NO VAGAR DA PENUMBRA
17 de Abril de 2018

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António Costa recebeu-o na residência oficial com um sorriso aberto; Mário Centeno riu-se ao fazer-lhe notar que “os chamados neoliberais” agora consideram Keynes o seu deus. Parece que a passagem por Portugal do colunista da revista The Economist conhecido como Charlemagne decorreu sob o signo do bom humor.

O articulista da bíblia do consenso liberal começa por explicar como, após ter perdido as eleições para o PSD (Charlemagne acha confusa a associação de um partido de centro-direita à social-democracia), Costa recusou uma grande coligação ao centro e apostou numa governação à esquerda, perante a incredulidade e a hostilidade gerais. O resultado foi que o céu não desabou, as finanças públicas estão “robustas e saudáveis” e o país caiu nas boas graças dos mercados ao mesmo tempo que reclama o estatuto de “vanguarda da batalha contra a austeridade”. O primeiro-ministro português considerou que as grandes coligações podem ter como resultado o reforço dos populistas por poderem induzir a ideia de inexistência de alternativas reais. E um assessor tratou de acrescentar que o “conflito civilizado” confere vivacidade aos partidos e aos políticos.

Charlemagne nota as qualidades de Costa (que mesmo os oponentes reconhecem), mas frisa a importância da conjuntura externa, das medidas tomadas pelo Governo que o antecedeu e do papel do Banco Central Europeu no mercado da dívida para o sucesso do socialista. E conclui atribuindo em parte o sucesso do Governo apoiado à esquerda ao facto de “não ser especialmente de esquerda”. E porquê? Por estar mais preocupado com “o défice e a dívida pública do que com o investimento e os serviços públicos”.

Talvez a política à portuguesa tenha subtilezas que escapem a Charlemagne. A verdade é que se ele se detivesse a analisar o Governo de Passos Coelho ficaria ainda mais confuso: como definir, nesse contexto, o PSD, o principal partido da coligação? Um partido de centro-direita, dito social-democrático, a conduzir uma política extremada à direita, que colocava o parceiro de coligação, CDS-PP, à sua esquerda, partido que, por sua vez, é de direita mas tem centro na sua designação?

 

A tensão entre liberdade e igualdade está no cerne das distinções ideológicas e da acção dos agentes políticos. Glenda Jackson, actriz com 35 anos de carreira (e dois Óscares) e membro do Parlamento britânico durante 23, regressou agora ao teatro, aos 81 anos de idade. Desafiada pela Time a encontrar similaridades entre a representação e o desempenho de cargos políticos, declarou que “todo o drama tenta essencialmente contar a verdade acerca do que somos” e a “política no seu melhor tenta encontrar a melhor maneira de criar um sociedade na qual haja um igualdade genuína que reconheça que somos todos diferentes”. Inquirida sobre o movimento de denúncia de assédio sexual na indústria do espectáculo, mostra-se céptica em relação ao seu impacto na transformação da vida das mulheres. Interrogada acerca das dádivas do amadurecimento, recusa que a idade traga sagacidade, reconhecendo, pelo contrário, que compreendeu a extensão da sua ignorância. Mas é quando lhe perguntam acerca do tamanho dos egos dos actores e dos políticos que a resposta sai taxativa: “Os egos que eu encontrei no Parlamento não seriam tolerados no teatro nem por 30 segundos”.

publicado por J.J. Faria Santos às 21:13 link do post
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