Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O SULTÃO DO TWITTER E A VERDADE EM FUGA

Novembro 20, 2018

J.J. Faria Santos

trump_meme.jpg

O homem tem a altivez dos escolhidos. E gere as suas intervenções como se fosse um funâmbulo pisando a linha fina que separa a determinação da arrogância. Como se o sentido de Estado, e toda a dignidade da função, lhe tivesse sido incrustada no rosto como uma segunda pele. Porém, não há como não apreciar a clareza cortante de Emmanuel Macron quando afirma, tendo como destinatário Donald Trump, que “ser aliado não é ser um vassalo”. Ou a feroz defesa dos mecanismos institucionais, sublinhada pela irredutível noção de que “ a diplomacia não é feita com tweets, e sim com conversas bilaterais”.

 

A propósito da caravana que partiu das Honduras, e da proclamação de Trump no sentido de proibir os ilegais de solicitarem asilo nos EUA, Masha Gessen escreveu um texto notável na New Yorker online acerca da “falsa distinção entre ‘migrante’ e ‘refugiado’”. Que ela denomina de “ficção legal”, dado que pretende estabelecer que “as dificuldades económicas são de algum modo independentes da exclusão política e da perseguição política”. “Implícita nesta pretensão”, prossegue a autora “está a visão de que a desigualdade económica entre as nações é de algum modo natural, e por conseguinte, os cidadãos das nações mais ricas não têm a responsabilidade de acolher os que fogem da pobreza noutros lugares”. Gessen é particularmente assertiva na denúncia da “histeria trumpiana sobre o fluxo de imigrantes”, censurando a caracterização destes como violentos e criminosos, sendo que na narrativa oficial só muito poucos merecem ser acolhidos. E alerta para a necessidade de combater o argumento prevalecente de que “a livre circulação de pessoas pelas fronteiras é indesejável, assustadora e, em última análise, impossível”, porque doutro modo as pessoas que se caracterizam como “bondosas e compassivas continuarão a apoiar Trump e a guerra da sua administração contra os imigrantes”.

 

“Fazer campanha e incentivar a nossa base de apoio não é governar. Governar requer que se promova a aproximação dos diversos pontos de vista, em vez de simplesmente calcular ganhos e perdas”, escreveu, referindo-se a Trump, a historiadora Doris Kearns Goodwin na edição de Novembro da Vanity Fair. Num artigo em que compara as presidências de Trump e Theodore Roosevelt (descrito como uma figura carismática com apetite pela celebridade, feitio desafiador e talento para aforismos), com inquestionável vantagem para este, Goodwin traça um cenário actual preocupante onde as meias-verdades e as mais descaradas mentiras proliferam num ambiente putrefacto onde, cúmulo dos cúmulos, são as “análises críticas e as discordâncias [que] são classificadas como falsas”. Para a autora, neste inquinado jogo político, já não se trata de ganhar ou perder. Doris Kearns Goodwin destaca a “erosão do sentido” do discurso político, para antever um futuro próximo no qual “a confiança foi vaporizada e a verdade se tornou fugidia”.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D