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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O TRADUTOR DA ALMA

Fevereiro 13, 2022

J.J. Faria Santos

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É dito com frequência que em determinadas circunstâncias as palavras não fazem jus ao pensamento e, sobretudo, ao sentimento. Como se fôssemos abalroados pelo indizível, vítimas de um curto-circuito no hemisfério cerebral esquerdo, viajantes perdidos na tradução. É por isso que os dotados da capacidade de alinhar as palavras justas em frases lapidares são como tradutores da alma, descodificadores do nosso íntimo, verbalizadores mesmo do que nos custa reconhecer. José Tolentino Mendonça é uma dessas pessoas. Se duvidam, reparem nesta descrição das consequências do luto: “Choramos porque o luto nos destaca drasticamente de tudo, nos torna irremediáveis apátridas, cuspidos para fora de órbitra, feridos por uma dor irreparável e sem a poder gritar, numa abrasiva solidão que, uma vez deflagrada, não nos larga mais.” (Expresso, edição de 4/02/2022)

 

Medito nesta frase e ocorre-me a tragédia de Rayan e dos seus pais mergulhados num vórtice de dor e culpa. E experimento um certo asco por ver uma tragédia promovida a top story impulsionadora do sucesso de audiências de um canal por cabo. O mesmo desconforto a roçar o vómito com que vejo a entrevista ao avô do suspeito do ataque à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Se as pessoas não se protegem, por ingenuidade ou atordoamento, não deveria haver pudor por parte de quem noticia? Duas tragédias diferentes com pontos de contacto. Uma criança cativa num poço numa aldeia no norte de Marrocos e um jovem encarcerado num abismo de isolamento e incomunicabilidade. A impotência dos esforços de salvação versus a perdição na vertigem da agressão. Como explica Tolentino de Mendonça noutro artigo no Expresso (edição de 11/02/2022), na era da comunicação global “uma coisa é a conexão, outra bem diferente, bem mais rara, é a comunhão. Continua a ser uma ilusão pensar que a instantânea e ubíqua possibilidade de nos conectarmos é suficiente para satisfazer a necessidade profunda que todo o humano traz de se sentir acompanhado.” Que a reacção a um post ou a um tweet seja um like, por mais compensador que seja, não passará nunca de um placebo para a nossa inquietação existencial.

 

Imagem: 24.sapo.pt

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