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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

(SEX)AGENÁRIA - A NOSSA SENHORA DO ESTILO

Agosto 14, 2018

J.J. Faria Santos

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No princípio era a provocação religiosa. A dada altura, perguntaram-lhe: “Não é verdade que tendo tido uma educação católica, a sua condição como mulher só pode ser uma de duas: ou virgem ou puta?”. A resposta lapidar foi: “Sim, tenho consciência disso, mas não entendo porque é que não posso ser ambas.” (Expresso, A Revista, 3/06/1989). O ataque ao tabu manifestou-se quer através de declarações semelhantes (como aquela em que explicou que o seu interesse de menina pelas freiras se dissolveu quando se apercebeu que elas não tinham vida sexual; ou  a que ligava o seu fascínio à representação de Cristo na cruz ao facto de nela constar um homem seminu), quer também pela apropriação de símbolos religiosos como acessórios de moda. Camille Paglia, controversa escritora e feminista, afirmou que “ela reuniu e curou as metades separadas das mulheres: Maria, A Virgem e santa mãe, e Maria Madalena, a prostituta”.

 

Este é o meu corpo, sempre disse ela. O seu instrumento, a sua arma, o seu manifesto. Muito antes das redes sociais, da febre da vida em directo, escancarada, ela geriu a visibilidade da pele, a exposição da sexualidade,  negociou a quebra dos interditos de forma persistente e permanente. Estratégia comercial, provocação gratuita, plagiadora de ícones, proclamaram os indignados. No contexto de uma entrevista à cantora para a Esquire (Setembro de 1994), Norman Mailer estabeleceu um paralelo com um desses ícones: Marilyn Monroe. Escreveu ele: “Os horrores de Marylin ela guardava-os dentro de si; choramo-la porque se deu a todos nós, até estar toda roída por dentro e morrer.” Já Madonna, contrapôs ele, “escolheu, talvez para sobreviver, expor as suas manias. É a mestra severa que nos mostra como tudo é difícil, especialmente o sexo. Mas dá-nos algo que Marilyn nunca nos pôde dar. Demonstra-nos que qualquer verdade humana é perigosa se ousarmos aprofundá-la; lembra-nos que as alegrias da vida se apoiam em vidro.”

 

Acerca da sua relevância artística, Lucy O’Brien escreveu em Madonna, Como um Ícone, biografia publicada em 2007: “Não tem a grandiosidade vocal de uma Billie Holiday ou de uma Ella Fitzgerald, e não marcou uma geração com rock´n´roll cru como Janis Joplin ou Patti Smith, mas é uma presença imponente na música popular graças à sua abrangência impressionante. Como uma gralha cultural, foi buscar as suas influências a milhares de fontes e canalizou-as para uma visão. Só isso é uma obra de arte.” A sua voracidade pela reinvenção e a sua incessante curiosidade pelas vanguardas, ao mesmo tempo que paga tributo ao classicismo, podem ser simbolizadas pelos versos de More, um dos temas que Stephen Sondheim escreveu para ela cantar no filme Dick Tracy: “Never settle for something less / Something’s better than nothing, yes! / But nothing’s better than more, more , more / Except all, all, all”. Eis um verdadeiro tributo à ambição e à exigência.

 

Aos sessenta, a provocação continua. Só pode ser por vocação. Podia adoptar a pose de grande dama da música, etérea e majestosa, mais recatada em sóbrios modelos de alta-costura. Mas não seria a mesma coisa. Norman Mailer, no início da entrevista à Esquire disparou: “Se não soubesse nada sobre si, diria: Bom, é uma senhora…” Instado a clarificar o que seria uma senhora, explicou que “é uma mulher que faz tudo o que as outras fazem, mas com um pouco mais de estilo.” Eis uma definição apropriada para Madonna: a Nossa Senhora do Estilo.

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