Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

RESISTÊNCIA (LIVROS, LEITORES, ESCRITORES)

Maio 21, 2014

J.J. Faria Santos

                                        "Sisters and Book" de Iman Maleki

                                          (Courtesy of www.bertc.com)

 

Um estudo da GfK, acerca do mercado de entretenimento, divulgado pelo Público  na sua edição de 17 de Maio, concluiu que, em tempo de crise, a venda de livros registou em 2013 uma quebra de apenas 1% por comparação com os decréscimos verificados no sector da música (13%), dos filmes (15%) e dos videojogos (16%). Com uma facturação a rondar os 147 milhões de euros, o sector livreiro representou 55% do volume de negócios destes quatro ramos de actividade. No artigo, assinado por João Pedro Pereira, refere-se que o estudo também fez inquirições a propósito de hábitos de leitura, determinando que um terço de pessoas lê livros, e que o tempo médio de leitura semanal ronda as cinco horas. Alguns destes leitores, à semelhança de Thomas Piketty, serão leitores apaixonados de Honoré de Balzac e Jane Austen.

 

É o livro do momento. O Capital no Século XXI, escrito por Piketty. Paul Krugman diz que com este livro ele transformou o discurso económico, e que nunca mais se discutirá a riqueza ou a desigualdade da mesma maneira. Krugman ( New York Review of Books online ) sumariza a tese essencial da obra dizendo que “não apenas regressámos a um nível de desigualdade de rendimentos do século XIX”, como também retomámos o caminho do “capitalismo patrimonial”, com a economia a ser “controlada não por talentos individuais mas por dinastias familiares”.

Analisando a mesma obra, João Constâncio (Público, 16/05/2014) estabelece uma correlação entre a promoção da desigualdade e a deslegitimação democrática: “se o capitalismo tende a ser patrimonial e a gerar uma sociedade de herdeiros extremamente desigual, então o capitalismo tende a ser tudo menos uma meritocracia, o capitalismo tende a distribuir a riqueza e o rendimento de uma forma que é intrinsecamente (ou sistematicamente) injusta, toda a sociedade capitalista tende a ser uma plutocracia e a tornar-se materialmente incompatível com a democracia (mesmo que, formalmente , não se verifique tal incompatibilidade).”

“Eu não parti de uma posição política mas do objectivo de compreender aquilo que os factos nos mostram acerca da desigualdade”, afirmou Piketty à Time, que abordou o impacto do livro num artigo sintomaticamente intitulado Marx 2.0. A resposta surgiu no contexto de uma questão relacionado com as suas inclinações ideológicas. Como notou João Constâncio no artigo citado, a “concepção do capitalismo” de Piketty “implica, por um lado , prezá-lo como um extraordinário produtor de riqueza (…) mas, por outro, implica condená-lo como um sistema que tende a repartir a riqueza de um modo demasiado desigual (…)”.

Devemos aceitar a disparidade de rendimentos como uma inevitabilidade, um dano colateral, ou resistir e contestar esta espécie de condenação?

 

Passaram 25 anos desde que o Ayatollah Khomeini decretou a fatwa  que excomungava e condenava à morte Salman Rushdie. Paul Elie evoca a efeméride num artigo para a Vanity Fair  de Maio, destacando que em Os Versos Satânicos  se prenunciavam os grandes temas do final do século, designadamente “a ascensão do fanatismo islâmico; as desigualdades que espoletaram um raiva crescente contra os valores do Ocidente; o impacto dos media na era da globalização”. Para E. L. Doctorow, o que se passou foi o primeiro exemplo da “sensibilidade teocrática” que estabeleceu uma relação entre “fé e violência naquela parte do mundo”. Já Ian McEwan, que começou por ler o livro em “termos puramente literários”, os incidentes en redor da obra foram “o primeiro capítulo de uma história muito longa e desagradável que teve, como um dos capítulos, o 11 de Setembro”. O édito de Khomeini pode até ter feito vacilar Rushdie e dividido a elite cultural, mas no fim permaneceu o essencial, explicitado nas palavras de Stephen King: “Não podemos permitir que a intimidação impeça os livros. É tão básico quanto isso. Os livros são a própria vida”.

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D