(RE)NASCEU UMA ESTRELA
Janeiro 06, 2015
J.J. Faria Santos
No princípio era a voz. Depois a presença em palco. Humilde e ao mesmo tempo imponente, como uma sacerdotiza ao serviço dos fiéis, simultaneamente serva e senhora. E por fim a sábia dosagem entre intensidade e subtileza. E aquela aparência de facilidade que define os dotados, e que serve de camuflagem ao trabalho árduo que acompanha o brilhantismo.
Seguríssima em I will always love you, empolgante em Rolling in the deep, majestosa em Hallelujah, a prestação de Kika no Factor X atingiu um novo patamar com a interpretação de Canção de alterne. Afastando-se da ortodoxia da música negra americana e dos standards anglo-saxónicos, a sua releitura do trecho da dupla Rui Veloso/Carlos Tê atribuiu-lhe uma nova roupagem sonora, uma espécie de soul lusitana, com uma pitada de blues e um aroma quase imperceptível de fado.
Renasceu uma estrela, digo, porque uma intérprete deste calibre não se faz em semanas. Necessariamente, o talento vem de longe. Venha a fama também. E que a indústria não nos faça esperar muito. Enquanto aguardamos que lhe arranjem os compositores e produtores que ela merece para um disco de originais, aproveitem para editar um álbum com as actuações nas galas do Factor X. Seria, indubitavelmente, um extraordinário CD de covers.