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NO VAGAR DA PENUMBRA

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O TRUMP DOS TRÓPICOS

Junho 01, 2020

J.J. Faria Santos

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“No futuro, os manuais de História falarão de um doente mental assassino que foi Presidente do Brasil. É já o que reconhece o mundo inteiro. Mas o mundo inteiro não percebe como se chegou a isto”, escreveu o realizador Sérgio Tréfaut no Público de 24 de Maio, aludindo ao impacto da pandemia e ao descalabro do sistema de saúde brasileiro. Na Time, a jornalista Ciara Nugent escreveu que “mesmo pelos padrões de outros populistas de direita que procuraram desvalorizar a pandemia de covid-19, a maneira como Bolsonaro desafiou a realidade foi chocante”. Nada de verdadeiramente surpreendente, pois Bolsonaro deve ter aprendido com o seu ídolo na arte da política a promover “factos alternativos” quando a realidade não respeita os seus desejos, ou não fosse ele apelidado de Trump dos trópicos.

 

Sabemos que os seus modos são grosseiros, o seu estilo de liderança abrasivo e provocatório, e que colhe inspiração política nos protagonistas da ditadura, pelo que as suas credenciais democráticas são escassas, mas, mesmo assim, esperaríamos que o desenrolar de uma reunião ministerial ocorresse sob a capa da urbanidade e de alguma solenidade institucional. Em vez disto, tivemos o vislumbre de uma assembleia de governantes irados e à beira do descontrolo, como se fossem energúmenos a prepararem linchamentos. Um Presidente a asseverar a necessidade de alterações na Polícia Federal (“não vou esperar foder a minha família toda”) e a apelidar governadores e prefeitos de “bosta” e “estrume”; um ministro da Educação a manifestar a sua predilecção pelo encarceramento dos “vagabundos” juízes do Supremo Tribunal Federal; a ministra dos Direitos Humanos a sugerir a prisão de governadores por causa das medidas de confinamento e a estabelecer uma ligação estapafúrdia entre a pandemia e o aborto (“Será que vão querer liberar que todos que tiveram coronavírus poderão abortar no Brasil?”); eis três exemplos do delírio demencial e da espiral de ódio que transformou este encontro ministerial num misto de associação de malfeitores e agremiação de pacientes do manicómio.

 

Não deixa de ser irónico que Sérgio Moro tenha declarado à Time que no último ano o “novo governo não estava a cumprir as suas promessas de combater a corrupção e fortalecer as instituições”, e que “o seu foco é o Estado de direito”. A sério? E não hesitou em aceitar o convite para ministro de quem faz a apologia da tortura e declarou em Junho de 2016 que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”? Não lhe pesará na consciência ter servido de caução de responsabilidade e seriedade a quem se transformou numa perigosa ameaça a esse mesmo Estado de direito? O mais provável é ter sucumbido à vaidade, sobrevalorizando os (seus) fins e remetendo a legitimidade dos meios para a arena da futilidade.

 

O outro Sérgio, o cineasta, escreveu no citado artigo que estava “prestes a deixar o Rio de Janeiro, num momento em que já nem os hospitais privados dão garantia de atendimento”. E acrescentou: “Sinto-me na obrigação de fugir por razões de sobrevivência. Mas os 210 milhões de brasileiros não podem, nem têm meios para fugir.” De facto, nós não compreendemos como o Brasil “chegou a isto”. Conhecemos as teorias explicativas (a descredibilização do PT, a percepção de uma sociedade corrompida e corruptora a precisar de regeneração, o infame ressentimento de uma certa classe com a ascensão dos mais desfavorecidos), mas a escolha de Bolsonaro para liderar uma suposta nova era na política brasileira desafia qualquer racionalidade e qualquer crença. Como uma personagem de Clarice Lispector (a Lóri de Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres), não faltará quem diga: “Que é que eu faço, é de noite e eu estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro.” É preciso resistir. Combater a brutalidade e a ignorância. Apoiar a imprensa livre e todas as instituições de controlo democrático. Limitar o prepotente aprendiz de ditador e os seus intolerantes acólitos. Resgatar a decência humana.

 

Imagem: Twitter - Memetrópoles

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