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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

PROGNÓSTICOS ANTES DO FIM DO JOGO

Dezembro 17, 2023

J.J. Faria Santos

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Os comentadores políticos adoram fazer prognósticos. Sacam das suas grelhas analíticas, “auscultam” o sentir do povo e desatam a desafiar a falibilidade e a lógica com conselhos e proclamações definitivas. E com 2024 à porta, que melhor altura para concorrer com videntes e astrólogos? Quando, em 8 de Janeiro do corrente ano, Ana Sá Lopes escreveu no Público – “Há uma – e só uma – possibilidade de o PS resistir às próximas eleições. António Costa demitir-se tão cedo quanto possível e ir fazer uma travessia no deserto para em 2024 ser escolhido para presidente do Conselho Europeu” – estava longe de imaginar um cenário em que, no dizer de Rui Rio, “o PM foi demitido pela PGR”. Nesse mesmo artigo, defendeu que Pedro Nuno Santos seria o mais bem colocado na corrida à sucessão, embora tal não garantisse a manutenção do poder socialista à frente do país. 11 meses depois, empolgada com a verve de Montenegro num congresso partidário, Ana Sá Lopes sintetizou o seu pensamento no seguinte título: “Montenegro ‘mata’ Passos, faz o seu melhor discurso e pode ganhar”. (Entretanto, hoje, já escreve no Público que “Montenegro não aproveitou o embalo do Congresso”.)

 

Apesar de tudo, e porventura na linha da tese clássica de que são os governos que desbaratam o poder e não é a oposição que o conquista, até ao momento não se vislumbra uma onda de entusiasmo pelas propostas de Montenegro. E não é certo como é que os eleitores ponderarão na cabina de voto factores como a crise da habitação, os constrangimentos na saúde, os aumentos nos rendimentos (pensões e salário mínimo) e a descida do desemprego, tudo isto no contexto das chamadas “contas certas”. Se para Ricardo Costa, a três meses das eleições, “o mais provável é o PS vencer as eleições”, para Francisco Mendes da Silva “Montenegro é hoje o mais provável futuro primeiro-ministro”.

 

Para um subgrupo de analistas, a alternância é um imperativo por si só. Por exemplo, Bárbara Reis, indignada com o dinheiro vivo de Vítor Escária, titulou uma das suas colunas de Novembro passado com um definitivo “O PS precisa de ir para a oposição”. Justificando esta asserção, explicou que o caso era “tão grave” que era importante apurar se esta “forma de vida faz parte da cultura do PS, (…) se a bioestrutura do partido está infectada”. Neste subgrupo há quem defenda a mudança para pior. Veja-se o exemplo de Henrique Monteiro no Expresso: “E se o outro lado é pior? Pode ser, mas o efeito de mudança pode e deve exercer-se.” E o eleitor comum, estará apostado em mudar para pior em nome da alternância?

 

E que papel desempenhará nas cogitações dos eleitores o legado de António Costa? Num artigo que até nem é lisonjeiro, Manuel Carvalho escreveu no Público que o actual primeiro-ministro “não deixa de ser uma referência de estabilidade, ponderação e contas certas”. E acrescentou que “não há grandes razões para celebrar a queda. Pelo contrário, é muito provável que ainda venhamos a ter saudades de António Costa”.  Talvez não seja caso para tanto. É que ele vai andar por aí.

MINISTÉRIO PÚBLICO APRESENTA: A SUSPEITA

Novembro 13, 2023

J.J. Faria Santos

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O Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público garantiu ao Expresso ter “a certeza que tanto a procuradora-geral como o procurador que tem o caso foram apanhados de surpresa com a demissão de António Costa”. Porquê? Porque “numa fase muito inicial, de inquérito, em que não há qualquer presunção ou juízo de culpa por parte do Ministério Público, não é razão suficiente para um primeiro-ministro pedir a demissão”, disse. E acrescentou: “Há chefes de Governo no estrangeiro que estão a ser investigados e não se demitem.” Portanto, a sibilina nota final no comunicado da PGR seria uma adenda meramente informativa, apenas e só porque “a mera suspeita de um crime terá sempre de dar origem a um inquérito judicial” e Deus livre o MP da suspeita de proteger o PM. A leveza, sobranceria ou leviandade com que o MP considera natural o cenário de um primeiro-ministro sob suspeita ad aeternum parece o outro lado do espelho da irresponsabilidade e do sentimento de impunidade com que os putativos criminosos encaram o seu métier.

 

Para o comum dos mortais, a enxurrada de escutas e de factos que logo foram conhecidas (certamente ao abrigo de um qualquer direito preemptivo de defesa do MP que tem precedência informal sobre o segredo de justiça), resultaram, como habitualmente, numa amálgama de dados relativamente relevantes e acréscimos irrisórios e risíveis. Não se percebe bem se se ultrapassou o mero exercício de lobbying e se no conjunto de procedimentos administrativos conducentes à captação de investimento estrangeiro e de promoção de actividades económicas inovadoras a iniciativa política resultou em alterações legislativas protegidas pela legalidade ou feriu-a de algum modo. A indiciação do presidente da Câmara de Sines, a ocorrer pelos factos noticiados até ao momento, semeou a perplexidade, não se percebendo de que forma as contrapartidas por ele negociadas para a população constitui um ilícito criminal. A menos que o MP comece a vazar dados referentes a créditos injustificados nas contas bancárias dos suspeitos não é discernível que contrapartidas credíveis possam ter recebido e por que motivo.

 

Por mais grave que seja, e é, o facto de Vítor Escária guardar no seu gabinete na residência oficial do primeiro-ministro, dentro de livros e de caixas de vinho, 75 800 euros, qualquer que seja a origem deste montante, e que Diogo Lacerda Machado, lobista remunerado, tenha invocado (provavelmente em vão) repetidamente o nome do amigo, não há como escapar à circunstância de terem sido as linhas finais do comunicado da PGR que causaram a interrupção do mandato do Governo. Algo que nem uma oposição sem credibilidade nem um Presidente da República inquieto e especialista em ameaças veladas conseguiram.

 

Além de ter satisfeito a sua pulsão para os procedimentos burocráticos, o que a PGR terá conseguido de imediato foi também o impulsionar do populismo acéfalo e a degradação das condições do exercício da actividade política. Se os dirigentes políticos têm a obrigação de ser rigorosos na selecção dos colaboradores e determinados no combate à corrupção, compete aos órgãos judiciais afastar tentações de “operações mãos limpas” ou aparências de “golpe de Estado judiciário”. No blogue Causa Nossa, Vital Moreira citou a “fama de António Costa quanto à integridade política e ao combate à corrupção”, dizendo esperar que “o STJ não acrescente à irresponsabilidade do Ministério Público a procrastinação do inquérito”. Já no Público, António Barreto foi particularmente violento com Lucília Gago: “A procuradora-geral da República utiliza formas sibilinas e estranhas à clareza do direito e ao respeito pela dignidade das pessoas, com o que desencadeia uma crise política sem precedentes. Se não tiver razão, deve ser banida e afastada. Se tiver razão, tem de mudar o seu estilo, dado que o actual não é próprio da democracia e da justiça”. O tempo da justiça e o tempo da política colidem uma vez mais, acossados pelo tempo da informação. O resultado é um temporal, uma tempestade perfeita. A depressão Lucília.

O SENTIDO DO FIM (DA LEGISLATURA)

Fevereiro 26, 2023

J.J. Faria Santos

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A síntese estava estampada na primeira página do Público: “Portugueses dão negativa ao Governo, mas querem que fique até ao fim”.  53%  acham que o Governo é mau ou muito mau, mas 70% consideram que “é melhor para o país” que ele cumpra o mandato. Passada a perplexidade inicial (serão os portugueses masoquistas? Irresponsáveis? Inconsequentes?), eis que os politólogos se apressaram a adiantar duas explicações, que podem ser exclusivas ou cumulativas: a preferência pela estabilidade política e a falta de uma alternativa credível.

 

A própria sondagem do Cesop indicia que Luís Montenegro é apenas menos mau do que Rui Rio. A oposição em geral, porventura espicaçada pelo rol de casos que assolou o executivo, uns reais, outros mais ou menos artificiais, tem optado por carregar nas tintas e desafiar o delírio. Montenegro achar que Costa está a exibir a sua “faceta de comunista” ou Rui Rocha a denunciar o “gonçalvismo” e a “agressão insustentável à propriedade privada” são exemplos de reacções desproporcionadas que retiram credibilidade aos seus autores no eleitorado central que decide eleições.

 

Por outro lado, parece evidente que após sete anos de poder, marcados por uma pandemia, pelo regresso da guerra à Europa e pelo retorno da inflação, a circunstância da existência de uma maioria absoluta revelou cidadãos mais exigentes, como se tivessem acabado os álibis para a persistência dos problemas crónicos da vida portuguesa. Daí o crescendo de reivindicação e o multiplicar das acções de protesto, podendo extrapolar-se que os portugueses, para além das razões relacionadas com a sua situação pessoal, se possam sentir mais livres para protestar, conscientes de que esse facto não porá em causa a estabilidade política.

 

A figura-chave do jogo político português continua a ser António Costa. Nunca suscitou grandes paixões, embora concite ódios colossais. Reúne a seu favor a experiência, a inteligência, a frieza e o sentido táctico, e transmite uma segurança assente no bom senso e na moderação. E contrariamente ao chavão, não é desprovido de sentido estratégico ou visão de futuro, simplesmente tem um sentido agudo da política como arte do possível. É por isso que com um empate técnico no tempo regulamentar, ele acaba por ganhar nos descontos ou no prolongamento. Até um dia, claro. Mas isso, para recorrer a outro chavão, será a democracia a funcionar. Um Governo pode e deve ser avaliado regularmente, mas só deve verdadeiramente ser julgado no final da legislatura. E, para isso, tem de cumpri-la.

ALTA PRESSÃO - A VIDA COSTA!

Novembro 20, 2022

J.J. Faria Santos


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“Ai, Costa, a vida Costa!” era o bordão da série Malucos do Riso, programa de humor que consistia, basicamente, na encenação de anedotas. António Costa, jornalista, disse na CNN Portugal, a propósito do livro baseado em entrevistas ao ex-governador Carlos Costa, que este “é hoje um homem isolado e utilizado pela direita, nomeadamente o PSD”, para uma luta política com o PS. A coisa foi tão ostensiva e tão pouco subtil que levou a jornalista São José Almeida a considerar que “a sessão do lançamento do livro se transformou num comício do PSD”. Desde a tomada de posse de Carlos Moedas que a direita não saía em peso à rua (com a notória ausência de Paulo Portas, que não morre de amores pelo ex-governador). O “comentador” Marques Mendes liderou a sessão de propaganda, desafiando (pressionando?) o Ministério Público a abrir uma investigação criminal à venda do BANIF, por alegado “abuso de poder” e “favorecimento” do Santander. Carlos Costa, em entrevista ao mesmo canal, lamentou a ausência dos seus amigos de esquerda, facto que “desequilibrou a audiência”, seguramente uma deplorável falha na mise-en-scène.

 

Segundo o relato do Expresso, o tom e o conteúdo da intervenção de Marques Mendes foi interpretado por parte dos presentes como “o embrião de um programa de candidatura” presidencial. Mendes terá usado a táctica do 2 em 1- champô e endurecedor: limpou e branqueou o desempenho do ex-governador e endureceu a crítica ao primeiro-ministro em funções. A narrativa da direita foi abalada por declarações como as de António Lobo Xavier e, sobretudo, pela intervenção do Presidente da República, sublinhando que, em relação ao BPI, o interesse nacional foi salvaguardado e Isabel dos Santos afastada, tudo na decorrência de um processo em que se conjugaram decisões financeiras com considerandos políticos e ponderações acerca das relações entre Estados, no qual o próprio governador esteve envolvido.

 

Um detentor de um alto cargo que não saiba lidar com pressões não possui qualificações para o desempenhar. E ainda menos se encarar a sua área de actuação como região demarcada, imune a circunstâncias políticas, financeiras ou diplomáticas. Uma coisa é preservar a independência da instituição que dirige, outra muito diferente é encarar cada diligência ou contributo externo como uma ingerência intolerável. Apregoa uma das teses acerca das motivações para a elaboração deste livro que o objectivo de Carlos Costa seria o de ajustar contas com Mário Centeno. Com a narrativa das pressões, e com o takeover da sessão de lançamento orquestrado pela ala passista do PSD, o ex-governador conseguiu a proeza de ser peão de uma manobra política, provocar o rememorar do balanço entre o pouco abonatório e o desastroso dos seus mandatos e recolher os remoques e o desinteresse dos banqueiros. Na conferência “A banca do futuro”, organizada pelo Jornal de Negócios, o CEO do BPI, João Pedro Oliveira e Costa, comentou: “Já houve comissões de inquérito, já houve pessoas que não tomaram Memofante, devemos passar à frente, a história está contada no sentido em que os bancos estão bem.”

O PhD, O GERENTE, OS COSTAS E O BENTO DA BANCA

Novembro 13, 2022

J.J. Faria Santos

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O empresário Ricardo Moutinho disse ao Expresso que “não pagar impostos é uma metodologia comum”. Aparentemente, obter adiantamentos também. PhD (Para hoje, Depressa). O resto é uma amálgama de factos alternativos: uma sede inventada, um falso doutoramento, uma empresa que é apenas um “conceito” e uma actividade que consistiria basicamente em propor às autarquias soluções que lhes permitissem contornar os rácios de endividamento.

 

“É perfeitamente legítimo, em termos fiscais não existe problema nenhum”, defende Fernando Santos acerca da opção da FPF de celebrar um contrato de prestação de serviços não com ele, mas com uma empresa da qual ele é sócio-gerente. Como a dita empresa não distribui lucros, Santos é tributado pelo ordenado de gerente, 5 000 €, ou seja, pouco mais do que a remuneração de um assessor governamental. Ainda assim, não consta que o seleccionador tivesse dito que é uma “metodologia comum”.

 

Costa vs Costa no ringue dos média. O ex-governador do Banco de Portugal contra o actual primeiro-ministro. Carlos diz que António o pressionou para não afastar Isabel dos Santos do BIC, alegadamente porque “não se pode tratar mal a filha de um Presidente de um país amigo de Portugal”. O primeiro-ministro vai processar o ex-governador por causa de declarações “ofensivas do seu bom nome, honra e consideração”. Como o Governo Costa, no caso do BPI, fez publicar legislação que permitiu ao Caixa Bank ultrapassar o veto angolano (O Correio da Manhã titulou “Isabel empurrada para fora do BPI” e Marques Mendes, o explicador da nação, considerou estar em causa “uma violência enorme” contra a herdeira Dos Santos) é caso para nos interrogarmos acerca do conceito aqui em causa de “tratar mal”, que, no mínimo, não parece uniforme. De resto, é palavra contra palavra, e há sempre a hipótese de ter ocorrido um “erro de percepção mútuo”.

 

 “O trabalho dos bancos não é fazer caridade”, declarou o clarividente Vítor Bento, presidente da Associação Portuguesa de Bancos. O que não surpreende. Não é como se ele fosse membro da Associação Cristã de Empresários e Gestores. Por outro lado, mostra-se atento à semântica. Não aprecia que se diga que a banca “tem interesses”, porque “a palavra interesse tem uma carga negativa”. E confessa não saber o que são “lucros excessivos”. Como, felizmente para ele, não saberá o que é a pobreza extrema.

 

LE PORTUGAL EN ROSE

Fevereiro 06, 2022

J.J. Faria Santos

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Como Piaf, António Costa não se arrepende de nada e não se importa com o passado, porque a vida começa agora com os portugueses que lhe deram um Portugal en rose. Onde muitos adivinhavam cansaço do eleitorado e entusiasmo com a oferta da oposição, o sufrágio revelou a pujança do nome da rosa e a importância repetidamente afirmada em inquéritos de opinião de um líder que transmite confiança, segurança e competência.

 

Duas evidências que se viriam a confirmar: os portugueses apreciaram a geringonça e tenderiam a castigar eleitoralmente os parceiros que chumbaram o orçamento. Algum descontentamento que Catarina Martins encontrou na campanha ia neste sentido. Os eleitorados do BE e do PCP valorizariam os contributos dos seus partidos para uma política de esquerda, mas veriam com desagrado algum fundamentalismo que tendia para a intransigência e para a rejeição do gradualismo na aplicação das medidas. A perspectiva de uma geringonça de direita agudizou o recurso ao voto útil.

 

O único mérito da campanha de Rui Rio (e não foi pouco) radicou na criação da ilusão da vitória e em ter conseguido reunir as tropas do partido, incluindo um Luís Filipe Menezes que um mês antes, em artigo no semanário Nascer do Sol, aludia à “bem oculta e cinzenta mediocridade enquanto homem de formação cultural mediana”, à “auto-suficiência sem sustentação” e à “tendência para os dictates e decisões prepotentes” do líder do PSD. Tivemos direito a um Zé Albino special guest star na campanha e a uma participação mediocremente ensaiada num programa televisivo, que não fizerem esquecer o erro capital de insinuar uma geringonça de direita com o Chega.

 

O sucesso da Iniciativa Liberal e do seu bordão de teatro de revista (“o liberalismo funciona e faz falta”), acompanhado de um estilo jovial, parece prometer um papel decisivo na reestruturação da direita, ainda para mais com o definhamento do CDS. Veremos se não acabará por tropeçar no excessivo proselitismo e na tenaz colagem a soluções que sob a aparência da liberdade condenam ao cárcere do desamparo e aos alçapões da meritocracia, e que apresentadas com o verniz da modernidade não passam de velhas soluções recondicionadas.

 

Costuma dizer-se que à dúzia é mais barato, mas o imperioso é que nenhum dos onze acólitos que se vão juntar a Ventura represente um preço demasiado alto para a democracia. Como representantes eleitos do povo português terão o seu espaço de intervenção e a liberdade de propor o que muito bem entenderem, mas não devem esperar qualquer tipo de permissividade ou complacência para com ideias que agridam o core business da própria democracia.

 

Já conhecemos as explicações dos especialistas. As sondagens são um “retrato do momento”, não são uma previsão. Há um grupo de eleitores que só decide na última semana ou no próprio dia das eleições. E há a questão técnica da distribuição dos indecisos. E, todavia, elas continuam a ser entendidas e comentadas (profusamente comentadas…) como se fossem estimativas do resultado. E, mais uma vez, falharam miseravelmente. As sondagens e os comentários.

 

A avalanche de comentadores que dissertaram nos diversos meios de comunicação social, mas sobretudo nas televisões, asseguraram a pluralidade de opinião, mas maioritariamente veicularam teses desfavoráveis ou abertamente hostis ao partido e ao líder que viriam a vencer. A possibilidade de vitória do PSD criou um frenesim mediático em que as inclinações pessoais contaminaram a análise e nublaram o brilhantismo analítico. Mas ainda antes, a 23 de Dezembro de 2021, já Clara Ferreira Alves escrevia que o PSD tinha ganho “aquilo que se chama momentum”, concluindo que “no dia 31 de Janeiro, Costa pode ter perdido tudo depois de perder a cabeça”. Faça-se justiça a João Miguel Tavares, que em meados de Janeiro titulava o seu artigo no Público com um definitivo “Porque é que Rui Rio vai perder as eleições”. A explicação era simples: “os portugueses ainda não estão suficientemente fartos de António Costa”. Pecou largamente por defeito. Uma indiferença a roçar o fastio não conduz a uma maioria absoluta.

ESTE DOMINGO HÁ DESEMPATE TÉCNICO

Janeiro 28, 2022

J.J. Faria Santos

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Rui Rio é católico, mas não crente, e decerto se acreditasse na sua ressurreição como candidato a primeiro-ministro seria com base na mais pura racionalidade. A menos que não tendo fé, tenha sempre uma fezada. A transfiguração do político tecnocrático com um perfil autoritário (com posições muito próprias acerca de dois domínios fundamentais do Estado de direito - a Justiça e a comunicação social) em afável cat lover com um humor esforçado e um trabalhado ar genuíno terá contribuído para a inesperado crescimento do PSD. Mesmo que nos derradeiros dias de campanha tenha ressurgido a figura conflituosa.

 

Outros dirão que o excessivo tacticismo de Costa terá contribuído para o encurtar das distâncias. A aposta inicial na maioria absoluta, procurando congregar a confiança do eleitorado central e dos descontentes com a pouca flexibilidade dos parceiros da geringonça, falhou. O plano B mais credível é o plano G de geringonça, o que levou Rio a considerar que os portugueses não irão “compreender” o regresso da solução. O líder do PSD parece ignorar que António Costa se apresenta ao eleitorado com um balanço que inclui, no contexto do combate à pandemia, uma campanha de vacinação bem-sucedida e um conjunto de apoios às pessoas e às empresas que minimizaram o seu impacto na sociedade e na economia. O seu legado é o de um crescimento económico acima da zona euro, de uma baixa taxa de desemprego e de contas públicas controladas.

 

A motivação para o eleitorado castigar o incumbente passa também (ou sobretudo) pelo perfil inovador e disruptivo do challenger. Que ideia inovadora ou galvanizadora propõe Rio? O propósito de “reorganizar o Ministério da Agricultura”? A “Revisão Constitucional Verde”? A prioridade da redução do IRC sobre o IRS?  A menos que seja a garantia de afastar o espectro da geringonça, que poderá atormentar os chamados eleitores moderados. Infelizmente para ele, a sua ascensão ao poder estará sempre dependente do liberalismo “moderninho” (como diria o Chicão) e delirante da Iniciativa Liberal (com escassos pontos de contacto com a realidade portuguesa) e, sobretudo, do beneplácito sob a forma de apoio ou abstenção do extremismo do Chega. O eleitorado dito moderado que se assustaria com a geringonça vai tolerar o populismo boçal, a retórica incendiária e fascizante e a instabilidade do Chega?

 

Apesar do empate técnico que as sondagens prenunciam, continua a ser significativamente superior o conjunto de inquiridos que reconhecem a António Costa qualidades superiores às de Rui Rio, e esmagadora a percentagem dos sondados que consideram que o PS, independentemente da sua preferência, vai vencer o sufrágio. Podemos no domingo à noite assistir a mais um dos épicos e inesperados triunfos de Rio? Podemos, mas o mais provável é os portugueses que oscilam entre os dois partidos de poder fazerem (permitam-me invocar o diabo) uma vénia à expressão de língua inglesa better the devil you know, escolhendo o Costa que conhecem há seis anos em vez de um Rio, colheita de 2022, descafeinado para efeitos eleitorais. A menos que o milhão de confinados ou o factor Zé Albino condicionem decisivamente o resultado das eleições.

 

Imagem: portaldoeleitor.pt

UM LONGO ADEUS OU UM DESPOJADO ATÉ JÁ?

Janeiro 02, 2022

J.J. Faria Santos

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Com 2022 a estrear-se no ecrã panorâmico das nossas vidas e com um Big Brother Políticos marcado para o final deste mês, amontoam-se pitonisas e astrólogos, videntes e médiuns na tarefa de adivinhar os acontecimentos que marcarão a nossa casa comum. O futuro do actual primeiro-ministro, dada a conjugação das estrelas mediáticas opinantes, parece sombrio. Daniel Deusdado escreveu no Diário de Notícias que “se torna difícil não se pensar que António Costa está de saída. Não se vê de onde possam vir os votos para o segurar”. Já Clara Ferreira Alves escreveu antes do Natal no Expresso que “no dia 31 de Janeiro, Costa pode ter perdido tudo depois de perder a cabeça”. E numa cedência pouco comum ao sentimentalismo sentenciou que “Costa perdeu muitos corações do PS que votarão em Rui Rio”, considerando que “o PSD ganhou aquilo que se chama momentum”.

 

Há ainda quem veja no comportamento do líder do PS uma certa resignação ou desprendimento, como se lhe competisse adoptar uma atitude mais combativa e agressiva na marcação da agenda mediática. Há quem veja nisto um sintoma de declínio, de percepção de derrota iminente. A questão é se o eleitorado central, que supostamente decide eleições, se reveria na bravata retórica ou se prefere a força tranquila. Como o próprio Costa referiu em entrevista a Anabela Neves, durante seis anos os portugueses acompanharam e avaliaram o seu trabalho. Para o bem e para o mal, conhecem-no. Será que a alternativa é assim tão aliciante, tão inovadora e disruptiva? E se não se quer a disrupção, mas sim a continuidade, Rio reúne um conjunto de qualidades de liderança que face ao incumbente constituem indiscutíveis mais-valias?

 

Uma sondagem do ICS e do ISCTE para o Expresso (edição de 30/12/21) inquiriu os participantes acerca das qualidades dos líderes do PS e do PSD. O resultado é largamente favorável ao líder socialista, visto como mais experiente (65% contra 14%), mais competente (46% contra 26%), mais honesto (36% contra 21%), mais simpático (53% contra 21%) e mais preocupado com as pessoas (43% contra 19%). Rio vence no capítulo da frontalidade (“diz mais o que pensa” – 41% face a 31%), mas, talvez consequência disso ou não, é percepcionado como menos ponderado (26%) do que Costa (48%). A questão é, pois, se o alegado momentum de que o PSD goza insuflará as qualidades do seu líder ou fará esquecer as suas debilidades, sendo certo que são inegáveis quer a sua capacidade de resistência quer o seu currículo de vitórias inesperadas.

 

No mesmo jornal, um artigo de opinião de Ângela Silva anuncia que “para o Presidente da República, Rio não é a solução” e que para Marcelo “adiar uma solução liderada pelo ‘pedronunismo’ é um objectivo”, enquanto espera pela ascensão de Moedas. Portanto, o Presidente que Clara Ferreira Alves considerou que “desapareceu de cena devido a complicações de saúde”, reapareceu rapidamente na plena posse das suas faculdades de encenador com prerrogativas de director de casting. Mas são os portugueses que vão decidir se ganha o António ou se ganha o Rui. No Big Brother Políticos de 30 de Janeiro, Marcelo limitar-se-á a envergar as plumas de mestre-de-cerimónias. Depois, mas só depois, será o pivot da solução política.

 

Imagem: multinews.sapo.pt

O INSENSATO INSENSÍVEL

Dezembro 05, 2021

J.J. Faria Santos

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De Eduardo Cabrita, disse o advogado Magalhães e Silva: “É um tipo reservado. E como qualquer pessoa que é reservada, de quando em vez dá-se a ataques de fúria.” (in Expresso – Revista de 17/11/2018). No mesmo artigo, um socialista anónimo acrescentou acerca da relação do ex-ministro com o primeiro-ministro: “São amigos e cúmplices. Mas Costa não hesita quando tem de lhe mandar dois berros.”  

 

É possível que a fúria de um e os berros do outro tenham pontuado os episódios que abalaram os mandatos de Cabrita, acossado pela oposição e pela imprensa, abalado por casos que implicaram perdas de vida, equipamentos defeituosos, decisões dúbias e afirmações polémicas. É possível que o seu carácter reservado e o seu estilo combativo tenham contribuído para criar o estereótipo do ministro incompetente, obscurecendo a forma eficiente como promoveu a reorganização do sistema de protecção civil ou como conseguiu apresentar baixos índices de criminalidade.

 

Na era da política dos afectos, da dor partilhada e dos gestos oficiais de expressão de pesar, tudo o que não respeitar os padrões das redes sociais é escasso e indiciador de desrespeito. O despacho do Ministério Público, acusando o motorista do ministro de homicídio por negligência, por conduzir em excesso de velocidade (sem que tal comportamento tenha sido instigado por qualquer sentido de urgência expressado pelo MAI) na faixa da esquerda, pode ter servido para aplacar os profissionais da indignação, logo exacerbados, porém, pela canhestra tirada do ministro a invocar a sua condição de “passageiro”. Mas a generalidade dos que exigem o cabal esclarecimento acerca das condições em que o acidente ocorreu não parecem interessados em clarificar o motivo que levou a vítima a atravessar a auto-estrada, algo que, como frisa Fernanda Câncio, “é expressamente proibido pelo Código da Estrada e, como fonte da Brisa assegurou ao DN, pelas regras de segurança concessionária”. Ou ainda, como a jornalista dá conta no mesmo artigo, avaliar o facto de haver quem defenda, como um perito em segurança rodoviária, que “as lesões sofridas por Nuno Santos e referidas na acusação não parecem compatíveis com a descrição que esta faz do acidente”. Questionar estas circunstâncias parece equivaler a atacar a vítima, a desrespeitar a sua memória.

 

De Eduardo Cabrita, jamais se esperaria, por exemplo, que falasse do fundo do coração. Ele que exibiu, nas palavras do director do Público, uma “horrenda falta de empatia”. O ministro podia ter-se demitido por erros de julgamento na sua acção política, mas não seria a mesma coisa. O coro das redes sociais e do comentariado exigia o atestado da sua insensibilidade. O insensato insensível fechou o ciclo.

 

Imagem: portugal.gov.pt

 

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