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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

EPÍSTOLA DE ANDRÉ VENTURA AOS PORTUGUESES DE BEM

Janeiro 17, 2021

J.J. Faria Santos

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Portugueses de bem,

Deus confiou-me a difícil mas honrosa missão de transformar Portugal. São muitos os chamados e poucos os escolhidos. A 13 de Maio de 1917 Portugal mudou para sempre. Fomos escolhidos! Também eu senti esta mudança profunda num 13 de Maio da minha vida. Hoje sinto, sei, que de alguma forma a minha missão política está profundamente ligada a Fátima. É este, talvez, o meu grande Segredo. (Reparem que escrevi “Segredo” com letra maiúscula, seguindo as melhores práticas do grande Donald Trump.) E se porventura os Tomés desta vida, os incréus, acham que estou a invocar o nome de Deus em vão, eis que a iluminar o caminho surgiu a confirmação das instâncias internacionais. A grande Marine Le Pen, essa mulher corajosa e íntegra, não hesitou em comparar-me a um “sinal do céu”.

 

Ser primeiro-ministro. Eu sei que vai acontecer, só não sei é quando. E enquanto espero, candidato-me a Presidente da República. Na verdade, não importa o cargo, o que importa é levar a cabo a minha missão de livrar Portugal dos malandros, dos ladrões, dos pedófilos e dos ciganos que se passeiam de Mercedes e sacam subsídios ao Estado. O que eu defendo é a ditadura das pessoas de bem, o que transforma numa impossibilidade que eu seja o Presidente de todos os portugueses. Não vou ser o Presidente de José Sócrates, dos pedófilos e dos traficantes de droga. Nem da Ana Gomes. Com frontalidade, digo-lhe: “Ana Gomes, não és bem-vinda em Portugal e nunca serás eleita presidente da República Portuguesa.” Aos que não gostam do que eu digo, paciência, tenho direito à liberdade de expressão garantida pela Constituição. É certo que estou-me nas tintas para a  Constituição, mas nem  sempre nem  nunca. E  quando for eleito, jurarei cumprir e fazer cumprir a dita cuja. Quando estiver para aí virado, sempre depois de auscultar os portugueses de bem. Aos que me querem impedir de reformar Portugal, desafio-os com galhardia, coragem e o apoio inexcedível dos meus guarda-costas. Porque é que não me prendem? É mais fácil. Resolve-se o problema todo. O homem vai preso. Despacha-se o assunto.

 

Portugueses, concidadãos ditadores de bem,

Uma última nota para abordar a questão absolutamente essencial das mulheres que não estão bem em termos de imagem, notabilizadas pelos lábios muito vermelhos. Caiu o Carmo e a Trindade neste opressivo regime esquerdista em que estamos atolados. Já não se pode apelar à compostura, ao bom gosto, à discrição, à modéstia e à singeleza. Atiraram-me com os chavões do costume, do machismo à misoginia, porque eu, demonstrando o largo espectro dos meus interesses, me limitei a exibir o meu talento enquanto fashionista e consultor de imagem, aconselhando pro bono a candidata da esquerda caviar. Não perceberam a bondade do meu alerta? Paciência. Não recebo lições de moral dos amigos do charro. Só faltava confundirem o escritor com o narrador e implicarem comigo só porque, no meu romance de estreia, Montenegro, existe uma passagem na página 31 que alude à “natureza primitiva das mulheres” e à sua “mecânica cerebral simples”. Pode-se esperar tudo de gente que em vez de estudar e fundamentar bem as suas opiniões prefere o populismo das tiradas fáceis e dos soundbites… Valha-nos Deus, meu ídolo e mentor. Com a inspiração dele e a nossa determinação ergueremos um novo Portugal!

 

Este é um exercício de ficção, porém, as palavras assinaladas a cheio correspondem a afirmações proferidas por André Ventura.

Imagem: Cherry Red Lips, quadro de Giovannie Licea (saatchiart.com)

 

O REGRESSO DA MÚMIA (E A HABILITAÇÃO DE HERDEIROS)

Setembro 27, 2020

J.J. Faria Santos

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“Os afectos do professor Marcelo foram úteis para desanuviar do estilo múmia paralítica”, disse Ana Gomes, entrevistada no programa Isto É Gozar com Quem Trabalha. A alusão depreciativa ao anterior chefe de Estado suscitou críticas de quem, como um dos directores-adjuntos do Expresso, considera que “o insulto não é de todo em todo tolerável”.

 

Em 2001, durante o seu discurso numa conferência do Partido Conservador, Margaret Thatcher, aludindo à sua passagem por um cinema no trajecto para Plymouth, aproveitou para fazer uma piada, explicando que ao contrário do que lhe fora dito a sua presença era aguardada porque o cartaz anunciava o regresso da múmia. Na verdade, parece que o seu escasso conhecimento da cultura popular a impediu de perceber que se tratava de um filme de terror, pelo que a mummy que ela achava ser uma referência maternal, era na verdade um cadáver dissecado enfaixado. Salvou-se o sentido de humor, mesmo equivocado.

 

Consta que o professor Cavaco, em privado, terá uma predisposição jocosa que nunca revelou em público, certamente por receio que manchasse a sua hirta solenidade. Presumivelmente, não terá apreciado a tirada de Ana Gomes, cáustica, mas não necessariamente insultuosa. O dicionário online da Porto Editora oferece como sinónimos de múmia em sentido “figurado, pejorativo – pessoa muito magra e de pele ressequida” e também “pessoa sem ânimo ou vitalidade”. Ora, pejorativo, segundo a mesma fonte, é algo com “conotação desfavorável”, “que expressa menosprezo”, o que é diferente de uma ofensa ou de um ultraje.

 

O professor regressou ao ciclo noticioso com a pré-publicação no Expresso do seu novo livro, intitulado Uma Experiência de Social-democracia Moderna, uma manifestação de fé nas virtudes da social-democracia, onde assume Sá Carneiro como grande referência (e também Olof Palme). Talvez porque a “social-democracia não é susceptível de uma formulação única e simples”, Cavaco Silva tanto nota que “quer a social-democracia alemã quer a sueca rapidamente concluíram que a pureza ideológica sucumbia perante as realidades da governação” como frisa que “o exercício do poder, para Sá Carneiro não podia abdicar dos princípios da social-democracia em nome da eficácia”.

 

A publicação de Cavaco Silva surge poucos dias depois de André Ventura se ter apresentado como “o herdeiro humilde” de Sá Carneiro, cujos discursos passa “muitas horas a ler”. Ventura, que de “múmia paralítica” não tem nada, é herdeiro mas pouco. É que, como explicou na convenção do seu partido, “O pensamento de Sá Carneiro era para os anos 1970 e 80, o meu pensamento é para o século XXI”. O frenesim mediático e a propensão para os soundbites acabaram prejudicados por uma convenção caótica, assaltada por lunáticos e propostas aviltantes, onde a cadeira do poder foi conquistada à força da repetição de votações e de lágrimas no canto do olho.

 

Imagem: desciclopedia.org

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