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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

OS POPULISTAS CONTRA O POPULAR

Março 02, 2020

J.J. Faria Santos

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Já não bastava a ameaça que o coronavírus representa para a magistratura dos afectos do Presidente da República (como reprimir a sua hipocondria? Como circular entre a multidão de fãs sem correr o riso de contágio ou potenciar a própria expansão da epidemia?), eis que agora os populistas aproveitam os diversos púlpitos para o atacar.

 

Primeiro foi o azougado André Ventura que, em registo de stand-up comedy (para usar a expressão de Bárbara Reis no Público), atirou: “Viram o Marcelo Rebelo de Sousa dizer: ‘Temos de ter cuidado com o populismo? Não quero dar exemplos desagradáveis, mas é a mesma coisa que um pedófilo dizer: ‘Cuidado com estas redes internacionais que andam a raptar crianças.’” Como se vê, Ventura utilizou um artifício de retórica para dar mesmo um “exemplo desagradável”. Figuras desta estirpe são difíceis de combater, pelo que convém mantê-los a uma certa distância higiénica, dentro dos limites da urbanidade e da convivência democrática, mas à distância. Coisa que Marcelo não fez, chegando ao ponto de, numa audiência, tecer considerações sobre a oportunidade e as desvantagens do líder do Chega se candidatar à Presidência. Ao bizarro retorno à função de analista político, acresce o evidente conflito de interesses.

 

Depois, num programa da manhã, Quintino Aires, utilizando como pretexto a análise de uma situação em que um agente da PSP foi cercado e insultado por um grupo de indivíduos após uma cerimónia fúnebre, declarou, de uma forma fulminante: “Eu não quero no meu país um Presidente que se cala perante a vergonha que aqui passamos (…) Eu não quero no meu país outra vez o Marcelo Rebelo de Sousa a ser Presidente e a agravar esta situação.” Eis o ponto em que nos encontramos: a omnipresença do mais alto magistrado da nação atingiu um tão alto grau de simbolismo que a sua ausência mediática num caso de desordem pública é pretexto para que o Professor Emérito da Universidade de Moscovo e recipiente do Prémio Copérnico 2012 lhe recuse o voto numa provável recandidatura. Talvez Marcelo ainda possa reganhar a confiança do Dr. Quintino. Não exactamente dando-lhe conselhos, mas recebendo-os. Aproveitando, porventura, uma das consultas para adultos que o psicólogo propõe. Talvez a “Consulta da Dependência Emocional”.

 

Sejamos justos. Marcelo poderá ter flirtado com esse lamaçal cor-de-rosa que é o populismo, mas nunca se deixou enterrar. Jamais caucionou a visão de, na definição de Cas Mudde, uma sociedade separada entre uma “população pura” e uma “elite corrupta”. E intimamente, até poderá reconhecer-se na opinião de Jaime Nogueira Pinto em entrevista ao Correio de Manhã em 2017, que apoiou a sua presença nas “catástrofes”, chamando-lhe um “conceito quase ‘rainha de Inglaterra’”, explicitando que “as pessoas que não gostam da popularidade dos outros chamam-lhe populismo, de forma depreciativa”.

 

Só que a popularidade é uma amante caprichosa e insaciável. Reivindica atenção permanente, e qualquer desejo recusado, por mais insensato que seja, ameaça a perenidade da relação. É por isso que, quando afastou a possibilidade de trazer para Portugal o português infectado com o coronavírus, Marcelo foi por este severamente criticado: “Foi um choque receber essa notícia. Como português gostava de ver e abraçar a minha família. Não estou a ver um bom final para esta situação, não sei se o meu estado de saúde se vai agravar, e o Presidente está-me a deixar ao abandono com essa declaração”. É no que dá armar-se em santo padroeiro dos aflitos. Agora, Marcelo vai precisar de muita paciência cristã para lidar com este concidadão que desde as longínquas paragens nipónicas foi bradando: “Presidente, Presidente, porque me abandonaste?”

 

Imagem: Meme de Alexandre Martins

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