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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O QUE IMPORTA É O INTERIOR

Fevereiro 14, 2019

J.J. Faria Santos

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O que importa é o interior, dizem elas, voluptuosas em vestidos coleantes que esculpem a figura e descobrem a pele, idealmente na exacta medida em que a ousadia se furta à vulgaridade. O que importa é o interior, dizem eles, reluzentes no cabelo com gel, enquadráveis algures entre o protótipo do craque de futebol e o casual chic dos actores de telenovela. O cenário é o de um programa de televisão, sob a forma de um restaurante, onde se pratica a velha arte da promoção da compatibilidade amorosa, o jogo da sedução.

 

Os mais jovens gostam de arvorar maturidade; os mais velhos de anunciar a sua predisposição para a aventura. É compreensível que ambos exaltem o blind date como uma experiência nova a não perder. No século XXI ninguém quer perder experiências novas. Nem sequer os mais velhos. Em poucos minutos descobrem afinidades insuspeitas e reticências disfarçadas. Quase todos desabafam que o homem ou a mulher que lhes calhou não é o tipo de pessoa que idealizaram. O que importa é o interior, claro, mas a carne é fraca e neste repasto com pratos com nomes sugestivos os olhos também comem.

 

O jogo da sedução conta com diversos estímulos que vão desde inquéritos com perguntas sugestivas de escassa subtileza (do género, o tamanho conta?) até  danças sensuais (que não resultam em descalabro porque são redimidas pelo riso), passando por pudicas massagens que facilitam a aproximação física. Mas o que importa é o interior. E de que é que nós ouvimos falar quando se evoca o interior? Exactamente, das assimetrias regionais e da desertificação. Acham deveras que não se aplica a este contexto? Imaginem quantas pessoas não trarão dentro de si um deserto afectivo. Ou quantos e quantas sucumbem aos apetites propiciados pelo centro do seu corpo, perdendo o norte. Ou quantos quererão perder o norte e se recusam a deitar fora a bússola do que é socialmente considerado adequado.

 

A verdade é que o conhecimento do interior é uma tarefa que exige tempo, ponderação, persistência. O exterior é mais imediato, sensorial, artificioso. E não há jogo sem artifício. No final de contas, Oscar Wilde era capaz de ter razão quando escreveu que “ é preciso ser muito superficial para recusar julgar pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível”.

 

Imagem: Courtesy of Bert Christensen

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