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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

PORTUGAL.THE COUNTRY (CENAS DA VIDA LUSA)

Julho 24, 2018

J.J. Faria Santos

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Pode um erro numa chave do Euromilhões conduzir a uma espécie de patologia denominada “insuficiente vontade libidinosa”? Pode, diz o Tribunal da Relação de Lisboa. Em Outubro de 2016, César Augusto viu os números no rodapé do Jornal da Noite da SIC e achou que tinha ganho 156 milhões de euros. Acontece que a chave estava errada e passados 55 segundos a estação televisiva corrigiu o lapso. Mas o mal estava feito. Como explicou a jornalista Natália Faria no Público da passada quinta-feira, o apostador “entrou em depressão profunda”, e o “casamento de 20 anos começou a soçobrar” por causa do desaparecimento “da vida regular íntima” que mantinha com a sua mulher. É aqui que entra a “insuficiente vontade libidinosa”. Quem teria vontade de fornicar depois de ter “perdido” 156 milhões de euros em 55 segundos? A Relação condenou a SIC a pagar-lhe 7500 euros, a título de “lenitivo para a dor moral e desgosto sofrido”. Porque o abalo íntimo provocado pelo défice da libido, esse é impagável e insusceptível de compensação adequada.

 

Era previsível. Parece um remake duma fita clássica. Um filme-catástrofe que evolui para um libelo de denúncia de desonestidade e desvio de fundos. Primeiro, toda a gente (a começar pelo impulsivo e irrequieto Marcelo) exigia rapidez na reconstrução das habitações e apresentava queixa contra a burocracia. Zurzia-se nas entidades que faziam o apuramento das circunstâncias. O Estado falhara no socorro, não podia falhar no ressarcimento possível. Agora, que se suspeita que meio milhão de euros para reconstrução de moradias foram desviados para habitações não prioritárias, lá veio o intrépido Presidente da República exigir que se saiba o que correu mal. É que os “portugueses não podem ficar com dúvidas” em relação à aplicação dos donativos. Como, aliás, não ficaram em relação aos “malefícios” da “burocracia” e ao perigo de queimar etapas. Mas o povo, que é sábio, também compreende que depressa e bem, há pouco quem. Mas não nos martirizemos em demasia, nem tiremos conclusões apressadas acerca da nossa propensão para a vigarice. Veja-se o caso do povo germânico, celebrado pelo seu rigor e organização, que tenta desde 2012 inaugurar o aeroporto de Berlim-Brandenburgo. A dita obra, que começou por ter um orçamento de 2,5 mil milhões de euros e já vai em 6 mil milhões, debate-se com contratempos que vão desde 90 km de cabos com defeito até à escassez de balcões de check-in. No passado mês de Junho, soube-se que o espaço vai servir de parque de estacionamento para as viaturas da Volkswagen que não podem ser comercializadas por aguardarem o processo de certificação na sequência do escândalo da emissão de gases poluentes.

 

Manuel Pinho, ilustre cidadão do mundo, promotor de slogans espirituosos (Allgarve), amante de fotografia e frequentador de celebridades (Nick Knight, Michael Phelps) compareceu no Parlamento na condição de não se pronunciar sobre factos que estão a ser investigados pelo Ministério Público. “Teria o maior prazer em responder a isso. Era muito fácil e até era uma risota. Estou massacrado com esta situação. Mas não posso.”, disse ele. Acontece que a Justiça é lenta. Porquê continuar a submeter-se ao massacre? Porque não explicar já o motivo que justifica que tenha recebido cerca de 15000 euros mensais enquanto estava no Governo? Já nos rimos com os corninhos, mais valia continuarmos com a “risota”. Seria como assistir ao vivo a um episódio dos Donos Disto Tudo. Best of, claro.

Imagem: Wikimedia Commons

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