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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

Abril 10, 2022

J.J. Faria Santos

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Há momentos em que as palavras queimam, em que o seu uso imponderado ou indiscriminado ateia incêndios verbais que espalham a dissensão (quantas vezes artificial) e a indignação. Há momentos em que a volúpia da contextualização, o apego à alegada complexidade das matérias e a soberba da visão ideológica repelem a clareza moral e a análise objectiva dos factos. Leitor e ouvinte atento de posições contrastantes acerca da guerra na Ucrânia, espantam-me, sobretudo, os lamentos ingénuos pela ausência de incitamento à paz, a facilidade com que se dá crédito às teses russas que alegam encenação de atrocidades ou se desresponsabilizam delas, e ainda a tentativa canhestra de fazer equivaler as deficiências da democracia ucraniana à prepotência de um invasor, protagonista de uma guerra ilegal e sem respeito pelas Convenções de Genebra. Todos apreciamos a paz, mas a guerra é um facto consumado. Putin escolheu a continuação da política por outros meios. É culpado para além de qualquer dúvida razoável.

 

Que a guerra é uma tragédia, já todos sabemos. Que Putin tenha escolhido o caminho da barbárie (onde se contarão, com alta probabilidade, a tortura, a violação, o deslocamento forçado das populações e as execuções sumárias) constitui uma agravante, que só o espectro de um conflito nuclear impede que seja severamente reprimido. Não nos deve surpreender o requinte de hipocrisia contido na sugestão das autoridades russas de que a insuportável violência contra as populações terá sido infligida pelas forças ucranianas, ou que estas terão “encenado” os horrendos actos no teatro da guerra. Menos avisado será, em nome de uma abertura de espírito ou de uma imparcialidade clarividente a roçar a neutralidade, dar crédito a alegações mirabolantes e ofensivas da nossa inteligência. Ou ainda, utilizar a existência do Batalhão Azov para credibilizar a tese russa da “desnazificação”, quando a expressão da extrema-direita na Ucrânia é residual e o seu Presidente é judeu.

 

Em artigo editado pelo Público, Richard Zimler escreveu que “Putin tinha alternativas à invasão e é responsável por cada morte causada pelos ataques do Exército russo”, e que “haverá muito tempo para oferecer teorias sobre o que a Ucrânia e o Ocidente podiam ter feito para evitar este conflito quando a guerra terminar e os mortos estiverem enterrados”. Agora que os sinos dobram, pelo género humano e pela Europa, Zimler acrescenta: “Não, neste momento, enquanto estão a ser cometidos crimes de guerra na Ucrânia – enquanto há pais que escrevem os nomes e os endereços dos filhos na sua própria pele para o caso de eles ficarem órfãos -, eu não posso aceitar que os ucranianos sejam ‘vítimas indignas’ ou que eles estavam ‘a pedir isso’.”

 

Imagem: Evgeniy Maloletka (christianitytoday.com)

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