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NO VAGAR DA PENUMBRA

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O PÓS-GERINGONÇA, A TRISTEZA E O CATETERISMO

Outubro 15, 2019

J.J. Faria Santos

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A governação de geometria variável com prioridade à esquerda sucede às “posições conjuntas” e aos acordos escritos. Nem mesmo o talento negocial de António Costa seria capaz de erigir uma Geringonça 2.0 com parceiros que perderam dezenas de milhares de votos sem a ameaça do passismo-portismo. Também as convergências com o PSD para as sempre incensadas e algo obscuras e indeterminadas “reformas estruturais” parecem severamente ameaçadas, quer pelo resvalar de Rio para a insinuação ofensiva na recta final da campanha, quer ainda pelo assalto ao poder em curso no partido fundado por Sá Carneiro.

 

É um exagero dizer que ele é, como disse José Miguel Júdice, “um homem mesquinho e vingativo”. Ou, na formulação de Vasco Pulido Valente, considerar que “se alguém ainda pensa que este homem pode ser primeiro-ministro, é porque perdeu a cabeça”. Na noite das eleições, Rui Rio limitou-se a ser genuíno, sem filtros, como tantos apreciam, condição nada propícia, na maioria das vezes, a manifestações de elegância e grandeza.

 

Assunção Cristas foi elogiada pela presteza com que desapareceu de cena. Vítima da sua própria megalomania, conduziu uma campanha que, a medida que as perspectivas se tornavam cada vez mais negras, não hesitou em recorrer às proclamações trogloditas que costumavam ser marca registada de Nuno Melo e acabou próxima do estado de choque. A simpatia que parecia recolher dos contactos pessoais foi dinamitada pela postura ideológica do combate às “esquerdas unida”, que, paradoxalmente, parte do seu eleitorado deve ter achado demasiado branda, de tal forma que se transferiu para a Iniciativa Liberal.

 

O tribuno da CMTV chegou ao Parlamento enquanto frontispício do Chega! Esta apresentação do partido, com a exclamação acoplada, é todo um programa. É como se toda a indignação acumulada e todo o ressabiamento das caixas de comentários e das mesas dos cafés e das colectividades estivessem representados numa espécie de emoji carregado de exasperação e veemência. Agora que chegou ao hemiciclo, o populista extremista pondera abandonar a universidade mas não a televisão. É que a televisão “não é uma profissão mas é algo que é importante para nos darmos a conhecer ao público”. O académico prescinde do convívio com as elites privilegiando as epístolas televisivas ao povo como complemento da sua acção parlamentar.

 

O taciturno acordou entristecido e decidiu informar Portugal desse estado. Os portugueses, sobressaltados, acotovelaram-se para se inteirarem do estado de alma de Cavaco Silva e perceberam que o professor interrompera a hibernação para colaborar activamente na acção de despejo de Rio. E que aproveitara para defender a importância da “pluralidade de opiniões”. Se há legado de que Cavaco Silva se pode orgulhar é precisamente a forma como sempre estimulou o livre debate e tolerou magnanimamente a dissensão…

 

Impusera a si próprio o silêncio. O tempo era dos partidos. Mal cessou o sufrágio, impaciente, regressou o Presidente para ocupar espaço político e liderar a agenda mediática. Abordou pela enésima vez a questão da sua reeleição e adicionou a questão da sua saúde, aparentemente de forma (como diria António Costa) inopinada. De tal forma que teve de vir esclarecer que não estava em causa nada de grave. Tenho pena que a entrevista ao Alta Definição não tivesse ocorrido depois do cateterismo. Se assim fosse, Daniel Oliveira poderia inovar e terminar o programa perguntando a Marcelo: “O que dizem as suas artérias?”

 

Imagem: Inimigo.publico.pt

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