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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

OS INSUBORDINADOS

Setembro 11, 2018

J.J. Faria Santos

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O anonimato é uma forma de cobardia? O editorial do New York Times é mais “propaganda que resistência”, como dizem os detractores e os institucionalistas? Prefiro ver a questão de outro ângulo. Se o escrutínio mitigado do Congresso falhar, se a oposição democrata se mostrar ineficiente, se o poder judicial for manietado, se a sociedade civil se declarar impotente, não será relevante que no interior da fortaleza onde o “impetuoso, conflituoso, mesquinho e ineficaz” Trump se compraz em emitir fatwas via Twitter alguém se preocupe com os seus “impulsos antidemocracia”?

 

Mesmo que a esta resistência republicana falte a grandeza moral e a coragem cívica de um John McCain, não deixa de ser reconfortante que, a dar crédito ao que foi proclamado, um grupo de funcionários com uma certa noção de serviço público e decência se empenhe em minar os piores instintos de um Presidente impreparado e prepotente. Com um bónus: a do prazer com que vemos um indivíduo manipulador, habituado a fazer prevalecer todas as suas vontades, ser mais ou menos subtilmente sabotado pelos seus subordinados (ou talvez seja melhor dizer gloriosamente insubordinados).

 

Gabriel Sherman escreveu na Vanity Fair que Trump já pensa na reeleição e até já tem lema de campanha (Keep America Great), notando que “o paradoxo da campanha de Trump é que o seu melhor trunfo, Trump, é também o mais complicado – uma bomba que ameaça, a qualquer momento, explodir na sua face”. Quanto ao candidato, refere o articulista, “não confia em absolutamente ninguém” e queixa-se de não ser bem assessorado na Casa Branca. O que o editorial anónimo do New York Times e os livros de Michael Wolff e Bob Woodward vêm confirmar é que, no que se refere à confiança, o sentimento é mútuo.

 

O que parece estar a deixar irritado parte do establishment político americano, que adoptou a expressão “golpe de estado administrativo”, é aquilo que Susan B. Glasser chama na New Yorker de “facadas nas costas e traições privadas” num ambiente de “secretismo e desconforto”. Longe, portanto, da luta política leal e frontal. Só que situações extraordinárias exigem medidas extremas. Que os próprios correligionários de Trump o reconheçam é sinal de que, apesar de tudo, a defesa da democracia e do primado da lei prevalece sobre as fidelidades partidárias.

 

Imagem: Wikimedia commons

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