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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O RACISMO NUNCA EXISTIU

Julho 03, 2018

J.J. Faria Santos

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Vive em Portugal há 16 anos e há dois, quando se preparava para mudar de habitação, foi interpelada por um futuro vizinho: “Oh, preta, para onde estás a ir?”. Alguns dias depois, arremessou-lhe uma garrafa e deu-lhe um pontapé. Era preciso escorraçá-la. Há pouco mais de uma semana, numa paragem de autocarro, após ligeiras altercações, foi abordada pelo segurança que a agrediu violentamente com dois socos e a imobilizou no solo. Nas palavras da vítima, Nicol Quinayas, “depois de me bater veio para cima de mim com os joelhos, como se eu fosse um troféu”. O garboso atleta de um wrestling assustadoramente real garantira a Nicol: “Aqui não entras, preta de merda!”, a que se seguiu o tristemente clássico: “Vai apanhar o autocarro na tua terra!”.

 

No seu Caderno de Memórias Coloniais, Isabela Figueiredo escreveu: “O negro estava abaixo de tudo. Não tinha direitos. Teria os da caridade, e se a merecesse. Se fosse humilde. Se sorrisse, falasse baixo, com a coluna vertebral ligeiramente inclinada para a frente e as mãos fechadas uma na outra, como se rezasse.” Será possível que mais de quarenta anos depois do fim da guerra colonial persista no subconsciente de um povo uma noção absurda de superioridade de braço dado com uma assustadora falta de empatia pela condição humana? A celebrada amabilidade com que acolhemos os estrangeiros que nos visitam ou vivem entre nós não é generalizada. Aparentemente, há quem espere de alguns o low profile de uma cidadania diminuída, a subserviência agradecida, a gratidão temerosa, a subalternidade dos inferiorizados.

 

Acerca do nosso passado, Isabela Figueiredo escreveu “sobre o que muito se calou ou escondeu”. “Não vimos, não sabemos, nunca ouvimos falar, não demos por nada.” O nosso presente tem a vantagem de não autorizar o esquecimento. As indignações tantas vezes fúteis das redes sociais também servem para afirmar e amplificar os valores civilizacionais que prezamos. O silêncio não é opção quando pode ser confundido com anuência ou tolerância. Ou ainda quando pode servir de suporte à noção estafada do país de brandos costumes onde o racismo nunca existiu.

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