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NO VAGAR DA PENUMBRA

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O RETRATO DE MELANIA TRUMP

Outubro 04, 2020

J.J. Faria Santos

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Consta que Melania não suporta Ivanka. E vice-versa. Referir-se-á à enteada com o epíteto desdenhoso de “a princesa”, a qual retribuirá na mesma moeda, apelidando a madrasta de “o retrato”. Retrato, porquê? Porque ela raramente fala. Bom, o silêncio pode ser eloquente. Mesmo que revele somente frivolidade, desinteresse ou um exacerbado sentido de autopreservação. Podemos sempre adicionar o factor decorativo (correndo o risco de engrossar as fileiras do patriarcado repressor e condescendente), mas a verdade é que a senhora Trump nunca mostrou na defesa das causas típicas de uma primeira-dama o empenho que devota à preservação da sua beleza ou à divulgação dos seus fashion statements. A sua figura pública (algures entre a coreografia do poder e o reality show televisivo) semeia, ocasionalmente, sinais de desobediência e rebeldia (um esgar irritado aqui, uma mão recusada ali…), mas tudo pode não passar de um pouco subtil esquema de negociação de privilégios matrimoniais num casamento atípico. Não seria surpreendente que, a destoar da sua beleza exótica, e tal como Dorian Gray, Melania mantivesse escondido num quarto desabitado um quadro que espelhasse a sua mesquinhez interior, onde, para citar Oscar Wilde, “a lepra do pecado devorava lentamente o rosto”.

 

E que comportamentos ou afirmações censuráveis podem ser atribuídos a Melania? Kali Holloway, num artigo para o Daily Beast em meados de Setembro, defendeu que a maneira como ela mente profusamente é a prova da sua semelhança de carácter com Donald, definindo ambos como “centrados nos seus interesses, fabulistas com a mania das grandezas, espalhando falsidades de cada vez que abrem a boca”. Segundo ela, Melania mentiu sobre uma miríade de assuntos, desde as suas habilitações literárias (não se licenciou, ficando-se pela frequência do 1º ano) à quantidade de línguas que fala (supostamente 6, mas ninguém a terá ouvido exprimir-se além do esloveno e do inglês), passando pela sua idade e pelas cirurgias plásticas. Holloway acusa-a de cumplicidade com o marido, ao desvalorizar ou ignorar em Donald o “mulherengo em série, mas também o predador sexual, a mentira patológica e o racismo virulento”.

 

Se Donald tem uma visão transaccional da actividade política, onde o que prevalece é a afirmação do poder e a capacidade de negociação, pode-se dizer o mesmo da primeira-dama, ou não tivesse ela aproveitado o início do mandato presidencial para renegociar o acordo pré-nupcial. E quando em 2015 lhe perguntaram se teria casado com ele se ele não fosse rico, a resposta surgiu sob a forma de outra pergunta: “Se eu não fosse bonita, acha que ele ficaria comigo?” É caso para dizer, parodiando de forma não particularmente original um standard do cancioneiro americano, The Lady is a Trump. Como também nota Kali Holloway, num momento de “transparência acidental”, Melania revelou encarar a sua condição de primeira-dama como uma oportunidade única de lançar “uma marca comercial de base ampla numa múltipla categoria de produtos”. Do mesmo modo que os concorrentes de um reality show amealham reconhecimento e popularidade que depois capitalizam em “presenças” em eventos e outros proventos comerciais, Melania Trump (à semelhança do resto da família, diga-se) viu no mandato do marido sobretudo um gigantesco golpe publicitário. Resta-nos admitir que para presenças em eventos, nada melhor do que um retrato.  

 

Imagem: Wikimedia Commons

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