eleições”. A explicação era simples: “os portugueses ainda não estão suficientemente fartos de António Costa”. Pecou largamente por defeito. Uma indiferença a roçar o fastio não conduz a uma maioria absoluta.

ESTE DOMINGO HÁ DESEMPATE TÉCNICO

Janeiro 28, 2022

J.J. Faria Santos

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Rui Rio é católico, mas não crente, e decerto se acreditasse na sua ressurreição como candidato a primeiro-ministro seria com base na mais pura racionalidade. A menos que não tendo fé, tenha sempre uma fezada. A transfiguração do político tecnocrático com um perfil autoritário (com posições muito próprias acerca de dois domínios fundamentais do Estado de direito - a Justiça e a comunicação social) em afável cat lover com um humor esforçado e um trabalhado ar genuíno terá contribuído para a inesperado crescimento do PSD. Mesmo que nos derradeiros dias de campanha tenha ressurgido a figura conflituosa.

 

Outros dirão que o excessivo tacticismo de Costa terá contribuído para o encurtar das distâncias. A aposta inicial na maioria absoluta, procurando congregar a confiança do eleitorado central e dos descontentes com a pouca flexibilidade dos parceiros da geringonça, falhou. O plano B mais credível é o plano G de geringonça, o que levou Rio a considerar que os portugueses não irão “compreender” o regresso da solução. O líder do PSD parece ignorar que António Costa se apresenta ao eleitorado com um balanço que inclui, no contexto do combate à pandemia, uma campanha de vacinação bem-sucedida e um conjunto de apoios às pessoas e às empresas que minimizaram o seu impacto na sociedade e na economia. O seu legado é o de um crescimento económico acima da zona euro, de uma baixa taxa de desemprego e de contas públicas controladas.

 

A motivação para o eleitorado castigar o incumbente passa também (ou sobretudo) pelo perfil inovador e disruptivo do challenger. Que ideia inovadora ou galvanizadora propõe Rio? O propósito de “reorganizar o Ministério da Agricultura”? A “Revisão Constitucional Verde”? A prioridade da redução do IRC sobre o IRS?  A menos que seja a garantia de afastar o espectro da geringonça, que poderá atormentar os chamados eleitores moderados. Infelizmente para ele, a sua ascensão ao poder estará sempre dependente do liberalismo “moderninho” (como diria o Chicão) e delirante da Iniciativa Liberal (com escassos pontos de contacto com a realidade portuguesa) e, sobretudo, do beneplácito sob a forma de apoio ou abstenção do extremismo do Chega. O eleitorado dito moderado que se assustaria com a geringonça vai tolerar o populismo boçal, a retórica incendiária e fascizante e a instabilidade do Chega?

 

Apesar do empate técnico que as sondagens prenunciam, continua a ser significativamente superior o conjunto de inquiridos que reconhecem a António Costa qualidades superiores às de Rui Rio, e esmagadora a percentagem dos sondados que consideram que o PS, independentemente da sua preferência, vai vencer o sufrágio. Podemos no domingo à noite assistir a mais um dos épicos e inesperados triunfos de Rio? Podemos, mas o mais provável é os portugueses que oscilam entre os dois partidos de poder fazerem (permitam-me invocar o diabo) uma vénia à expressão de língua inglesa better the devil you know, escolhendo o Costa que conhecem há seis anos em vez de um Rio, colheita de 2022, descafeinado para efeitos eleitorais. A menos que o milhão de confinados ou o factor Zé Albino condicionem decisivamente o resultado das eleições.

 

Imagem: portaldoeleitor.pt

UM LONGO ADEUS OU UM DESPOJADO ATÉ JÁ?

Janeiro 02, 2022

J.J. Faria Santos

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Com 2022 a estrear-se no ecrã panorâmico das nossas vidas e com um Big Brother Políticos marcado para o final deste mês, amontoam-se pitonisas e astrólogos, videntes e médiuns na tarefa de adivinhar os acontecimentos que marcarão a nossa casa comum. O futuro do actual primeiro-ministro, dada a conjugação das estrelas mediáticas opinantes, parece sombrio. Daniel Deusdado escreveu no Diário de Notícias que “se torna difícil não se pensar que António Costa está de saída. Não se vê de onde possam vir os votos para o segurar”. Já Clara Ferreira Alves escreveu antes do Natal no Expresso que “no dia 31 de Janeiro, Costa pode ter perdido tudo depois de perder a cabeça”. E numa cedência pouco comum ao sentimentalismo sentenciou que “Costa perdeu muitos corações do PS que votarão em Rui Rio”, considerando que “o PSD ganhou aquilo que se chama momentum”.

 

Há ainda quem veja no comportamento do líder do PS uma certa resignação ou desprendimento, como se lhe competisse adoptar uma atitude mais combativa e agressiva na marcação da agenda mediática. Há quem veja nisto um sintoma de declínio, de percepção de derrota iminente. A questão é se o eleitorado central, que supostamente decide eleições, se reveria na bravata retórica ou se prefere a força tranquila. Como o próprio Costa referiu em entrevista a Anabela Neves, durante seis anos os portugueses acompanharam e avaliaram o seu trabalho. Para o bem e para o mal, conhecem-no. Será que a alternativa é assim tão aliciante, tão inovadora e disruptiva? E se não se quer a disrupção, mas sim a continuidade, Rio reúne um conjunto de qualidades de liderança que face ao incumbente constituem indiscutíveis mais-valias?

 

Uma sondagem do ICS e do ISCTE para o Expresso (edição de 30/12/21) inquiriu os participantes acerca das qualidades dos líderes do PS e do PSD. O resultado é largamente favorável ao líder socialista, visto como mais experiente (65% contra 14%), mais competente (46% contra 26%), mais honesto (36% contra 21%), mais simpático (53% contra 21%) e mais preocupado com as pessoas (43% contra 19%). Rio vence no capítulo da frontalidade (“diz mais o que pensa” – 41% face a 31%), mas, talvez consequência disso ou não, é percepcionado como menos ponderado (26%) do que Costa (48%). A questão é, pois, se o alegado momentum de que o PSD goza insuflará as qualidades do seu líder ou fará esquecer as suas debilidades, sendo certo que são inegáveis quer a sua capacidade de resistência quer o seu currículo de vitórias inesperadas.

 

No mesmo jornal, um artigo de opinião de Ângela Silva anuncia que “para o Presidente da República, Rio não é a solução” e que para Marcelo “adiar uma solução liderada pelo ‘pedronunismo’ é um objectivo”, enquanto espera pela ascensão de Moedas. Portanto, o Presidente que Clara Ferreira Alves considerou que “desapareceu de cena devido a complicações de saúde”, reapareceu rapidamente na plena posse das suas faculdades de encenador com prerrogativas de director de casting. Mas são os portugueses que vão decidir se ganha o António ou se ganha o Rui. No Big Brother Políticos de 30 de Janeiro, Marcelo limitar-se-á a envergar as plumas de mestre-de-cerimónias. Depois, mas só depois, será o pivot da solução política.

 

Imagem: multinews.sapo.pt

O INSENSATO INSENSÍVEL

Dezembro 05, 2021

J.J. Faria Santos

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De Eduardo Cabrita, disse o advogado Magalhães e Silva: “É um tipo reservado. E como qualquer pessoa que é reservada, de quando em vez dá-se a ataques de fúria.” (in Expresso – Revista de 17/11/2018). No mesmo artigo, um socialista anónimo acrescentou acerca da relação do ex-ministro com o primeiro-ministro: “São amigos e cúmplices. Mas Costa não hesita quando tem de lhe mandar dois berros.”  

 

É possível que a fúria de um e os berros do outro tenham pontuado os episódios que abalaram os mandatos de Cabrita, acossado pela oposição e pela imprensa, abalado por casos que implicaram perdas de vida, equipamentos defeituosos, decisões dúbias e afirmações polémicas. É possível que o seu carácter reservado e o seu estilo combativo tenham contribuído para criar o estereótipo do ministro incompetente, obscurecendo a forma eficiente como promoveu a reorganização do sistema de protecção civil ou como conseguiu apresentar baixos índices de criminalidade.

 

Na era da política dos afectos, da dor partilhada e dos gestos oficiais de expressão de pesar, tudo o que não respeitar os padrões das redes sociais é escasso e indiciador de desrespeito. O despacho do Ministério Público, acusando o motorista do ministro de homicídio por negligência, por conduzir em excesso de velocidade (sem que tal comportamento tenha sido instigado por qualquer sentido de urgência expressado pelo MAI) na faixa da esquerda, pode ter servido para aplacar os profissionais da indignação, logo exacerbados, porém, pela canhestra tirada do ministro a invocar a sua condição de “passageiro”. Mas a generalidade dos que exigem o cabal esclarecimento acerca das condições em que o acidente ocorreu não parecem interessados em clarificar o motivo que levou a vítima a atravessar a auto-estrada, algo que, como frisa Fernanda Câncio, “é expressamente proibido pelo Código da Estrada e, como fonte da Brisa assegurou ao DN, pelas regras de segurança concessionária”. Ou ainda, como a jornalista dá conta no mesmo artigo, avaliar o facto de haver quem defenda, como um perito em segurança rodoviária, que “as lesões sofridas por Nuno Santos e referidas na acusação não parecem compatíveis com a descrição que esta faz do acidente”. Questionar estas circunstâncias parece equivaler a atacar a vítima, a desrespeitar a sua memória.

 

De Eduardo Cabrita, jamais se esperaria, por exemplo, que falasse do fundo do coração. Ele que exibiu, nas palavras do director do Público, uma “horrenda falta de empatia”. O ministro podia ter-se demitido por erros de julgamento na sua acção política, mas não seria a mesma coisa. O coro das redes sociais e do comentariado exigia o atestado da sua insensibilidade. O insensato insensível fechou o ciclo.

 

Imagem: portugal.gov.pt

 

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