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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

OS NOVOS DÉSPOTAS E A LITERATURA COMO ANTÍDOTO

Dezembro 23, 2018

J.J. Faria Santos

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“O déspota da velha guarda”, explica Karl Vick na Time, “recorria à censura”. Já “o déspota moderno, considerando tal acção mais difícil, fomenta a desconfiança nos factos credíveis”. Nem que para tal tenha de recorrer à mais grosseira das mentiras. E como recorda o editor Edward Felsenthal na mesma revista, “a primeira jogada do manual do autoritarismo [é] controlar o fluxo da informação e do debate, que é o que alimenta a liberdade”. Erguer uma firewall que resista às tiradas dos populistas sem escrúpulos, numa altura em que os media tradicionais sucumbem perante a ditadura do clickbait, parece uma tarefa idêntica à de Sísifo, mas é uma premissa irrecusável para a prática de um jornalismo que assegure a divulgação objectiva dos factos. Como afirmou o sociólogo Daniel Patrick Moynihan, citado por Michiko Kakutani num seu ensaio recente, “todos têm direito à sua verdade, mas não aos seus próprios factos”.

 

Em A Morte da Verdade – A Falsidade na Era de Trump (Editorial Presença com tradução de Alberto Gomes), Michiko Kakutani considera que a ascensão do Presidente americano é o culminar de um conjunto de factores que contribuíram para “debilitar a verdade, desde a fusão de notícias com entretenimento, passando pela polarização tóxica que se apoderou da política norte-americana, até ao crescente desprezo populista pelo conhecimento especializado”. Kakutani recorda a comparação entre visões distópicas, feita por Neil Postman em 1985, onde este defendia que enquanto George Orwell em 1984 “temia aqueles que pudessem privar-nos de informação”, Aldous Huxley no seu Admirável Mundo Novo receava “que nos brindassem com tantas coisas ao ponto de ficarmos reduzidos à passividade e ao egoísmo”. Parecendo evidente que a abundância de fontes e a febre de viver online nos aproxima do “modelo” de Huxley, a autora considera fundamental não sucumbir à “fadiga do ultraje” que poderá conduzir ao “cinismo” e à “lassidão”. É preciso resistir.

 

Primeiramente, os reality shows destronaram as telenovelas; agora, o fluxo de notícias dos canais por cabo aniquilou os reality shows. A tese é de Michael Hirschorne, explanada num artigo na Vanity Fair de Dezembro (The cable-news addiction epidemic). Graças à indignação ininterrupta com origem na Casa Branca, explica ele, os canais por cabo são o destino dos que anseiam por ver o que se está a passar, “neste caso, ver em tempo real a nossa democracia a implodir”. E todos participam numa ilusão colectiva: a de que se mantêm informados e participam (através do Twitter ou do Facebook) na discussão política. Na verdade, acabam todos arrastados, conclui Hirschorne, para “um miasma de efemeridade e desinformação que os suga para o vortex trumpiano do pós-significado”.

 

Podemos imaginar a literatura na linha da frente da resistência ao assalto à verdade. Michiko Kakutani, no já citado ensaio, argumenta que “se um romancista tivesse engendrado um vilão como Trump (…) provavelmente teria sido acusado de extremo artifício e implausibilidade”. É a realidade a ultrapassar a ficção. Jennifer Egan, a celebrada autora de A Praia de Manhattan, defende na Time que tanto a literatura quanto a democracia se desenvolvem a partir da “pluralidade de ideias”. “Ao lermos e escrevermos”, prossegue, “recordamos a nós próprios o valor da empatia, da subtileza e da contradição”.  E conclui considerando que “a literatura é o antídoto para as distorções cegas – bem contra o mal, nós contra eles – que são exploradas facilmente por aqueles que nos querem manipular”.

 

Imagem: La Verité sortant du puits armée de son martinet pour châtier l'humanité de Jean-Léon Gérôme

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